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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Era uma vez um país...



Hoje em dia toda a gente vai para Londres. Eu fui parar a Guiné-Bissau para participar num workshop sobre documentários naquele continente, pois, foi lá que deixei o meu cordão umbilical. Ando em busca das origens ... e isso é já uma boa razão para reiniciar este blogue depois de uma inter-missão (entenda-se intervalo para realizar uma missão).


Ah..., para quem tem lido este blogue ao longo destes dois anos devo dizer que decidi não disponibilizar aqui as minhas imagens video, por uma questão de bom senso (conselho do meu amigo realizador de documentários Miguel Clara Vasconcelos, da Andar Filmes). Para este suporte de informação a internet já está a tornar-se um local pouco seguro. Alem disso o fenómeno do video-instalação parece ser mais consistente do que ter um V.log na internet, pois acaba por criar uma experiência mais humana no espaço relacional da arte, mais interessante do que esse espaço impessoal e virtual da net. Claro que isso não é novidade para ninguem mas eu procurei descobri-la do modo mais radical possível ...


Portanto fui parar á Guine-Bissau, considerado já um narcoestado. Aí, valiosos Jeeps e outros carrões percorrem ruas arruinadas e parece que, como em qualquer governo corrupto, lá as coisas são obtidas não pelo esforço de construção de um país mas sim por expedientes obscuros e continuados que não atendem ás concequências morais e sociais que daí advêem. As ruas da capital Bissau são despojos da guerra e da pobreza; os passeios estão literalmente arrancados do chão; o antigo palacio do governo está todo esburracado e, pasme-se, é diante dela que se levanta a bandeira do país ás duas horas da tarde. Conheci lá dois jovens talentos da escultura - o Joaquim e o N'Djai - que ocupam o seu espírito durante o dia, no Centro Artístico Juvenil, na produção em pau de sangue de figuras e símbolos da sua cultura étnica como régulos e irans, cuja força mitológica equivale no mundo moderno ao papel dos nossos parlamentaristas, políticos e religiosos. A partilha destes dois universos não os confunde. Agarram-se a velhas formas e ontologias porque acreditam que é dali que vem a sua força e é talvez por isso que os centros urbanos (a capital do pais espelha isso) não tem importância enquanto construção do espírito humano. Enquanto trabalham morosamente o seu material o mundo lá fora deixa de existir: se não se puder salvar um país em vias de se transformar na «Colombia da África» salve-se pelo menos o Joaquim e o N'Djai. Se fores a Guiné Bissau visite o Centro Artístico Juvenil da capital e salve o Joaquim e o N'Djai. Outros esforços em relação aos problemas desse país em http://www.odiaquepassa.blogspot.com/.


Eu, por enquanto, vou salvando as minhas memórias ... neste tempo de lobos ... e o meu blogue já leva - faz hoje - 2 anos de existência, portanto ... velinhas!!

terça-feira, outubro 16, 2007

Z de Zen (a Oriente) e Zweckrationalitãt (a Ocidente)

O melhor de dois mundos - a ocidental e oriental apresenta-se, a meu ver, sob duas formas de consciência expansivas, uma mais racionalizante e metódica do que a outra. Ambos constituem de certo modo o alfa e o ômega da consciência e do labor humano. Isso vem a propósito de algo que li na revista «Exame» sobre gestão e economia: «Sri Sri Ravi Shankar ensina produtividade Zen - uma técnica de respiração indiana ensinada no local de trabalho promete aumentar a produtividade. A PT é uma das 30 empresas que já aderiram.» O guru Sri Sri Ravi Shankar, que já tem milhões de seguidores, criou a Fundação «Arte de Viver» e concebe cursos específicos para empresas onde são ensinadas técnicas de respiração para elevar a satisfação e a produtividade. A busca activa do satori - a libertação ou iluminação - está incluída num programa empresarial mais vasto chamado Achieving Personal Excelence. Neurologistas indianos demonstraram, até esta altura,, que a práctica regular da sudarshan kriya processo de respiração com vários ritmos tem uma taxa de sucesso de 68 a 73% no tratamento da depressão no local do emprego. Respirar com consciência e meditar são prácticas que têem vindo a prender a atenção do mundo ocidental. Com isso a práctica Zen ultrapassou as portas dos templos budistas orientais para chegar ao mundo do trabalho. São os tempos: importamos espiritualidade.


Outro mundo é aquela que parte do conceito originalmente adoptado por Weber: zweckrationalitãt (racionalidade instrumental) e que Feinberg faz recair na importância dos símbolos para a vida pessoal e para a estabilidade social. Não podemos ter uma coerência individual e vida colectiva sem avaliarmos a nós próprios como símbolos e modelos racionalizantes. Isto para a realidade quotidiana é de extrema importância. Ambos os mundos podem ser conciliados, a meu ver, se pretendermos manter-mo-nos «normais» neste tempo de lobos. Seja como for, para muita boa gente basta simplesmente pegar numa bicicleta ao final do dia e avançar em direcção ao pôr do sol...

segunda-feira, outubro 15, 2007

Santa Teresa krê pa pobreza ser
Rainha li di bâxu* y ê sima stá skrebêdu.
Pôkus Kusas è ta flá dês governason,
Y é ka ta fika sô pa detalhes ki ta sobra

Mas pôntu krucial, na sê opinion, kel kusa ki nu ten ki ôdja:
Livre arbítriu ta pêsa, ta argumenta y ta parlamenta,
Dipôs pôbri-di-kurason ta dicidi y ta sigui sê kaminhu.

Kênha ki ta impidi'l? Sê ûniku deseju é ka ôtu
Sinon keli: stá, um dia, entre kel númeru di eleitos
Servidor poderosíssimo, soberânu poderosíssimo.

Pródigu y, acima di tudu, ka ta liga kusas materiais, di ten
Mas ta akumula sempri kûsas ke ba ta sabe:
Pa súbditu tan altivu y livre - ki rainha!

Paul Verlaine [Traduson ku tradison]

* Dicotomia céu-terra, paraíso-inferno.

terça-feira, outubro 09, 2007

Y libre!

Y no es suficiente con que el pensamiento busque su realizason, es preciso que la realidade busque el pensamiento ... y asi pues que no hay gesto radical que la ideologia no intente recuperar... y los que se quedan en contestacion parcial integran la función opressiva del gobierno...y en concecuencia se quedan prisoneros de todo el sistema... y no se cultivan mucho...y no tienen, quizas, una postura y imaginación ficcional... y su realidad es una forma de armazén, sin contenidos; un local donde todos entran e salen iguales... donde la mediocridad es la norma... y no respéctan nada y nadie...y no respectan ya el orden moral y familiar...y no saben cual es sus verdaderos origenes ... y sin intentarlo se créen justos... y sin saberlo todo, se creen inteligentes... y solamente porque compran el ultimo modelo de mobile Nokia se creen llenos de conocimiento y sabedoria sobre las cosas... y, sin saberlo, ya son los nuevos esclavos de la era tecnologica... y solo escuchan la repetición... y nunca escuchan a la cancion... y no danzan una musica que ha sido hecha para danzar... y no saben dialogar uno con el otro... y quando lo hacen es con un transfondo musical inadecuado para hablar... pero lo que me da rabia es que te hacen sentir una mierda quando los dizes que tienen razon, por respecho a su opinion... y si, que son locos, ellos... y tienen una falsa dinamica... y beben mucho ... y sin conocerlo bien ya lo quiéren...
... y, solamente, algunos de ellos (los mejores?) dominam sin esfuerzo los miserables controles de capacidad previstos por los mediocres, los dominan perfectamente porque han compreendido el sistema, porque lo desprecian, y se saben sus enemigos... y asi toman del sistema político lo que tiene de mejor: los privilegios ... aprovechando los fallos de control. Asi ya me gusta.
Fuente: De la miseria y la carcel en el medio estudantil de la nueva generación


Che sempre fumava os charutos mais baratos possíveis, chamados cazadores.

quinta-feira, outubro 04, 2007

X e Z: duas variáveis presas a eXistenZ

No mundo livre contemporâneo estaremos, na verdade, a viver numa imensa prisão? Na sua obra«eXistenZ», o reconhecido cineasta David Cronenberg apresentou, em 1999, uma tese e transformou o seu cinema num jogo deveras sofisticado. Nesta obra o cineasta observa o mundo como se fosse um campo de novas percepções dentro do qual a espécie humana está começando a sofrer um interessante processo de mutação colectiva. O cineasta canadense parece fusionar os discursos das suas películas anteriores para atribuir um certo sentido a um mundo sem raízes, no qual a substância orgânica se metamorfoseia em mecânica, e a biologia se transforma em química inorgânica. Nesta obra a biologia humana gera novos órgãos, a sexualidade ganha novos canais fisiológicos de experimentação - representados pelo casulo e pela bioporta - e os sujeitos se converteram em seres presos e agarrados a um jogo virtual. Os protagonistas de eXistenZ são conscientes de estarem participando num sofisticado videojogo; atravessam numerosos mundos em busca da sua identidade mas no final de todo o processo apenas adquirem a certeza de se encontrarem perdidos ad eternum num jogo cujos limites com o mundo real se encontram diluídos. Nesta ideia de um mundo de psicose generalizada o programador/arquitecto do jogo surge como o demiurgo que faz a sua aparição como um autêntico deus ex-machina. Muitos filmes posteriores , tal como Matrix, têem sugerido esta lógica de ideias e e, já num registo diferente, o filme Esfera fez convergir o processo todo apresentado-o como cosa mentale. A ideia de prisão e liberdade foi sempre um excelente binómio para multiplos argumentos de cinema mas para mim o mais radical e o mais cinematográfico, ao nivel da forma, talvez tenha sido Underground de Emir Kusturica.

terça-feira, outubro 02, 2007

X... pa Electra: nôs grandi inkógnita

Electra é maior inkognita ki ten na Cabo Verde, em termos di geston i di kapacidadi di soluson de prublemas. Ês é um erro sistemátiku na kualker geston racional di um kasa, di um estado: planeta i universu intêru kumesa pa energia i sê regularizason! Sem kel nu ka ta pôdi faze nada nem siquer tem um ideia di nós própri funsionamentu. Di Elektra dja passa limite, nha guênti. Dj' ê sa ta fika un intropia difícil di resolvi. Xiça!! Desculpan es Xpreson li, leitor.

En vez di buzinon pa kapital debia ta fazeda un romaria de velas pa cidadi. Dja nhós imagina: un multidon, iluminadu apenas pa velas ki kada un stá traze na mon, ta anda na Avenida Marginal ou na Avenida Cidade de Lisboa na mei di sukuru, ta bai manenti ti instalason di Elektra pa bai deposita na sê porta milhares de velas. Ma parcen ma, sima tud alguem dja intendi, si tud bez ki tiver un apagon de Elektra fazedu um romaria, é ta kaba pa bira folklore i passadus di li uns tempos nu ta lê num obskuro revista de turismo internacional álgu n'es stilu li: «Cabo Verde é tambem um país conhecido pela sua romaria silenciosa de velas em tempos de apagão, um problema insóluvel do seu Governo, mas que já se tornou um hábito cultural naquele estranho país da costa ocidental africana». Ayan, parcem m'ê pa Pro Praia i ADECO, na Mindelo, poi di guarda en relason a es tXakóta contra residentes i consumidores.

segunda-feira, setembro 24, 2007

W de What'a-Wonderfull-World-Wide-Web

A Web 3.0 será o futuro da internet. As actuais investigações vão no sentido da criação de uma nova mega estrutura destinada a substituir o actual world wide web. A Web 3.0 está em fase de preparação e representará uma nova forma de navegar, mais rápida e eficaz e principalmente com maiores potencialidades. A velocidade de navegação será de 50 Mb/seg. As causa desta revolução silenciosa que já foi iniciada deve-se ao boom das redes sociais (Myspace, Hi5,...), tv on line, vídeos e redes peer-to-peer. A world wide web deixará de existir, daqui há alguns anos, e passará a assumir a designação de World Wide Database: deixa de ser uma rede de documentos passando a ser uma rede de informação. Uma das grandes revoluções é que a extensão «.com» extinguir-se-á e surgirão dominios mais pessoais e particulares, do estilo http://www.minhapágina.helena.hn/.
Recorde-se que a world wide web foi criada por um inglês Tim Berners-Lee e por um belga Robert Cailiau, cientistas do Centro Europeu de Investigação Nuclear da Suíça.
Wikipedia passará a ser Wika
Jimmy Wales vai apresentar, em Dezembro, a Wika - versão beta do novo motor de busca Wikipedia. O fundador da enciclopedia Wikipedia quer, com esta mudança, fazer frente ao Google em algumas matérias.
Fonte: FCCN / Newsweek

V de «Voyelles» e Visionário



O meu amigo inglês Joe Underwood pintou «The Pile Up of Progression» inspirando-se em «Voyelles»* do visionário-anárquico Arthur Rimbaud (1854—1891):

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles, / Je dirai quelque jour vos naissances latentes: / A, noir corset velu des mouches éclatantes / Qui bombinent autour des puanteurs cruelles, / Golfes d'ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes, / Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles; / I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles / Dans la colère ou les ivresses pénitentes; / U, cycles, vibrements divins des mers virides, / Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides / Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux; / O, suprême Clairon plein des strideurs étranges, / Silences traversés des [Mondes et des Anges]: / — O l'Oméga, rayon violet de [Ses] Yeux!

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* [Tradução de Gaetan M . de Oliveira]:

Vogais
« A negro, E branco, I vermelho, U verde, O Azul: / Das vogais direi um dia os partos latentes: / A, veloso corpete negro das luzentes / Moscas que rondam fétido e cruel paúl, //
Golfos de sombra; E, candura de fumos e tendas, / Lanças de altivos gelos, reis brancos, tremor de umbela; /
I, púrpuras, cuspo e sangue, furor / No riso dos lábios belos, ébrias emendas; // U, ciclos, vibrações divinas
dos virentes / Mares, paz de pastos e gados, das pacientes / Rugas que a alquimia imprime em sábios sobrolhos; // O, Clarim supremo de estranhos gritos fundo, / Silêncios cruzados por Anjos e por Mundos: / — Ô, de Ômega, raio violeta dos Seus Olhos!»

sexta-feira, setembro 21, 2007

U de Utopia

«O homem não está só na história, mas leva sobre si próprio a história que explora»
Raymond Aron

A crise da realidade provocada pela Guerra do Golfo, em Janeiro de 1999, e posteriormente pela guerra do Afeganistão, em 2001, gerada como represália aos atentados de 11 de Setembro, levantou o problema da utopia da objectividade televisiva: a imposição de uma hipotética história objectiva da guerra não teve sentido. O poder omnisciente da CNN encontrou, desde logo, um contraponto na contra-informação da cadeia televisiva do mundo islâmico AL-Jazeera. O jogo sujo da guerra das imagens - que se impôs e se impõe durante esses acontecimentos - não cessou e numerosas imagens e informações se colocaram sob suspeita. Talvez a única excepção tenha sido, infelizmente, o atentado de 11 de Setembro contra as torres gémeas de Nova York, em que o relato informativo tel quel superou todos os filmes de catástrofes hollywoodescos.

A crise da verdade televisiva e com ele o modelo de utopia da informação pôs em crise um modelo de realismo entendido como afirmação da objectividade e trouxe ao primeiro plano os limites da ficção. O efeito bigger than life hollywoodesco fornecido pelos relatos comoventes dos protagonistas das tragédias tão pouco resolve esta crise. Atente-se por exemplo no caso do casal McCann - cuja filha Madeleine foi supostamente sequestrada – que, para já, começa a ganhar contornos grotescos e assombrosos prefigurando-se, talvez, como o maior embuste televisivo infligido ao espectador.

O problema de fundo é que se começa a estabelecer uma fronteira volúvel e confusa entre o real e a ficção. Estabeleceu-se já, ao nível do conhecimento humano, uma reformulação do conceito clássico de ficção que voltou a centrar o debate na necessidade ficcional como instrumento para o conhecimento e questiona-se, cada vez mais no mundo académico-universitário, a importância que a ficção pode exercer dentro de uma cultura contemporânea na qual se impôs, para já, uma crise de objectividade informativa. Tal constitui, por exemplo, a posição de Jean Marie Schaeffer na sua obra Pourquoi la ficcion? ( Paris, Seuil, 1999).

Para chegar ao conhecimento das causas reais a história teria que deixar de ser explicação para transformar-se em interpretação das intenções, sentimentos e razões das pessoas envolvidas, defendia Georg Simmel, ainda, no inicio do sec. XIX. Deste modo, somos cúmplices de toda a realidade e estaremos, então, a buscar a nossa verdade ao elevar o nosso nível de interpretação, daquilo que levamos em nós, para ultrapassar essa contínua suspeita em relação á informação televisiva.
A tendência actual é que o cinema de ficção como documento histórico pode estar a responder facilmente a algumas das questões que se encontram em contínuo movimento no presente, mediante a sua fabulação. Chegou-se á conclusão de que as imagens já não são o reflexo da realidade mas sim uma construção dela estando condicionada pelo pensamento que o cineasta inscreve, na qualidade de construtor das imagens. Os procedimentos de carácter estrutural, formal ou técnico dos cineastas devem, em princípio, desvelar o pensamento de uma época. Os casos mais significativos dessa construcção talvez sejam a América paranóica de Oliver Stone; o binómio corpo vs. virtualidade de David Cronenberg; ou o absurdo e queda em abismo de Abbas Kiarostami.

quarta-feira, setembro 19, 2007

T de Temperamentu, Tíru y Têra-Têra

T di Têmperamentu

Era un bez un rapaz ki tinha mutu mau tempêramentu. Sempri ku sê rostu runhu é ta txomaba tudu alguem di ignorânti, «besteirol», y ot'ora é tinha un manêra pôku ortodoxu di kôba alguen. Por isso sê pai da'l um bôlsa di prêgus y é fla-l p'e prega-s na parêdi de madêra di ses jardim tudu bez k-e perdi paxenxa ô diskuti ku alguem. Na primêru dia é prêga 37 prêgus. Mas passadu uns semanas é prende kontrola e, asi, númeru di pregus marteladu na parêdi di madêra ba ta diminui dia pa dia: é tinha diskubertu ma era más convenienti pa êl controla sê temperamentu di ki prêga prêgus na parêdi di madera. Uns semanas dispôs é ba djôbi se pai y ê-fla-l ma duranti kel dia é ka martela nenhun prêgu. Sê pai fla-l nton p' ê trá un prêgu pa cada dia ke ka perde paxenxa. Dias ba ta passa y finalmenti rapaz pôde flá sê pai ma dj'ê kaba de trá tudu prêgu di parêdi.
Nton sê Pai, xei di intenson, lêba'l pa djuntu di kel parêdi di madera xeiu di brákus y é fla-l: "Nha fidju, bu comporta drêtu, mas ôdja tudu bráku ki stá na cerca. È ka ta ser jamás kel u-mesmu di antes. Ò ki bu briga ku alguen y bu fla-l algu ki ta mâgua-l ô ta maltrata-l bu ta provokal um pankáda moda keli. Bu pôde mêti un fáka num hômi y dipós bu tra'l, mas ta fika sempri un pankadinha lá. Ka ta importa kantu bez bu pidi-l diskulpa: cicatriz ta fika lá pa sêmpri.»

T de Tíru
Kel stória sta bem a propósitu di un kâsu ridíkulu entre dôs puetas simbolistas francês di sec. XIX, ki dam graça: Paul Verlaine dá sê amigu Rimbaud um tiru dipôs di un discusson, é ba kadeia dôs ânu. Kantu é sai é tenta pidi Rimbaud diskulpa di tudu manêra, duranti tudu sê vida, mas foi en van. Ma si nu djôbi ses skritus nu ka ta ôdja nenhun índice di violencia, só musikalidadi y beleza ráru. È, sim: mediokridadi y arte pôdi convive djuntu na un mêsmu personalidadi.

T di Têra, Têra!
Têra-têra! N têni un grôgu kana-kana lá na kasa ki N ta tôma têpu-têpu, badiomenti y na paz di sprîtu. Sen fadiga txeu ... nes têmpu di lobos.

terça-feira, setembro 18, 2007



APARTIR DE HOJE TEREMOS, PELA PRIMEIRA VEZ, NO TEMPO DE LOBOS UM COLABORADOR - O MEU AMIGO INGLÊS JOE UNDERWOOD QUE VAI CONTRIBUIR COM AS SUAS TELAS E COMPOSIÇÕES PICTÓRICAS, ALGUMAS DELAS FEITAS COM BONECOS INFANTIS, PARA CARACTERIZAR ESTE TEMPO EM QUE VIVEMOS.
JOE UNDERWOOD É TAMBÉM UM VEGETARIANO CONVICTO: ACREDITA QUE A CARNE E OS SEUS DERIVADOS AUMENTAM, EM TERMOS BIOQUÍMICOS, OS ÍNDICES DE VIOLÊNCIA NO HOMEM.
INICIAMOS, ASSIM, COM UM CLOSE UP OF STYLE.

segunda-feira, setembro 17, 2007

S de Site-Sapo.cv

A PT vai arrancar o seu portal www.sapo.cv, exclusivo para Cabo Verde, em Outubro. A organização do portal será idêntica à do sapo.pt, com as naturais adaptações para a realidade cabo-verdiana. O portal terá notícias e uma área da Comunidade, onde estarão alojados videos, blogs, fotos, etc. Joaquim Arena [http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=22522], jornalista, escritor e advogado, autor do romance «A verdade de Chindo Luz», é o gestor editorial e pretende contactar bloggers crioulos, de todos os cantos do mundo, para se alojarem também no domínio sapo.cv. Passe a palavra entre o pessoal que mantêem blogs, filmes e fotos na net sobre Cabo Verde, pois será um portal exclusivamente para o nosso país.

R de Roberto Rosselini [«Roma-cidade aberta» (1945)]

Entre 1943 e 44, Roma, sob ocupação nazista, é declarada "cidade aberta", para evitar bombardeios aéreos. Nas ruas, comunistas e católicos deixam suas diferenças de lado para combater os alemães e as tropas fascistas. De salientar que as filmagens de Roma, Cidade Aberta iniciaram-se ainda durante a ocupação Nazi na capital italiana, o que confere ao filme aquele carácter de documentário. O filme é considerado um dos maiores da história do cinema pela crítica especializada e é estudado em todas as escolas de cinema e de documentário do mundo. Filmado em locais reais e com actores amadores, Roma, Cidade Aberta tornou-se, assim, o marco inicial do neo-realismo italiano, provando que é possível fazer-se cinema mesmo sob as condições mais precárias. Enfim, todos os caminhos (do real) vão dar ao ... cinema.

sábado, setembro 08, 2007

Q de Quero-Que-Quebres-e-te-Quedes-Quente, Querida.

Gosto do mar. Gosto de ir á Quebra-Canela, gosto de vir-me... da Quebra Canela.


Uma vista rápida por cima da montanhas, curvas e enseadas. Já perto do mar, por cima da enseada, a espuma das ondas propaga o seu halo quente até mim. Desço a enseada arenosa do dorso da colina que resvala até á praia arenosa e quente. «Oh! esta areia está mesmo quente.» Apresso os meus passos em direcção á orla do mar, num misto de ansiedade e prazer. Quedo-me por uns instantes na areia para lhe tirar o odor e o calor. De seguida meto-me sem contemplações naquela água quente e húmida; meto-me a fundo até aos corais passando ao de leve a roçar as ouriçadas. Permaneco-me ao fundo ondulando-me o tempo suficiente para ter aquela sensação de perda, do absoluto, de proximidade, de pequena morte. Volto á tona: uma onda enorme de calor, água e vapor, está prestes a cair-me em cima da cabeça. Pensei furar ali mesmo e acabar, o que seria frustrante; mas em vez disso faço aquilo que os craques da Quebra-canela chamam de «panha cachorro» - até á praia. Prancho todo o meu corpo sobre a superfície límpida e húmida do mar e deixo-me ir. O meu coração aumenta de cadência e bate compulsivamente, enquanto movimento as minhas nádegas e os pés tentando manter-me na crista da onda. A toada imensa de água, sal, espuma, força, leva-me prazerosamente até esvanecer-me na praia. «Ahhhhhhh...hmmmmm, foi boa a cachorrada». Aí deixo-me ficar algum tempo, ofegante, no seu leito cremoso. Ela - o mar - quente, quente, quente, ... como só ocorre em algumas tardes solarengas de Domingo. O sol continua a beijar-me o rosto e a língua troteante da água alisando os meus pêlos do peito. Os gritos e risos das crianças em brincadeiras na praia chegam ao meu ser como um cântico de querubins. Instantes depois, que pareceram uma eternidade, levanto-me para pegar uma onda ainda mais bonita e voluptuosa. 'Got the Picture?


terça-feira, setembro 04, 2007

P de ... ?

Mágica de bastidores, figuras clownescas, burlescos cinematográficos, intimidadis ... tudo isso apaga-se perante um facto que já comprovei: as pessoas são sempre mais sofisticadas do que aquilo que parecem. Kantu grau di sofistikason stá na bô, leitor? É tan forti ki ta bai ti pou kai na vaziu, moda cinema de Robert Bresson? Ô é moda sonoridadi di Charlie Parker kantu kumesa ta toca? [ a' êl é foi di tan grandi sofistikason k' es mandal studa ôtu bez]. Ô kel grau é similar a kel di Vasco Martins ki dja tinha sê composisons na obidu stranjeru, mesmu antes de um estudanti di têra sábe kem el ê? Ô é môda kel ki Ferro Gaita traze pa funaná di têra? Ô bô é tan poko sofistikadu k'es ta txomou koitadu?

Es P li ta fika na bu kritériu: atribuil um sequenciason di acordu ku bu sofistikason.
Foto: «Angelus Novus» de Paul Klee

sexta-feira, agosto 31, 2007

O de OUT

Há umas semanas atrás ajudei uns colegas brasileiros a procurar apartamento aqui em Lisboa. Depois de várias olhadelas e senhorios ansiosos por alugar chegamos finalmente á zona da Ajuda (Deus estava connosco). A senhoria até era uma boa senhora: daquelas mulheres portuguesas que parece que ainda vivem no tempo da monarquia. Tratou-nos como a seus súbditos e alugou aos meus colegas o apartamento calmo e tranquilo. A rua chamava-se Rua Filinto Elísio. (isso mesmo! aqui mesmo em Lisboa!) Daí, pensei: mas não será o ...? Bem mas a minha preocupação não era bem essa: a minha única preocupação era esse colega, meio andrógeno, que eu queria ajudar mas que não parava de me lançar sinais. E que sinais!! Eu já não sabia o que fazer. «Deve ser um tique ou uma mania qualquer do rapaz.» Passado uns dias fui visitá-los a ver como estavam acomodados. Só lá estava o meu amigo com aspecto de quem tinha acabado de bater uma pívea. Umas conversas de circunstância e convidou-me para ir ver o quarto que ele tinha escolhido (faço aqui uma elipse para cabeças confusas). Minutos depois estava ele na internet. Também fui á internet dar um check. Sem querer abrí uma janela e encontrei lá um blogue chamado todo o Mundo te quer, cheia de fotos de homens nus. Uauuu!!! No meu humor tranquilo de sempre achei bem que ele se declarasse daquela forma. Fiquei-lhe grato por isso. Curioso é que a rua se chamava Rua Filinto Elísio: não vou dizer em que zona. Um daqueles grandes mistérios? Bem, aproveitei para pesquisar quem é Filinto Elísio na internet e encontrei isto:


«Filinto Elísio é o pseudónimo que Francisco Manuel do Nascimento recebeu de D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, a quem ensinou latim quando esta se encontrava reclusa no Convento de Chelas e por cuja irmã, Maria, se apaixonou platonicamente.
Estudou os clássicos e foi admirador incondicional de Horácio.


Filinto Elísio foi um defensor incondicional do purismo da língua portuguesa e é considerado por muitos como um dos precursores do Romantismo português. Se quiseres saber amis click

http://br.geocities.com/poesiaeterna/poetas/portugal/filintoeliseo.htm#Ode»

[Ah, e lá se vai o ortónimo meu caro, já que escreves em Português. Acho melhor começares a usar o outro da arte .]


Mas apartir desse incidente curioso uma coisa ficou: ocorreu-me que o nosso Filinto Elísio, da blogosfera kauberdianu, age como se todo o mundo lhe queresse, actuando como um seu superintendente. Sim, todo o mundo te quer, Filinto Elísio. Filinto Elísio: ès Gay. Não me admira que quando chegues ao meu blogue batas uma punheta. [«O besteirol de Mário Almeida há de me chamar hermético. Vê-se que é alguém que não se masturbou em tempo dos lobos. Too bad. Mais uma vez, concordo com o Abraão Vicente, mais substantivo do que os betinhos, neoradicais, lobinhos e seus afluentes, de pequenas causas.» http://www.albatrozberdiano.blogspot.com/]




[Ah, outra coisa: perguntaste pelo meu clã de neo radicais e lobitos? Estão a morrer de rir aqui ao pé de mim: Lobo solitário, deixaste de ser solidário ( com a malta nova).]


A minha próxima letra é P. Deveria ser o P de Pedante (aquilo de que já deste provas mais concretas) mas prefiro deixar as coisas por aqui. Noblesse Oblige.










terça-feira, agosto 28, 2007

N de Natural

Desde que li «A um Deus desconhecido» de John Steinbeck percebi o que é representar de forma ontológica o natural. O imaginário nele expresso apela a qualquer coisa de intrinsicamente bravio e silvestre. Natural não se confunde com sapiência. Natural é a voz e musicalidade de Nancy Vieira sobretudo no seu mais recente album «Lus» que confirma todo o seu potencial e carisma de crioula desprendida e sensual. Natural é o que me ocorre também quando oiço as canções de Norberto Tavares que, na sua busca formal e estilístico, quase que antecipou a revolução operada por Pantera, década mais tarde.

Natural é o apelo que N'Zé di Sant' y 'Agu, heterónimo de José Hoppfer Almada na obra «Assomada Nocturna». Segundo o próprio Zé Hoppfer o N antes de N'Zé está lá, por definição, como a primeira pessoa do sujeito na lingua crioula. A obra, que constitui-se como um único poema, é , na sua estrutura, uma jornada poética de um badio, cioso da sua cultura e das suas origens:

«Lembras-te, Txokáti

do nocturno requiem

dos ciprestes e das buganvillas

dos olhos cintilando

vigilantes escrutando o vôo das garças e das pombas

sobre o rude verde das lemba-lembas

nas noites longas de Assomada?


Todos nós éramos verde poilões resguardando no ventre

rugosos e centenário

os colectores dos espíritos da chuva da vegetação e do tempo

e os salteadores da cobardia

acossados pela polícia

foragidos da lei e da ordem


Todos nós éramos túmulos de lendas e mitos

esconderijos da secular condição

de primogénitos das montanhas

da humanidade das ribeiras

da vastidão do verde

ressumando

sobre o corpo dos sequeiros

em raízes contorcidos.

[in «Assomada Nocturna», cadernos da Lusofonia, pag. 66-67]
Natural é a interpretação dos actores brasileiros nas novelas; artificial o dos actores portugueses, nas primeiras novelas (dj'es arma kômpu). Natural é o cinema de Yasugiro OZU; artificial é interpretação de Mano Preto ( que admiro na dança) no filme «Ilhéu de Contenda» (lá se vai aperfeiçoando a técnika, n'é?). Natural seria Nha Nácia Gómi, á sua maneira, a apresentar o noticiário das nove na televisão. Natural é tambem uma crioula que eu vi passar hoje na Rua do Loreto no Chiado: uma festa de sensualidade que destruiu ali mesmo o ritmo do meu quotidiano.
Enfim N pôde sta ser um poko simplista ma ser natural é um manera di stá na arte y na vida [kel ki ta une pessoas, amigus y kumplisis] . É ta prova ma inda é pussível ser honestu y artista u mesmu tempu, kusa ki N ka ta flá ma ta correspondi á maioria de artistas di nôs praça. N ta atxa també ma es honestidadi y es liberdadi é um interessi verdaderu pa conteúdu y não pa fla flá, astúcia y cenas kantadu na ritmo de ideologia.
Môda nha mãe ta flaba: dádu ku tudu alguem, ou seja ... ser natural.

sexta-feira, agosto 24, 2007

M di MINTIRA!

Magistral testu em kriôlu di Kizó na sê blogue «Multimerdia»: «MENTIRA! moda es ta dze, es pode ingana alguns pessoas alguns vez.. mas nao tud gente i tud vez! Pelo menos mim es ka inganam! i n sabe ma tem txeu kes ka ingana tambe. No pta um "oiada" na o k k kontce ess one na Festival de Musica de Baia das Gatas (3, 4 & 5 de Agosto de 2007)» - http://cvmultimerdia.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 23, 2007

L de Lei e Lobbie [para Sector da Criação Audiovisual]

Pensei numa proposta de Lei, que faça de Cabo Verde um paraíso para os criadores audiovisuais: funda-se um Instituto vocacionada para a cinematografia e artes audiovisuais que dependeria não de um Ministério da Cultura mas sim de um ministério da educação, ciência e tecnologia (penso que de deveria juntar a ciência e tecnologia á educação). Esse ministério proclamaria, então, uma espécie de lei de fomento e promoção de cinematografia e de sector audiovisual que contemplaria ajudas automáticas que se poderiam obter em percentagens adjudicadas pelas grandes empresas que actuam em Cabo Verde e que por seu turno obteriam incentivos fiscais por parte do governo. Com as convocatórias anuais que o nosso Ministério fizer para projectos de novos realizadores, filmes de carácter experimental ou documentários, as pequenas produtoras audiovisuais, que já existem no país, em vez de centrar os seus esforços apenas na publicidade institucional poderiam optar pela exploração da ficção e documentário. Teria ainda que haver, por parte dos intelectuais de esquerda no país, alguma vontade de premiar obras experimentais de decidido conteúdo artístico e cultural nas áreas de escrita de guiões, de realização de curtas e longas metragens de ficção e documentário. Cada convocatória fixaria o número de projectos fílmicos a serem beneficiados, assim como a sua quantia. Sim: isso seria o paraíso para qualquer criador na área das artes audiovisuais.


Mas, pé na têra, em Cabo Verde - pelo menos a ultima vez que dei uma olhada no decreto-lei do país relacionado com as medidas do nosso Ministério da Cultura - disponibilizava-se 500 contos caboverdeanos diluídas, em termos de sector visado, para a arte em geral e activismos culturais. Nada que contemplasse, especificamente, criações no domínio das artes audiovisuais. Não podemos desculpar-nos por sermos um país pobre. O dinheiro consegue-se em parcerias nacionais e internacionais. Não há vontade nem disponibilidade por parte do governo em por mãos á obra para um sector que simboliza, em qualquer parte do mundo, «o album de familias nacional». Nesse particular só estou mesmo a falar em elevar o audiovisual ao domínio da artes e na importância da criação individual *. Só assim teremos verdadeiros cineastas caboverdeanos.



É sabido que uma obra de arte ou uma iniciativa cultural só se pode concretizar com apoios financeiros, logísticos e morais. Mas, se quisermos a excelência, será preciso transcender isso em direcção á um movimento estético, a um conhecimento crítico da realidade e isso é da responsabilidade dos nossos ilustres intelectuais da praça e das instâncias governativas que detêem o dinheiro, bem como o controlo dos diferentes práxis lobbiesticas. [Ma é ta bira um grândi makakada si es «lobbie stétiku» traze se traz kel lobbie regionalista do tipo sampadjudu vs. badiu ou pior ainda um lobbie gay de kontornus mal definidus]..






Xam toma benson de Herbert Marcuse, que defendia a função cognitiva da arte: é possivel que os homens do poder vejam na arte de um determinado artista a força normativa que eles advogam para si mas na mesma linha podem torcer o nariz a qualquer obra criativa que lhes sussure ao ouvido «as coisas têem que mudar». Bem, é que aí não há mesmo dinheiro para ninguem. A máquina ideológica não lhe responderá: a esse segundo.



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* Só a título de exemplo, neste momento em Portugal (um pequeno país da UE) a PT Multimedia em colaboração com o Governo criou um fundo de 83 milhões de euros que foi colocada sob a égide do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) para os próximos 5 anos de produção de documentários e ficção portuguesas ( aes també es kópia kel mudelu li di otos paízis europeu y dja ki nu ta stá só nas ses kadera, n'é?). De ressalvar que neste momento o ICA já disponibiliza 10.000 euros só para o capítulo de desenvolvimento de um projecto de documentário de criação.

quarta-feira, agosto 22, 2007

K de Kafuka Cine Clube

O Kafuka Cine Clube deve ter sido das coisas mais originais que já surgiu na cena cultural praiense e caboverdeana. A visão de uma cultura cinematográfica concebida partir de uma pequena lamparina a óleo é proverbial. Na altura em que fora criado muito se discutiu acerca da sua pertinência na vida cultural cabo-verdiana. Mesmo que não tenha resultado num empreendimento de grande envergadura prefigurou, na altura, um cenário na qual os cinéfilos pudessem desfrutar de grandes filmes e, ulteriormente, os cineastas amadores pudessem definir, com visionamentos e workshops, uma estética e um estilo pessoal. O grupo reunia-se ocasionalmente para definir e debater os programas (kau ki staba ami, Paradela, Mónica, Vanilde, Paulo, Catarina, Luísa, Eveline,entre outros). Parece ter sido apenas uma utopia ... ou provavelmente não. È que depois dessa espécie de «parto histérico», o Kafuka Cine Clube entrou em coma profundo. Mas, segundo li por aí, parece que as coisas deverão voltar á normalidade: espero que, mantendo-se a ideia original. Seria uma pena não continuar: é que foi bonito a forma como tudo começou e seria bom se a chama da pequena lamparina se mantiver sempre acesa.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Juventude

«Juventude, idade da loucura e de sonhos, de poesia e de asneira - sinónimos na boca de pessoas que julgam o mundo sãmente.»

Gustave Flaubert

quinta-feira, agosto 09, 2007

João Vário (1937-2007)

Oui, éloignés du pays natal / nous n'avons pas vu le catafalque du père. / Cependant, les six pieds de terre que nous n'avons pas / regardés ni touchés / sont là sous nos souliers / et la poussière à nous se dissout peu à peu / dans ces six mesures de terre [...]
Exemple Restreint (Livro 7)

quarta-feira, agosto 08, 2007

Eileen

A Eileen da Soncent deu-me há dias uma «luva na cara» lançando-me um desafio para ver quem fica com o template que ambos usamos por coincidência. Confesso que não me interessava muito continuar com este blogue mas depois do repto dela resolvi continuar; como diz o brasileirão: é pra encará, fazé o quê!? Tive curiosidade em conhecer a minha adversária: fui ao blogue dela levantar-lhe o véu e, para dizer a verdade, não me vejo muito a competir com ela. A rapariga tem uns olhinhos mais bonitos do que o meu (estou a referir-me ao que ela escreve). Já viu mais coisas e ainda por cima viaja muito. Ela atingiu o meu blogue e o meu mundo de um ângulo diferente.
Devo dizer que já é a segunda mulher que me «pica» a propósito: a primeira foi a Kamia Sopafla
ao ter-me incentivado a criar o blogue. La acedi ao apelo dela. Agora é a Eileen que reclama o template só p'ra ela. Só uma pergunta Eileen: como é que se joga aos oito malucos?

segunda-feira, agosto 06, 2007

MEDIA II. Rupert Murdoch - o «Citzen Kane» do sec. XXI

Rupert Murdoch o magnata detentor de um vasto império mediático comprou a Dow Jones & Company editora do importantíssimo diário económico The Wall Street Journal por cerca de 4 mil milhões de euros: o mesmo diário que tecia duros editoriais contra ele e que o tinha acusado, numa grande reportagem, de utilizar os seus jornais e televisões para promover os próprios interesses económicos e ideológicos por todo o mundo. A família Bancroft que detinha a maioria dos votos da cia. não resistiu á pressão financeira imposta pelo multimilionário, vendo-se «engolido» pelo seu enorme império. Rupert Murdoch é já o mais poderoso media mogul neste tempo de lobos - o «Citzen Kane» do sec. XXI.

MEDIA I. A bloguista mais popular do mundo

Xu Jinglei, actriz e realizadora chinesa é a bloguista mais popular do mundo. Cem internautas por minuto visitam o seu sítio. A pesquisa levada cabo pela Technorati refere que o seu blogue bateu no passado 12 de Julho todos os recordes chegando aos cem milhões de visitas. O sucesso da Xu Jinglei não se deve a tricas e mexericos, mas sim ao estilo de escrita acessível que faz sobre o seu dia-a-dia (0s textos falam do seu trabalho no mundo do cinema ou da comida de que gosta, por exemplo). Ganhou projecção internacional quando venceu o prêmio para melhor realizadora com o filme Cartas de uma Mulher Desconhecida, em 2004, no Festival de Cinema San Sebastián, em Espanha. Outro jovem blogueiro pode vir a ultrapassar a actriz. Trata-se de um jovem escritor de 24 anos que conta as histórias de uma existência problemática quando ainda estava na escola, para alem de escrever sobre a sua obsessão por corrida de carros.

sexta-feira, agosto 03, 2007

O Adeus á Michelangelo Antonioni

Com uma cerimônia sóbria marcada por cantos fúnebres a cidade de Ferrara se despediu nesta quinta-feira de seu notável filho Michelangelo Antonioni, o último nome dos grandes mestres que deram fama e prestígio ao cinema italiano, na basílica de San Giorgio.
Na elegante e antiga igreja de sua infância, 500 pessoas se reuniram, entre amigos íntimos, familiares e pessoas comuns, para dar o último adeus a Antonioni, que faleceu na segunda-feira em Roma aos 94 anos.
"Agora está além das nuvens, onde pode voltar a falar", comentou ao término da cerimônia o diretor de cinema alemão, Win Wenders, que foi seu amigo e co-autor de um de seus últimos filmes, "Além das nuvens", realizado em 1995, quando o mestre estava doente e sem fala.
"Seu corpo exposto aqui me transmite serenidade. Michelangelo terminou como sempre quis, em meio à neblina de Ferrara, sua cidade", disse o roteirista e poeta Tonino Guerra.
"Eram maravilhosas as suas discussões e gestos democráticos", lembrou Guerra.
Na primeira fila, diante do caixão de madeira clara com uma cruz fina dourada, cercado de poucas coroas de flores, estava sua esposa Enrica Fico, sua companheira por 35 anos e sua sobrinha Elisabetta, a quem o cineasta havia pedido no ano passado que o enterrasse no cemitério de Ferrara, ao lado da tumba de seus pais.
Ninguém chorava, ninguém deixou transparecer a emoção, apenas o respeito e a admiração dominaram a cerimônia, celebrada pelo padre Massimo Manservisi, um sacerdote apaixonado por cinema, que elogiou a visão aberta aos questionadores e curiosa de Antonioni.
"Como Nicodemo (líder dos fariseus que defendeu Cristo), Michelangelo estava atento aos sinais, dissecava o ser humano, seus olhos eram como os de um pintor flamenco", disse o religioso.
Diante das autoridades locais e regionais, a vice-prefeita da cidade, Rita Tagliati, que decretou um dia de luto, anunciou que o museu de Antonioni, aberto desde 1995 pelo próprio mestre, será completamente remodelado para alojar mais obras e filmes.
Apesar de ter sido ligado ao Partido Comunista italiano, o "intelectual do cinema" e "mago da luz", como foi chamado, quis que um tradicional funeral católico fosse celebrado em sua homenagem.
"Uma vez perguntaram a Antonioni em uma entrevista se acreditava em Deus e respondeu: sim, algumas vezes, à noite", contou o padre, que ressaltou a capacidade do artista de superar a doença que o manteve paralisado e sem fala por 22 anos após um derrame cerebral.
Uma longa fila de pessoas, muitas delas idosas, passou pelo caixão fechado para se despedir deste gigante do cinema que foi enterrado com discrição e elegância, características marcantes deste gênio da sétima arte.
"Viemos muitas vezes com Michelangelo a Ferrara, pelo rio, Pó e vir a Ferrara era uma viagem à luz, à luz de sempre. Buscava sempre essa luz, sua cidade, por isso descansará aqui", disse sua viúva.



In: O Ultimo Segundo

Fonte: AFP

Bergman fala sobre Antonioni





«O filme é um medium curioso no sentido em que se tens algo para dizer podes realmente dizê-lo com um filme, mesmo que sejas um tanto ou quanto desajeitado...» - disse Antonioni. «Esses jovens realizadores que mergem agora conhecem já muito bem esta profissão e seus aparatos técnicos mas muito raras vezes têem algo para dizer...» corrobora Bergman.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Bergman «sobrenatural»

João Bernard da Costa escreveu recentemente que Ingmar Bergman é dos poucos cineastas que se pôde orgulhar de ter epítetos como «bergmanomania». Já se disse dele coisas como «Bergman saved my life» ou «família de bergmanistas inveterados» . Cada qual tem o seu Bergman. O «meu» Bergman (apesar de não ser o meu cineasta de eleição) descobri-o progressivamente, á medida que ia, ao acaso, á Cinemateca Portuguesa. Cheguei tarde mas uma das primeiras coisas que verifiquei foi a riqueza textual nos seus filmes e que só o teatro pela sua natureza formal consegue. Só mais tarde vim a saber que ele foi primeiro dramaturgo e encenador e só depois cineasta, relação essa que ele veio a comparar ao conflito «mulher fiel» (o teatro) vs. «amante» (o cinema, evidentemente). Dizia, o «meu» Bergman é o Bergman do sobrenatural e do agnosticismo mais do que o Bergman das mulheres (aquilo porque ele é mais conhecido). Saboreei o jogo de xadrez com a morte em «O Sétimo Selo» e fartei-me de rir quando a personagem do insubmisso adolescente Alexander leva, no final da película «Fanny e Alexandre», um tabefe do fantasma do bispo, seu padrasto, que o castigara pela sua insubmissão e protesto aos horrores antes inflingidos á ele, à irmã e à mãe. Enternecedor foi vê-lo, depois, a procurar o quarto da avô e a aninhar-se aos pés dela. Esse tipo de cenas da vida conjugal são verdadeiramente sublimes em Bergman. Compreendo, ao mesmo tempo, a sua posição enquanto agnóstico quando coloca na boca desse mesmo personagem esta frase: «Se Deus existe então é um deus de caca e mijo».

Foi também Bergman quem deu á Morte o rosto que mais profundamente se incrustou no imaginário colectivo ocidental apartir da segunda metade do séc. XX - a do actor Bengt Ekerot no jogo de xadrez com a morte. Perdida a batalha com a morte terá agora Bergman todas as respostas sobre o sobrenatural? Verá, aquele que é considerado o mestre dos grandes planos, um grande plano do rosto de Deus?

quarta-feira, agosto 01, 2007

Crepúsculo dos Deuses

Anteontem, quando morreu Ingmar Bergman todos os cinéfilos lembraram-se de imediato da ultima grande figura de vulto ainda viva : Michelangelo Antonioni, outro revolucionário da 7.ª arte. Mas passadas 12 horas este último morria calmamente sentado na sua poltrona. Desapareceram ambos no mesmo dia e num final simbólico o cinema perde, desta forma curiosa, dois dos seus maiores criadores. Assombroso! Assim como o legado ficcional que ambos deixaram.

Michelangelo Antonioni (1912-2007)

«O meu contributo para uma nova linguagem é assunto que diz respeito aos críticos de amanhã.» Michelangelo Antonioni

Ingmar Bergman (1918-2007)

«Tentei dizer a verdade sobre a condição humana - a verdade como eu a vejo.» Ingmar Bergman

segunda-feira, julho 30, 2007

Arte

Antes de qualquer gesto existe qualquer coisa que nos toca, por ser algo subjectivo ou profundo, e que depois é objectivada por alguem; só depois disso lhe chamam Arte. Existe sempre um canto da nossa mente em que essa «senhora» - a Arte - se senta confortavelmente. (Sim, porque toda a arte existe no feminino). Mas ela não é a mesma para quem a produz e para quem a recebe.

quarta-feira, julho 25, 2007

«Tell the children the truth...» Bob Marley

Como contar a verdade á uma criança sobre um caso internacional neste Tempo de Lobos? Eu pessoalmente faço-o por ordem decrescente dos acontecimentos sem lhe mostrar nenhum tipo de causalidade. Por exemplo:
1.º A União Europeia restabelece novas relações diplomáticas com a Líbia ;
2.º Oferece-se um Reactor Nuclear á Líbia para dessalinizar a água do mar;
3.º Nicolas Sarkozy, que é o Presidente da Líbia visita o país na mesma altura;
4.º Semanas antes são libertados seis profissionias de saúde búlgaros (cinco enfermeiras e um médico de origem palestiniana) detidos na Líbia há oito anos; depois da extradição os cidadãos búlgaros, ao chegarem ao país natal, ficaram em liberdade;
5.ºNos ultimos anos têem havido várias pressões internacionais e acordos económicos que visavam a Líbia de M. Khadafi;
6.º A 6 de Maio de 2004 os seis profissionas tinham sido condenados à morte (depois comutada pela prisão perpétua) pelo Superior Conselho Judicial da Líbia;
7.º Os seis condenados começaram a trabalhar num hospital na cidade de Benghazi em 1998 e foram presos no ano seguinte, depois de terem contaminado, intencionalmente, com o vírus HIV-Sida, cerca de 438 crianças líbias no hospital de Benghazi. Até hoje morreram ao menos 50 crianças.
Para não o atormentar muito com a aparente complexidade do caso distraia-o com uma simples questão: trocavas a tua bicicleta por uma play station e uns quantos DVD de jogos de guerra?

terça-feira, junho 26, 2007

Comunidades Cabide

Há pouco tempo filmei um projecto que se debruçou sobre a comunidade multi-étnica de S. Francisco em Bilbao (Espanha) - sobre a qual ainda não disponho de financiamento para pos-produção. Resta-me para já uma pós-reflexão que partilho contigo: no início o vídeo girava em torno do racismo e da questão da integração da pessoa humana e se ela pode ser conseguida através de uma preparação e aperfeiçoamento de qualidades corporais e psíquicas que eliminem o medo do Outro. Nesta perspectiva, teríamos assim no centro do espectro a inter-acção entre o corpo, a vida quotidiana e as tecnologias. Mas depois de vários visionamentos, o projecto acabou por «esbarrar», sem querer, numa expressão teórica/metafórica do filósofo/sociólogo Zygmunt Bauman que explicita um dos aspectos essenciais das sociedades contemporâneas: «as comunidades cabides (cloakroom communities). Este sociólogo defende que as sociedades actuais precisam de um espectáculo que apele a interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna durante certo tempo em que outros interesses – que os separam em vez de uni-los – são temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou inteiramente silenciados, formando assim, ocasionalmente, uma comunidade que tem nos cabides, cacifos e bastidores, o seu momento de comunhão.
Devo dizer que a visão crítica deste sociólogo/filósofo rondou, instintivamente, a primeira fase da montagem vídeo e, a cada visionamento, via, num processo, quase de imersão, claros sinais tremeluzentes dessa oscilação radical entre indivíduo e a colectividade. Na verdade foram coisas que eu senti durante a onda dos acontecimentos naquela cidade mas que só mais tarde, com o distanciamento necessário, acabaria por ter essa bênção teórica de Z. Bauman. Quando saí para a rua com a minha câmara quis, ingenuamente, participar de uma pequena revolução no Bairro imigrante de S.Francisco, em Bilbao, mas no final, não houve revolução nenhuma e acabei por regressar ao meu sossego e á essa estranha condição de estrangeiro.
Para já contento-me com esta mistura de performance vídeo e de manifesto politico-cultural, contendo, apesar da sua natureza lúdica, ideias positivas e esperançosas : a ideia de que é preciso dançar para ser; dançar para devolver ao corpo a alegria e o encanto de comunicar; criar; vencer o medo; transformar a rigidez em elasticidade; tecer esperanças; lançar caminhos; dançar para aceitar as diferenças e descobrir a riqueza de quem é diferente; dançar para sair da solidão, do isolamento e dos esquemas rígidos criados a nossa volta na sociedade. Apesar de todas essas danças, vozes e cânticos, que nascem da aparente imobilidade social apenas divertirem, em instantes lúdicos, essa mesma sociedade para acabarem inteiramente silenciadas pelo peso opressivo e mesquinho do status quo político-social ou pela vil mediania. E no final cai o pano sobre a cena .
Ah, sim! Se fosse um trabalho solitário (e se tivesse estômago para isso) poderia, pelo menos, distorcer tudo até tornar abstractos os movimentos de dança, as cores e os elementos da natureza. Pelo menos aplacaria essa asfixiante humanidade que me invade, eivada desse ridículo sentimento: a esperança de que somos verdadeiramente racionais e melhores como civilização.

sexta-feira, junho 22, 2007

Ah, Sun Flower !!

"Os Deuses da Terra e do Mar

Procuraram através da Natureza

Para encontrar esta árvore

Mas a sua busca foi em vão:

ela cresce no cérebro humano."


William Blake [Songs of Inoccence and Spirit]



People are Strange

People are strange when youre a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when youre down
When you're strange / Faces come out of the rain
When you're strange / No one remembers your name

When you're strange

People Are Strange - Jim Morrison

The Doors

terça-feira, junho 19, 2007

Dito

Oscars aos actores cujos corpos, figura, voz, não parecem ser deles, não dão a certeza de lhes pertencer.

Robert Bresson

terça-feira, junho 12, 2007

Estórias de hoje que parecem de tempos longínquos

Era uma vez um rapazinho paquistanês que denunciou ao mundo as atrocidades a que muitas crianças eram submetidas diariamente para fazer prosperar o negócio dos tapetes. Em plena Assembeia Geral das Nações Unidas um rapaz, muito pequeno, levantou-se da sua cadeira para explicar com voz e gestos infantis como é que ele e outras crianças paquistanesas, eram obrigados a permanecer de côcoras durante horas a fio, dia após dia, ano após ano, a tecer e entretecer fios e a dar nós nos tapetes. O rapazinho disse que o trabalho das crianças era muito procurado por terem mãos pequeninas e por conseguirem dar nós mais perfeitos nos teares. Contou que muitas crianças iam ficando sem dedos e com o tempo as suas mãos se transformavam em cotos por darem tantos nós e trabalharem sem descanso. Perante uma Assembleia mergulhada em profundo silêncio afirmou que as crianças só eram dispensadas do trabalho quando perdiam ambas as mãos. Depois sentou-se e adormeceu. Passado pouco tempo o rapazinho foi morto mas a sua voz e o seu testemunho continuam vivos. São estórias que parecem vindo de mundos longínquos e antigos onde a barbárie impera mas é apenas uma falsa impressão. Pode estar a ocorrer na vizinhança, ali ao lado.

sexta-feira, maio 25, 2007

Estórias antigas para os dias de hoje

Esta estória passa-se no México: um grupo de cientistas tinha contratado uns carregadores para transportar os pesados equipamentos de investigação a uma cidade Inca, no cume da montanha. De repente, durante a caminhada, os carregadores imobilizaram-se, não querendo continuar o caminho. Os cientistas, desorientados, já não sabiam o que mais fazer para os convencer a prosseguir a caminhada e nem sequer percebiam a razão daquela paragem tão longa. Passados umas horas os carregadores puseram-se, finalmente, em marcha. Alguns minutos depois, o líder deles resolveu, então, dar uma explicação pela longa paragem: andaram demasiado depressa e por isso tinham precisado de esperar pelas Almas.

quarta-feira, maio 23, 2007

So What !!

Miles Davis et John Coltrane.
Para nunca mais ter que sentir aquela necessidade de dizer alguma coisa.

sábado, maio 19, 2007

Blooker Prize para história de Guerra

O relato de guerra que Colby Buzzell, um soldado norte-americano, começou a escrever no blogue pessoal www.cbftw.blogspot.com enquanto estava na guerra do Iraque valeu-lhe o prémio Blooker Prizer (2.ª edição), ao ser editada em obra intitulada «My War: killing time in Iraq». O prémio no valor de 7.500 dólares (5.500 euros) distingue desde 2005 o melhor livro que começou como um blogue na internet. Colby Buzzell começou a contar as suas experiências apartir de uma tenda instalada na linha da frente do combate e equipada com internet. Para quem anda a questionar a razão porque se escreve um blogue está aqui uma boa razão: «voltava das missões com as orelhas a zumbir devido aos tiroteios e escrevia sobre isso». C.B.

Nota: blook= blog+book [livro baseado num blogue]

terça-feira, maio 15, 2007

segunda-feira, maio 14, 2007

O Burguês

Todas a revoluções se fizeram porque um dia alguem pensou que os seus sentimentos, a sua ética, são superiores aos dos outros, não por serem sofisticados, mas sim porque estavam, na verdade, embebidos no êxtase do poder e da luxúria. Em vez de uma maiêutica socrática contavam os seus bens e os factos do passado, como se lidassem com um guarda joias. Até a si próprios se traíram e o que de mais belo sentiram, certa vez, alienaram-na a favor do poder, ou talvez porque aquele sentir não era um verdadeiro sentir mas sim uma experiencia do poder. Sócrates, narrado por Platão, teve o desnorte de beber do veneno burguês para provar a sua extrema liberdade de sentir e pensar. Mas isso já sabemos.
Acredito, sinceramente, como certo teórico, que todas as nossas fontes já estão relatadas, por isso não me preocupa tanto conhecer-me a mim próprio ... porque eu já sou. Não acredito que alguem seja capaz de me narrar ... porque eu sou o único repórter da minha vida. Para fazer a síntese, ouso convidar toda a gente a pensar assim... porque duvido que alguem recuse um bem maior do que a sua liberdade. Como se saboreia melhor esse sentimento ? O que é que sente um burguês quando destrói o seu objecto mais valioso ?

sábado, abril 28, 2007

Michael Moore outra vez no centro das atenções

Mais uma polémica de Michael Moore: mostrará no seu novo documentário, «Sicko», como os doentes são mais felizes em Cuba do que nos EUA. A estreia vai ser no Festival de Cannes em Maio, onde é um dos destaques fora da competição.


Entretanto a sua imagem pública começa a esbater-se por causa de duas pessoas: Debbie Melnyck e Rick Caine, ex-fãs, cujo documentário «Manufactering Dissent» tem como objecto ... Michael Moore. O casal de documentaristas canadianos começou por querer fazer um filme sobre o seu ídolo mas Moore não queria ou não podia lhes dar atenção. E eles puseram-se, então, de plantão e microfone na mão á espera dele, utilizando o mesmo método que ele próprio, Michale Moore, utilizara em «Roger&Me». O resultado foi um documentário que descontruiu um carácter supostamente manipulador.

sexta-feira, abril 27, 2007

Casamento entre cinco mulheres na Nigéria acaba em fuga

Uma mulher lésbica, actriz, que se casou com quatro mulheres, no passado fim de semana no estado de Kano, em Nigéria, permanece escondida junto com as suas esposas para fugir á policía do país que quer prendê-las e aplicar-lhes a lei Islâmica conhecida por sharía. De acordo com esta lei, adoptada no estado de Kano, há sete anos, a homosexualidade e os casamentos entre pessoas do mesmo sexo são proibidas. O islão diz que um homem pode ter até quatro esposas, se as puder manter. A mesma lei não vale para mulheres, e menos ainda se são homossexuais.

O casamento teve lugar num teatro, que acabou sendo demolida pelas autoridades de Kano, a cidade mais grande do norte de Nigeria. A homossexualidade feminina é ilegal, tambem, no código penal nigeriano e o Parlamento está tomando em consideracão um endurecimento das penas para aquilo que eles consideram ser um «delito».
Fonte: BBC.com

Onde é que já li isto!?

O Medo é a única cor e a única raça: aloja-se na tua pele e faz-te odiar.

Parabéns, Cize, pela Legião de Honra de França!

quinta-feira, abril 26, 2007

Paris, Texas (1984) - Cena de Abertura





Win Wenders mostra-nos aqui como se filma um homem no deserto.

Planos de Autor II

Se F. Coppolla, na sua obra «O Padrinho», fez uso do tempo cinematográfico como factor dramático, em «Paris, Texas» Win Wenders utiliza o ambiente para o mesmo fim. Neste filme, o recurso a espaços cinematográficos de índole particular é que faz com que o comportamento das personagens ganhe sentido. A primeira imagem do filme é construído por um travelling e vários planos gerais do deserto, habitado apenas pela figura franzina de Travis (Harry Dean Stanton) e por um abutre, á espera que ele ceda ao cansaço. Wenders vai nos aproximando progressivamente da personagem. A composição do enquadramento vai-se simplificando e a nossa atenção centra-se, então, na cara desfigurada de Travis, nas mãos que tapam uma bóia já vazia de agua e no seu rosto crispado pelo sol do deserto. Á medida que o filme progride, a selecção das objectivas e os movimentos de câmara vão correspondendo cada vez mais as características dramáticas e orgânicas dos lugares, que correspondem ás características dramáticas que se observam nas personagens. Passamos, assim, da «pré-historia» das imagens totais para planos mais fechados e sintéticos da civilização humana.

terça-feira, abril 24, 2007

O Padrinho





O Plano de Autor por excelência.

segunda-feira, abril 23, 2007

Planos de Autor I

Na cena inicial de «O Padrinho» a câmara foca num plano aproximado do peito a personagem de Bonasera que está a falar para alguém que, entretanto, não nos é dado ver. Conta-lhe como a filha foi violentada. Passado um minuto o plano recua suavemente num travelling para trás das costas de Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando, que nesse momento apenas escuta. Bonasera levanta-se e sussurra qualquer coisa ao seu ouvido para lhe comunicar o tratamento que deseja que seja aplicado aos culpados. É nesse momento que nos é, então, revelado a real natureza de um Padrinho no código siciliano.

Este plano inicial é um dos raros planos de autor que fundaram o cinema contemporâneo. Coppolla regista-o no mesmo instante em que começa o filme. Pela sua densidade cerebral e codificação do tempo aproxima-se daquilo que Gilles Deleuze categoriza de cinema of the brain, igualmente presentes na arte de Stanley Kubrick ou de Alain Resnais. O tempo cinematográfico que decorre entre o início e o final de cena é na verdade um tempo hiper real; excede a própria encenação.


A cena é soberba: iluminação cuidada, movimento calculado da câmara, assombrosa interpretação de Marlon Brando - um «monstro sagrado» de Hollywood, saído do Actor’s Studio.



Saliente-se que o olhar de Coppolla é um olhar fascinado pela organização, pelo código de honra e pelo exercício do poder que estão na base das famosas vendettas sicilianas. O seu estilo cinematográfico encontra as raízes no universo dos grandes cineastas italianos como Visconti, Fellini e De Sica. Junte-se a isso meticulosidade, precisão, hiperrealismo e teremos a exacta medida da sua obra.




«O Padrinho», realizado em 1972, recebeu nesse ano os Oscares de Melhor filme, Melhor Actor para Marlon Brando e Melhor Cenário. O argumento foi adaptado do romance homónimo de Mario Puzo que também é co-autor na escrita do cenário do filme. O filme é considerado como um clássico da sétima arte e uma obra prima absoluta de um dos mais explorados géneros cinematográficos - o gangster. «O Padrinho» é também, sem exagero, um dos ícones da cultura ocidental.

sábado, abril 21, 2007

O Tempo, esse verdugo

(...)« Não importa a que sortilégios me entrego: / neste jogo de acasos que é a vida / ganha sempre este apostador sem rosto / a que outros chamam tempo./ Mas é com emoção quase adolescente / que a cada manhã o reencontro / para o aprazado combate.» (...)

José Luis Tavares *

* Poeta caboverdeano laureado, em Portugal, com o Prémio Mario António de Poesia por Paraíso Apagado Por um Trovão (2.ª edição)

quinta-feira, abril 19, 2007

Massacre em Virginia - Video do Assassino

A America já pode ser considerado o produtor mundial n.º 1 de psicopatas. Este já leva todas as marcas de um fundamentalista islâmico em palavras e métodos.

terça-feira, abril 17, 2007

[A Cara do Mal no Tempo de Lobos]

Cho Seung Hui, o jovem sul-coreano de 23 anos que ontem assassinou 32 pessoas em Blacksburg (Virginia), naquela que é a pior matança registada num campo universitario dos EUA, deixou escritas umas notas em jeito de despedida antes de empreender a sua particular carniceria, segundo informação dos medias estadounidenses.
A cadeia ABC, citando fontes policiais, assegura que Cho deixou, numa longa carta no seu dormitório , as suas razões . "Vocês me obrigaram a fazê-lo", é a conclusão da carta, na qual ainda critica com desprezo e ira os "meninos ricos", os "charlatães mentirosos" da universidade e a "degeneração".
Ao que parece, o atirador havia tomado antidepressivos e paulatinamente foi-se tornando mais violento e desequilibrado. Cho chegou aos Estados Unidos em 1992, procedente da Coreia do Sul, quando era ainda uma criança, e cresceu nos subúrbios de Washington. Vivia numa residência de estudantes onde começou a matança.
O testemunho oferecido pela professora Carolyn Rude, do Departamento de Literatura Inglesa da Univesidade de Virginia, deu uma luz sobre o perfil psicológico de Cho Seung Hui. Segundo esta docente, o jovem asiático escrevia textos tão "perturbadores" que foi enviado a um terapeuta da instituicão.
Á medida que avançam as pesquisas policiais, vai dando á luz uma personalidade hermética, e está a ser dificil, por parte das entidades policiais, decifrar o tipo de vida e relacões que mantinha o assassino com o resto do mundo. "Era um solitário e estamos tendo dificuldades em encontrar informações sobre ele", reconhece Larry Hincker, porta-voz da universidade.
Fonte: El Pais

quinta-feira, abril 12, 2007

[Aforismo do Tempo de Lobos]

«A coisa [a democracia] tem de quê suscitar o medo, por conseguinte o ódio, entre aqueles que estão habituados a exercer o magistério do pensamento. Mas entre os que sabem partilhar, com quem não importa quem, o poder igual da inteligência, pode pelo contrário suscitar a coragem e por conseguinte a alegria.»

Jacques Ranciére in «O Ódio á Democracia» (Edição Mareantes)

[Canção do Tempo de Lobos]

Bob Dylan - Masters of War

Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks

You that never done nothin
But build to destroy
You play with my world
Like its your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly

Like judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain

You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young peoples blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud

Youve thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You aint worth the blood
That runs in your veins

How much do I know
To talk out of turn
You might say that Im young
You might say Im unlearned
But theres one thing I know
Though Im younger than you
Even jesus would never
Forgive what you do

Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul

And I hope that you die
And your deathll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And Ill watch while youre lowered
Down to your deathbed
And Ill stand oer your grave
til Im sure that youre dead

quarta-feira, abril 11, 2007

Festival de Cannes apresenta toda a sua história em video na net

O site do Festival de Cinema de Cannes http://www.ina-festivaldecannes.com/ disponibiliza autenticas reliquias do mundo do cinema para os amantes da 7.ª arte como aquele caso em que o realizador francês Maurice Pialat, tendo vencido a Palma de Ouro por «Sous le Soleil de Satan», é assobiado e apupado pela audiência. São mais de 300 horas de video. O visionamento é gratuito mas se quiser fazer o downloand então terá que pagar. Esta iniciativa foi concretizada em colaboração com o Institutto do Audiovisual Francês.

segunda-feira, abril 09, 2007

INLAND EMPIRE - David Lynch

Quem vai aos filmes de David Lynch movido pela racionalidade sairá da sala completamente desiludido. Filmada, de forma surpreendente, em formato DV com câmaras caseiras, Inland Empire é a apologia completa da existência de mundos paralelos que funcionam em espiral infinita. A estória de uma mulher perdida e perseguida por alguem que a quer assassinar; um realizador que está a fazer um filme, amaldiçoado, apartir de um conto polaco-cigano; uma dívida que tem que ser paga por uma atriz que procura o estrelato; um caso de adultério que desencadeou um crime passional; algo que se passou na Polónia há muito tempo atrás e que influencia o tempo presente do filme, etc. Estes são alguns dos ingredientes que Lynch juntou para criar um objecto fílmico perturbador e alucinante de 3 horas. Seja qual for a interpretação a que chegar, o espectador tem que levar em conta a sitcom teatral com o casal de coelhos - a mais recente inovação de Lynch na sua galeria de personagens. Neste filme revisita toda a sua filmografia exponenciando o já conhecido efeito onírico no espectador. Retoma a temática de Mulloland Drive do filme dentro do filme e da cena underground /obscura de Hollywood

Mais uma vez não há respostas definitivas quanto áquilo que se deduz do filme e só a própria experiencia de quem vê, interessa. «Basta sentir», refere sempre, David Lynch. Desta vez o cineasta brinca mesmo com essa preocupação contínua das pessoas em querer explicar os seus filmes ao introduzir a sitcom do casal de coelhos cujos diálogos absurdos, acompanhados de risadas, indiciam incompreensão, vaticinios, dúvidas. A certa altura a mulher-coelho aparece a tenta colocar no cenário exiguo do teatro umas luzes que leva na mão (laughing). Talvez por haver um canto da nossa mente em que estamos constantemente a questionar, Lynch o tenha assinalado dessa forma? Ou poderá ser apenas uma simples sitcom de coelhos, nada mais ? Sem pretensões de ordem alguma? Por ser apenas divertido pôr umas criaturas, meio humanos, com cabeças de coelho a proferirem palavras descontextualizadas? Só por ser intrigante!! Bem, só mesmo ele poderá responder a essas perguntas e, como todos os aficcionados da sua obra sabem, isso nunca irá acontecer.


Podemos, pelo menos, descortinar algumas marcas na obra deste cineasta: a sua fixação por bruxas, pelos bastidores do mundo do cinema, por mulheres absurdamente belas e por aquilo (algo sempre hediondo) que se esconde nas traseiras dos edifícios e nos rostos das pessoas aparentemente normais e inocentes. È isso que exerce o fascínio nas películas de Lynch sempre coroadas com uma banda sonora melíflua e uma rara plasticidade das imagens.

sexta-feira, abril 06, 2007

terça-feira, abril 03, 2007

God, Inc - Episódio 2

Problemas relacionados com Deus e Paraíso poderão ser problemas burocráticos?