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terça-feira, junho 12, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (4)

Conclusivamente, (relativamente aos conteúdos culturais na TCV) há que ponderar a figura de um Provedor que sonda o mercado e a audiência, mantendo-se fiel aos princípios liberalizantes das sociedades democráticas modernas. Uma medida que deve ser equacionado no sentido de evitar tendências demasiado corporativas face aos colectivos de civis, cidadãos, telespectadores, adultos e crianças.

segunda-feira, junho 11, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (3)

Da intersubjectividade e do “xamanismo” televisivos.


Na obra, editada em parceria com Daniel Dayan, A história em directo. Os acontecimentos mediáticos na televisão, Elihu Katz (1999), num capítulo intitulado “Lar como espaço público”, corrobora uma ideia, formulada em 1948, por Lazarfeld e Merton, de que os noticiários televisivos comportam uma ilusão de participação política e que, normalmente, as pessoas «transportam» a informação que recebem dos noticiários televisivos para discussões públicas em sedes locais dos partidos, corredores, bastidores, ou cafés. Acrescenta, ainda, que se tornou difícil separar os efeitos da televisão dos efeitos persuasivos do próprio acontecimento. (Katz, 1999:130). Assim, uma transmissão em directo de uma tomada de posse presidencial pode ter sucesso como acontecimento mediático e definir uma nova era na cabeça das pessoas mas, neste caso, que efeito poderia ser equacionado para um programa televisivo religioso como a Eucaristia Dominical, transmitido todos os Domingos na TCV? Para todos os efeitos, o resultado que se almeja é que a Eucaristia Dominical, ao ser transmitida em directo, para todo o país, pondo a igreja no centro dos acontecimentos, estruture as famílias e as relações sociais de uma forma mais consentânea com os princípios cristãos, num alargamento do seu raio de influência. Nos termos aqui propostos (relativo a conteúdos programáticos culturais) seria, por certo, mais eficaz (para essa camada de espectadores cultos e esclarecidos) um programa que explicasse, por exemplo, as origens do cristianismo e que não nos leve a ter que esboçar um sinal de incompreensão face ao olhar insistente de uma religiosa na direcção da câmara (ecrã para nós) ou nos «obrigue» a ajoelharmo-nos à frente do televisor.

Uma missa dominical na televisão nunca chega a ser «natural», na perspectiva antropológica da qual partimos. Num espaço comunicacional negociado pode chegar, até, a perder o seu significado eucarístico e religioso, simplesmente, por não ser a sua forma própria de mediatização. Porém, compreende-se que se deve equacionar a questão do tempo em que vivemos e a premência de se adaptar as novas tecnologias de comunicação e informação às necessidades da igreja contemporânea.

O mesmo «xamanismo» televisivo acompanha as transmissões em directo dos inúmeros festivais de música e debates parlamentares que criam, em uníssono, uma ilusão de participação que origina, por sua vez, uma comunidade virtual de relações distanciadas da realidade essencialmente diferente da que é vivida pelos presentes em tais acontecimentos. Essa onda de transmissões em directo da televisão pública camufla, porém, uma outra realidade: a incapacidade de produzir programas inovadores de conteúdos culturais.



quinta-feira, junho 07, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (2)

Com o processo de digitalização completa dos estúdios a aposta da TCV tem-se virado, actualmente, para grandes formatos. Basta olhar para o esforço encetado, ultimamente, por este canal em equilibrar uma certa identidade nacional com uma espécie de aculturação, como é o caso específico do programa matutino «Show da Manhã» , que se aproxima de uma outra forma de fazer televisão, que já fez escola, ao combinar valores universalistas, de sã convivência, com entretenimento. Um tipo de programa que deve ganhar a sua especificidade na transmissão em directo porque envolve actualidade, instantaneidade e realidade vivida no presente momento. O objectivo desse tipo de programas é o de acompanhar as pessoas no seu dia-a-dia, geralmente donas de casa e crianças. A sua reposição, por contingências de produção, como tem acontecido tantas vezes na TCV, é um contra-senso.

A questão de se saber se a TCV dá uma resposta variada à situação cultural cabo-verdiana actual nunca poderia ser afirmativa à luz das novas propostas culturais, urbanas, e de incursão em novos formatos televisivos como talk shows, comics, contra-informação política, programas especializados de cultura e arte apresentados por jornalistas também especializados, ou à vista das novas experimentações visuais e estéticas que o audiovisual tem sofrido nestes últimos anos. Ao não abrir-se a novas manifestações a TCV perde elasticidade na abordagem aos assuntos, fenómeno que, segundo Katz (1999), ocorre, em maior ou menor grau, sempre que os conglomerados técnicos são reformulados para uma reprodução em massa.

Para darmos conta disso basta observar o conteúdo dos dois programas culturais actuais mais destacados - “26 minutos com…” e “Código de Vida” -, que já não conseguem ir para além do mero perfil artístico dos representantes da nossa cultura (a maior parte delas pertencentes ao mundo da música) num registo warholiano daquela que é uma espécie de Fábrica da Cultura Cabo-verdiana. Acresce a isso outras lacunas, no conjunto da programação, que se prendem com elementos como o horário de programação, a classificação das audiências e o contacto profissional com novos estilos audiovisuais e géneros televisivos, como por exemplo, os chamados documentários de criação , que ainda não são considerados em toda a sua complexidade imagética e no seu impacto na formação do conhecimento e das mentalidades. Actualmente, a maior parte dos programas de conteúdos culturais enquadram-se no género televisivo reportagem, em vez da abordagem a um estado real das coisas que o género documentário compreende, isto é, narrativas e visões particularizadas de quem vive permanentemente um conjunto de situações para depois os exprimir com tempo e dinheiro.

terça-feira, junho 05, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (1)


A cultura na sua vertente ideológica.
A cultura crioula sempre esteve aí, no seio do povo como factor identitário que recebe, desde sempre, os reflexos da globalização e das novas tecnologias de comunicação e informação. Mas, fundamentalmente, é preciso entender que a cultura sempre esteve ligada à ideologia, como defende Geertz. Por sua vez, Hall (2009) explica como é que a ideologia actua sobre o discurso e actua dentro dela. Essa actuação deve-se à conotação que qualquer discurso detêm, isto é, o seu sentido é menos fixo e mais fluido do que a simples denotação. Segundo ele, regra geral, raramente os signos organizados em discurso significarão somente seus sentidos «literais» (Hall:2009) dependendo de seu posicionamento no campo discursivo, como afirma na seguinte passagem:


“O nível de conotação do signo visual, de sua referência contextual e do seu posicionamento em diferentes campos discursivos de sentido e associação, é justamente onde os signos já codificados se interseccionam com os códigos semânticos profundos de uma cultura e, assim, assumem dimensões ideológicas adicionais e mais activos.”  [HALL, 2009: p. 373]
Desde as primeiras emissões deste canal público que a preocupação de trazer a cultura cabo-verdiana ao ecrã se impôs naturalmente, tendo iniciado com os concertos em estúdio de grupos musicais ou pequenas reportagens com artistas e artesãos. Mais tarde assistiu-se, nos anos 90, ao recrudescer da tradição santiaguense e a um revivalismo na música e na escultura, com manifestações folclóricas que tiveram, naturalmente, uma clara repercussão nos programas de televisão e nas práticas de produção audiovisual de grupos[1]. Esse fenómeno social e cultural é o resultado daquilo que Geertz alega como sendo “uma tensão que tem como resposta a ideologia”. Nesta linha de ideias, pensamos que a «confluência de uma tensão sócio-psicológica» que vem desde o período colonial prepararia o cenário para o aparecimento de ideologias que preconizam o revivalismo cultural de Santiago, o que criou de modo catártico um cenário cultural em ruptura completa com o passado colonial recente, deslocando o epicentro cultural de S. Nicolau, Mindelo e suas noites de mornas e coladeiras para uma cidade da Praia prenhe de valores autóctones recalcados, nomeadamente, o batuque, o funaná e a variante da língua crioula de Santiago. Referimo-nos, aqui, a uma querela sobejamente conhecida, polemizada e vivida de há duas décadas para cá, e que envolve intelectuais, homens da cultura, que se dividem em «puristas» do folclore santiaguense, «modernistas» mindelenses, «saudosistas» do antigo seminário de S. Nicolau, e, de um modo geral, os inconformados com a actual situação vivida na cultura cabo-verdiana.


[1] Sobre este assunto consultar a obra «Cultura Audiovisual em Cabo Verde» de Mário Vaz Almeida editado pela SOCA Edições em 2010.

segunda-feira, junho 04, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV


Esta nova série de artigos (que escrevi para a revista "Contacto" da Uni-Piaget de Cabo Verde)  avalia os produtos audiovisuais produzidos pela Televisão de Cabo Verde (TCV), no quadro da cultura cabo-verdiana enquanto processo de criação e de transformação dos valores culturais, relacionando-os com o factor ideológico-político. Baseando-se na teoria de acção comunicacional de Stuart Hall, explanado no surpreendente artigo Encoding /Decoding, aborda o modo como a cultura e a recorrente ideologia política condiciona a emergência de novos produtos audiovisuais, com discurso «significativo», no referido canal público de televisão.


A cultura na sua vertente comunicacional.
Interessa-nos, antes de mais, a área da cultura, vista aqui na perspectiva de Geertz quando este afirma que “a cultura não são cultos e costumes, mas as estruturas de significado através dos quais os homens dão forma á sua experiencia.” (Geertz, 1989: 135). Nesta perspectiva a cultura aparece-nos no seu aspecto muito mais dinâmico, como algo de natureza fluida que se vai reconfigurando ao longo do tempo. Ainda, na perspectiva de Geertz, uma das propriedades da cultura é que o seu significado é público, porém, a nossa análise não pretende esgotar, neste artigo, a posição antropológica desse autor sobre este aspecto da vida cultural, que ele dedica a Indonésia de Sukarno, nos anos 60, relacionando-a com o peso da ideologia da época. Inspiramo-nos, antes, numa matéria já explorada por Edward T. Hall (1984), antropólogo norte-americano, que, na sua obra Le Langage silencieux afirma que a cultura é comunicação e que para compreendê-la há que estudar o funcionamento da sua linguagem intrínseca. Pretendemos, quando muito, partir dos diferentes momentos «espácio-temporais» de inter-relacionamento, em contexto cultural, para dar conta do que é conduzido a visibilidade e a representação como «discurso significativo», num processo submetido a escolha, predilecção, aceitação ou rejeição dos referidos programas televisivos. Actuando, fundamentalmente, na esfera dos estudos culturais de Stuart Hall (2009) e do modelo teórico-cultural e comunicacional que ele desenvolveu no período entre 1969 a 1976, trazemos a questão dos conteúdos mediáticos enquanto reflexo dos valores, crenças sociais e culturais, isto é, enquanto indicador «cultural», ao mesmo tempo que empreendemos uma análise ao «conteúdos dos media como reflexo dos valores e crenças sociais». (McQuail, 2003: 309) .

Apesar do que afirma Geertz, que «uma das coisas que quase todo o mundo conhece mas não sabe muito bem como demonstrar é que a política de um país reflecte o modelo de sua cultura” (Geertz, 1989: p.135), tal não nos inibe de perguntar porque é que, até hoje, ainda não se viu uma contra-informação política e humorística na televisão pública nacional cabo-verdiana? O mais perto que estivemos em relação a este aspecto foi com o programa cultural “180º” apresentado por Abraão Vicente na temporada 2009, na Televisão de Cabo Verde no qual se discutiam problemas políticos, sociais e culturais do país numa óptica de livre expressão e sentido de humor, resvalando, não raras vezes, para a ironia e sarcasmo. O programa não sobreviveu muito tempo tendo sido impedido de avançar com mais edições. Porquê? A nossa resposta é simples: porque se trata de uma questão cultural.


segunda-feira, outubro 10, 2011

"O Caboverdiano" em vídeo experimental!

Veja aqui ao lado uma curta-metragem experimental Ride With It do Caboverdiano que vive na Diáspora, Holanda. Quando começa a haver este tipo de abordagens mais artísticas é porque tudo vai bem no audiovisual crioulo.

terça-feira, setembro 20, 2011

Coisas que já vêm tarde!

A taxação dos mais ricos, pelo Presidente Barack Obama, retirando-lhe isenções fiscais revela liminarmente as reais injustiças do progresso económico-financeiro que podem estar no fundo civilizacional (sobre esse assunto basta ver o documentário ultra-moderno "Zeitgeist"). A firme determinação do Presidente de que não pode admitir que um cidadão comum norte-americano pague um imposto de 15% sobre os seus rendimentos se os ricos não o fizerem, também, na mesma taxação, é uma posição clarividente que lança um "facho de luz" sobre uma longa amnésia da história, que favorece os mais ricos e afunda os mais pobres. Esse plano de taxação é das coisas que já vem tarde.

O endurecimento da lei de porte de armas ligeiras é outra das coisas que já vem tarde, como o referiu Carlos Veiga, recentemente. Aliás, isso é algo gritante, face à constante leva de assassinatos de jovens na capital do país: jovens que, por vezes, não são suficientemente homens para matar mas somente impelidos pelo ódio e movidos pela facilidade do disparo, sem nenhuma ponderação.

O Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica prevê chuva para esta semana em Cabo Verde, mas, infelizmente, isso é daquelas coisas que, como uma sina milenar , já vem tarde para garantir um bom ano agrícola.

HOMENAGEM A LEÃO LOPES NO BRASIL

Dr. Leão Lopes, o "pai" da moderna cultura audiovisual cabo-verdeana, realizador e escritor, é laureado com o Troféu Humberto Mauro. Aqui.

"Toda a gente deve estar lembrada daquela “conheço Felini, conheço Kurosawa, mas quem é Leão Lopes”? O mal dissente que parecia conhecer estes grandes nomes do cinema, afinal não conhecia nada. A única verdade contida nessa diatribe era que de facto não conhecia Leão Lopes. Porque se o conhecesse tinha tudo para o aproximar da história destes criadores, que tal como Leão Lopes, fizeram um dia o seu primeiro filme; tal como Leão Lopes, foram artistas plásticos antes do cinema e continuaram sendo; que os três entraram no cinema pelos mesmos caminhos. Mas Leão Lopes tinha tudo a perder; não nasceu na Itália, nem na China. Pagou caro por ter ousado fazer um filme na sua terra. Pena é que nunca tenha sido possível fazer-se a estreia do filme na Praia, nem nunca a nossa televisão passou a série que produzi para esse formato e realizado em simultâneo ao filme, de 3 episódios de 50 minutos cada. Os cabo-verdianos nem sabem que “Ilhéu de Contenda” foi premiado algumas vezes lá fora, incluindo no Fespaco (melhor música), que teve sua banda sonora editada, entre outras apreciações que mereceu durante a seu percurso."

Leão Lopes (numa entrevista concedida a este blogue, em 2010).

segunda-feira, setembro 12, 2011

“Trompe D’Oeil” - Video– Ficção – 08’32’’ (Praia. 2009)

Nesta curta-metragem vídeo (ficção), de 2009, produzida sem nenhum orçamento, o realizador Mário V. Almeida, utiliza os recursos estilísticos de documentário. O assunto parodia o acto terrorista de 11 de Setembro, contra o World Trade Center, visto enquanto um fenómeno de repercussão global que mantem uma relação remota com todos os actos bárbaros de destruição. Decorre, igualmente, em torno da questão da visibilidade e do alcance que os sonhos, e sua projecção, têm nas nossas vidas.

sexta-feira, setembro 02, 2011

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS NA TV: O PRODUCER.

                                           Filtro: Glowing Edges (Adobe Photoshop CS3)

 A figura domi­nante no actual panorama de produção televisiva é a do programador e responsável de conteúdos: o Producer. Actualmente, face à enorme necessidade de gerar uma mul­tiplicidade de conteúdos, se impõe o valor emergente desta espécie de produtor-gestor que deve ter uma forte componente de criatividade. Essa figura, para além de gerir inteligente­mente os projectos, traz os valores singulares aos novos produtos, gera ideias para produzir com agilidade e destreza novos formatos de não-ficção.
O seu perfil profissional atesta-se pela sua capacidade de desenvolver um projecto até a sua difusão, na sólida formação dos processos de produção vídeo e televisivo, na capacidade de implementação das tecnologias digitais, no processo de aquisição e pos-produçao, nos sólidos conhecimentos da narrativa e linguagem audiovisual, assim como no facto de estar na posse conhecimentos do funcionamento do mercado audiovisual, dos sistemas de financiamento, de regulações das normas jurídicas e direitos de propriedade.

quinta-feira, setembro 01, 2011

180º: A mais longa publicidade na história da televisão caboverdeana

Olhemos, em 2009, para esse objecto televisivo de elevado teor publicitário ou o programa que quis ser o mais polémico da história da nossa televisão: o 180 graus com Abrãao Vicente. Esse foi, talvez o único talk show, digno desse nome, a ser produzido pela TCV, apesar de não haver uma banda de serviço, nem gags acompan­hados de risos de plateia, tendo-se pautado, antes, por uma sátira política e por um tipo (raro) de revisionismo da cultura e arte nacional. Apresentado em prime-time, o aspecto essencial do programa teve a ver com o facto de se ter publicitado muita gente e ter-se aproximado do modelo de fazer televisão comparável a das networks norte-americanas. Intraduzível se tornou, a determinada altura, o desenrolar das conversas e das atitudes que se assistiram no programa, funcionando mais a adrenalina publicitária que necessitava para poder avançar [em vez duma análise aprofundada dos assuntos]. Essa adrenalina não provinha do nível de discussão dos assuntos nela abordados mas, pre­cisamente, da novidade do programa e da áurea de polémica que pairava nele. O seu encerramento, que ficou envolto em mistério deveu-se, provavelmente, à perda dessa adrenalina.

sexta-feira, agosto 19, 2011

COMUNICAÇÃO PUBLICITÁRIA (III)

Os spots publicitários em qualquer televisão, pública ou privada, tem menos a ver com os me­canismos, vectores e a criatividade, em si, do que com a sua fugacidade. A comunicação publicitária na TV é uma co­municação com um ritmo imposto. Podemos comportar-nos como um flaneur nas páginas de uma revista magazine mas o ecrã da televisão não nos dá essa hipótese. Uma vez que a cada spot se segue imediatamente um outro, perdendo-se sem deixar traços, o nosso espaço mental é constantemente preenchido o que faz com que a nossa memória tenha que ser constantemente renovada a cada instante publicitário.

Sabemos que o som proporciona um nível de envolvência superior a imagem, o que se deve às nossas características perceptivas: o nosso ân­gulo de visão limita-se a um máximo de 180 graus enquanto que a nossa amplitude auditiva possibilita-nos a captação de sons a 380 graus. Essa capacidade de que o som tem de nos fazer emergir é, evidentemente, aproveitada para se vincar, pelo tonitruante volume sonoro, o momento em que passa o spot TV, que destoa de tudo o resto que existe na programação televisiva. Uma loucura consentida.

È cada vez maior a enorme exigência à volta da criação pub­licitária no que toca á mensagem e originalidade do conteú­do publicitário. Vemos frequentemente spots televisivos nos quais se ensaiam novas abordagens um tanto ou quanto deslo­cadas da realpolitik vivida pelos citadinos caboverdeanos. Acresce a isso o facto da rapidez de ofertas e a multiplici­dade de incentivos ao consumo extravasar o próprio poder de compra dos nossos consumidores .

quarta-feira, agosto 17, 2011

A COMUNICAÇÃO PUBLICITÁRIA TELEVISIVA: SPOTS.

O papel jogado pelo som, voz off, música e efeitos especi­ais está definitivamente implantada no cenário de produção nacional: uma evolução que ocor­reu num par de anos no nosso arquipélago. Em 1998 ainda se apalpava os terrenos da performance e da técnica audiovisual mas, actualmente, com a proliferação das novas tecnologias multimédia um criativo pode fabricar em modalidade in-house producion os seus produtos audiovisuais e aprimorar clips musicais e spots de forma descomplexada. Isso vem reconfigu­rando, sobremaneira, o cenário de produção publicitária em Cabo Verde. Uma pequena parcela da produção nacional de spot TV tem estado nas mãos de criativos isoladas que dispondo de um portátil e de um software de edição concebem os seus trabalhos, vendendo-os a terceiros – os anunciantes.

A publicidade ganhou, assim, um efeito centralizador e catal­isador do médium televisivo: tornou-se o balaio dos sonhos e desejos do espectador encerrado num jogo de linguagem que apela constante e indirectamente ao produto e á sua presença na mente do consumidor.

Porém, no cenário de produção profissional o esforço em atingir a profundidade que a publicidade leva alguns dos nossos criativos e realizadores a munirem-se de sonoridades enigmáticas, de imagens edílicas, e de conceitos pseudo-intelectuais como forma a produzir um sentido de que a publicidade, pela sua natureza efémera, desconhece.

terça-feira, agosto 16, 2011

COMUNICAÇÃO PUBLICITÁRIA (2)

A um nível restrito da mensagem publicitária estabelece-se, assim, uma relação entre três facetas: conceito-produto-marca. Este triângulo relacional intrínseco a comunicação publicitária está presente em qualquer anúncio publicitário posicionando-se na esfera da significação simbólica: ao conferir vida a um produto, constrói-se, para lá das suas características, um mito à sua volta.

Para criar uma aura ou um mito a volta do produto, o realizador de um spot TV não faz mais do que instituir uma comunicação sobre uma mensagem única ilustrada e apoiada sob diversas formas; fundada sobre uma ideia criativa forte, visual e sonora, capaz de se imprimir no espírito do espectador; mas, sobretudo, uma comunicação onde uma certa dose de repetições conceito-produto - marca está assegurada, senão de forma natural, pelo menos de modo reinventado.

Henri Joannis ( MBA em Harvard Business School,) e Virginie de Barnier (MBA em Universidade de Wisconsin) fizeram, entre 2001-2004, um estudo aprofundado sobre milhares de spots, tendo estruturado todo o universo dos “spots televisivos” segundo dois critérios: mecanismos de comunicação empregues e vectores de comunicação que fazem mover esses mecanismos. Os primeiros descrevem encadeamentos de conceitos e o modo de descrição das satisfações enquanto que os segundos descrevem elementos físicos, imagens e as palavras que movem esses mecanismos. A estes elementos se juntam, então, a um nível criativo a ordem de ocorrência dos conceitos visuais; o tempo associado a cada sequência e o papel jogado pelo som (voz off, a voz síncrono, a voz cantada e diversas formas de música).

segunda-feira, agosto 15, 2011

A COMUNICAÇÃO PUBLICITÁRIA TELEVISIVA

Numa altura em que fomos submetidos à avalanche de campanhas políticas nas ruas e na televisão convém trazer aqui um conjunto de abordagens e preceitos acerca daquilo que constitui o substracto dessas campanhas: a comunicação publicitária.

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“A noção de cultura, tal como hoje é concebida, essencialmente publicitária, vê-se naturalmente levada a acarinhar as obras mais pesadamente simplificadoras para que se prestem melhor aos mecanismos da publicidade e depois a transferir pouco a pouco o princípio de valor das obras para o seu valor publicitário.”
Jean Dubuffet

O modelo experimental da persuasão defendida por Kapferer (1985) que, diferentemente da ideia de persuadir o recep¬tor que vigorou até aos anos 1980 [(modelo AIDA: Atenção * Interesse * Desejo * Acção, proposto por Joyce (1967)] traz-nos uma perspectiva construtivista em que o receptor, afectado cultural e psicologicamente, faz “algo” com as mensagens. Esse “algo” é, em certa medida, um enviesamento do carácter simbólico e emocional da marca, que o consumidor faz, deslocando o sentido e o alvo das suas motivações para um ângulo diferente da sua vida. Esta mudança de paradigma das comunicações publicitárias, do modelo AIDA para a visão construtivista, só foi possível por se terem aumentado as abordagens experimentais que permitiram superar a visão me¬canicista da comunicação e consequentemente da publicidade. Ao ser transportada para a comunicação de marca, esta visão experimental traz profundas alterações. Já era preciso pen¬sar em publicidade, não apenas a partir da empresa e marca, mas também a partir dos consumidores e demais públicos receptores num espaço de interactividade.
Para Kapferer (1995) a comunicação de marca e projecção das suas imagens no mercado respeita o seguinte esquema:

Identidade - Comunicação - Imagem
Kapferer, J.N. (1991), Marcas – Capital de Empresa, Lisboa – Edições CETOP


O carácter mítico que subjaz a este modelo de comunicação publicitária aparece num estudo do Professor D.H. Mellor (Faculdade de Filosofia de Universidade de Cambridge) relacionado com a questão simples das convicções verdadeiras. Segundo este investigador: “uma acção resulta quando satisfaz o desejo que se combinou com uma convicção verdadeira para desencadear a acção”. O problema é de “como obter essas convicções verdadeiras de que a pessoa precisa para que as suas acções satisfaçam o seu desejo?”. A resposta que o autor aponta é simples: obtêm-na de outras pessoas pelo acto de comunicação. Isso não quer dizer que ele não poderia obtê-lo de uma simples observação directa mas sim que a própria comunicação é já uma espécie de observação. Em vez de procurar directamente uma coisa de que precisa para obter dela uma convicção verdadeira a pessoa procura, antes, um sinal. Esse sinal é, na sua projecção, o epicentro de tudo aquilo que a publicidade procura construir a volta do produto.

sexta-feira, julho 22, 2011

A PRODUÇÃO E A "VIDEO-IDIOTIA"

A propósito do esforço natural em traduzir o que nos vai na alma e na mente, trazemos, aqui, a expressão “tempos barrocos” introduzida por J.F. Lyotard (1984) relativamente à uma definição complementar que associa “psico-cultura” à nossa própria condição pós-moderna: uma “psicocultura” do happening, do viver dia-a-dia, da ausência de “meta-narrativas”, algo que está na base da nova vaga de «video-idiotia» que circunda o meio artístico.

José Angel Lopez Herrera (2000) levou às últimas consequências esta problemática, ao afirmar que esse tempo psico-cultural do pós-modernismo, presente na nossa personalidade, encontrou, nos media, o meio mais útil para manter e nutrir a situação de forma aparente, mas “radicalmente mentirosa”. Para Lopez Herrera “os media são os instrumentos intuitivos permanentes, sugestivos e animadoras que, gerando uma sensação de liberdade, já que apelam a estruturas superficiais da personalidade, realmente nos submetem embasbacadamente às suas linguagens, interesses, crenças, ideias, que interessam a certos grupos de poder.” (HERRERA: 2000).

O pós-moderno “com estilos de particularidade, superficialidade e absoluta relatividade ao momento” leva-nos a procurar outros caminhos psico-culturais para construir outras identidades, com outras possíveis e efectivas linguagens.” Nesta situação particular, Herrera propõe a criação de irmandades, em diversos domínios da criação. Trata-se, no nosso entender, de uma nova postura intelectual que se abre à uma maior prospecção aos fenómenos culturais e sociais e aos valores universalistas.


O novo “expedicionário” do vídeo terá, assim, forçosamente, que evitar relacionamentos lineares; desfazer o medo de “umbrais” de sentido; tomar como natural as contingências da nossa produção nacional, que devem ser vistas como simples etapas a ultrapassar; buscar uma maior capacitação tecnológica; evitar estribilhos como aquele de que o povo cabo-verdiano só tem apetência para a música; e trilhar os caminhos da ficção cinematográfica, aventurando-se por essa nova possibilidade expressiva para, assim, entrar num novo ciclo. Para isso alguns pré-requisitos deverão ser levados em linha de conta: se houver, como propõe Herrera, a criação de irmandades em diversos domínios da criação; se emergir a consciência de que o trabalho de equipa é muito mais importante que a obsessão individual e o laxismo; e que o correcto ajuizamento é de que uma criação nunca é completamente original e individualizada.

Cumpridas estas condições as coisas poderão melhorar significativamente no meio artístico que se avizinha. Home videos e pequenas produções terão, certamente, o seu devido valor enquanto arte e afirmação no seio de uma camada juvenil que já não quer tanto ler ou escrever mas, sim, filmar.

quarta-feira, julho 20, 2011

A LITERACIA MEDIÁTICA E OS EXPEDICIONÁRIOS DA VÍDEOSFERA (3)

"Grizzly Man" (2005). Werner Herzog

Tratando-se de uma busca activa em relação às narrativas audiovisuais (cinema e documentário) a consciência dos “futuros expedicionários” irá, provavelmente, no sentido de controlarem os efeitos de risco na constante exposição a conteúdos de natureza experimental. À medida que aumenta o factor de risco para a correcta interpretação cultural dos processos nela inscritos diminuirá o interesse em inovar no conteúdo. Hipóteses ou certezas, sabe-se para já que a quantidade de ofertas da tecnologia de edição disponíveis on line, para download, supera, em larga medida, a quantidade de câmaras na posse de jovens amadores do vídeo.

Na lógica de consumo que impera nas nossas modernas sociedades, há mais hipótese de um jovem se apoderar de um vídeo pré-fabricado na internet e recria-lo com base numa tecnologia de edição baixada na internet do que se entregar às complexidades de uma produção bem planificada com adereços e actores, ainda que seja no plano amador. O que se assiste, a esse nível, extravasa a questão ética e deontológica, para tocar os meandros da criminalidade: posse de bens produzidos por outrem e sua distorção ou desvio, numa lógica de experimentação naif irresponsável. Para além disso, o seu esforço de transformação estética acaba por incidir mai, nos aspectos formalistas da obra.

Consideramos que alguns dos nossos videastas (leia-se "futuros expedicionários") detêm uma vaga consciência das investidas intelectuais que fazem e acreditam ser isso um factor aditivo ao seu trabalho. È que, por vezes, a alta exposição à factores de risco, a nível dos recursos estilísticos e intelectuais, pode trazer mais perturbação à sua reflexão enquanto criativos, o que os leva a buscar com naturalidade zonas mais ou menos seguras de reflexão crítica e identitária.

terça-feira, julho 19, 2011

LITERACIA MEDIÁTICA E OS EXPEDICIONÁRIOS DA VIDEOSFERA (2)

Segundo James Potter (2004) os construtores de conhecimento são motivados pela necessidade de obter informações particulares que deverão fazer parte de um corpus de conhecimentos pré-adquiridos. Uma vez satisfeita essa necessidade específica não fica nenhuma outra motivação em voltar novamente ao mesmo tipo de mensagens, quase nunca se expondo, de modo ritualizado, ao carácter degradante de alguns programas de mau gosto. Os “futuros expedicionários”, nesta categoria, não estarão preocupados com o facto de puderem encontrar coisas que entrem em desacordo com a sua visão do mundo. Pelo contrário, preferirão deparar-se com mensagens que contradizem essa visão fortalecendo, deste modo, a sua posição de desafio em reconciliar e sintetizar informações. Objectos audiovisuais polémicos e arrojados poderão resultar desse tipo de motivações.

Os conformistas ritualizados são, no entender desse autor, motivados por rituais, focalizando-se em determinadas narrativas. Eles se apoiam apenas em mensagens que apoiam a sua crença, visão do mundo e posições políticas. Prevenidos, raramente encontram mensagens que vão de encontro à sua necessidade e sentem que nunca é demais estarem expostos às mensagens que apoiam as suas crenças. A sua capacidade de produção crítica é, como tal, limitada.

Os redutores da dissonância são motivados apenas por narrativas que contribuam para reduzir uma certa carga negativa ou uma incerteza ocasional. Não se sentem impelidos a voltar novamente àquele tipo de narrativas que costuma apoiar as suas posições. Uma vez resolvida uma certa dissonância na sua visão das coisas já não resta aquela motivação em obter outros inputs visionários. Aquele que decidisse trilhar os caminhos da criação audiovisual e cinematográfica colocar-se-ia, imediatamente, na esfera de influenciador e estaria capacitado a elaborar produtos audiovisuais mais seguros e lúcidos do que a maioria.

Os géneros “junkies” são, por sua vez, motivados por necessidades ritualistas de atender à vários tipos de mensagens ou narrativas, tais como, novos programas. Regra geral, vêem um canal de desporto todas as tardes de sábado, por exemplo. A sua devoção vai mais no sentido de estarem bem com qualquer tipo de mensagem mesmo que isso lhes cause dissonância. Nesta esfera estão os crónicos seleccionadores de filmes e documentários submergidos numa lógica de consumo inexorável, o que impede, relativamente, a emergência de um espírito crítico e de produção de outras narrativas que deveriam, em princípio, reforçar a memória e o saber já existentes. Consoante o grau de consciência dos nossos expedicionários assim se torna a sua atitude mental e a propensão face ao material visionado: do consumo passivo à busca activa e produção efectiva.

segunda-feira, julho 18, 2011

A LITERACIA MEDIÁTICA E OS EXPEDICIONÁRIOS DO VÍDEO (1)

Dziga Vertov nas filmagens de "Entusiasmo" (Rússia, 1930)

Sabe-se que o nível de literacia mediática aumenta à medida que nos tornamos produtores ou realizadores. Num extremo, temos essa camada social que possui fracas estruturas de conhecimento, ou que praticamente desconhece, de todo, a linguagem e as técnicas audiovisuais, e, no extremo oposto, encontramos os futuros activos expedicionários que possuem uma forte estrutura de conhecimento, para além de terem contactos iniciais, amadorísticos ou profissionais com softwares de edição ou com câmaras de vídeo. Interessa-nos aqui este último grupo. Consoante a sua atitude perante os temas audiovisuais, estes elementos são motivados por necessidades específicas que variam de acordo com o seu grau de interesse e motivação. A sua oscilação entre a produção activa ou o consumo passivo é que determinará o futuro do audiovisual cabo-verdiano.

Num interessante estudo sobre esta matéria o investigador James Potter, na sua obra “Theory of Media Literacy” faz uma extensa análise sobre o grau de literacia mediática de um determinado público-alvo restrito de consumidores do medium televisivo, e que, no nosso caso, identificamos como sendo “futuros expedicionários” da videosfera: um grupo de amadores da arte do vídeo e da publicidade. O referido autor classificou em quatro (4) categorias a literacia mediática: os (1) construtores de conhecimento, (2) os conformistas ritualizados, (3) os redutores de dissonância e (4) os géneros "junkies". Consoante a sua atitude perante os temas audiovisuais, estes consumidores, e potenciais “expedicionários”, são motivados diferentemente por necessidades específicas que variam de acordo com o seu grau de interesse, motivação e da sua atitude mental perante os produtos televisivos.

terça-feira, julho 12, 2011

TELEVISÃO (8): corpo telepresente..

Paul Sermon - "Telematic Vision" (1993- )

A relação, por vezes paupérrima e redutora, que o homem moderno mantém com o médium televisivo, afasta-o do universo interpessoal e interactivo das mostras e festivais. Em reacção a esta tendência, Paul Sermon, praticamente, “instituiu”, desde 1993, uma vídeo-instalação permanente – o Telematic Vision - no Museu de Comunicação de Berna, que perdura até hoje: a televisão e o divã se juntam inseparavelmente num cenário. Nessa exposição o divan é o lugar a partir do qual podemos ver o espectáculo da televisão e, ironicamente, o espectáculo apercebido é precisamente aquele do público sentado num divã. Dois divãs azuis e idênticos (e duas famílias) são instaladas em lugares separados. Cada câmara vídeo transmite uma imagem em directo. Dois monitores transmitem a mesma imagem em lados diferentes, o espectáculo é total. Nesta simultaneidade, os observadores assumem uma função de instalação e se sentam nos seus divãs para olhar a televisão. Trata-se, sobretudo, de uma experiência que propicia a consciência de que pode haver um controlo físico total de um corpo tele-presente, susceptível de interagir com outra pessoa. A experiência do público em relação com as intenções do artista afirma-se, até, no ponto de vista da concepção, da organização e do desenvolvimento da exposição e de preservação da obra.