Para todos os efeitos, a história recente da realidade cultural cabo-verdiana ensina-nos que só no sector da Música é que o consórcio público-privado tem sucesso. O Status Quo provavelmente, dirá que, no futuro, adaptar-se-á o mesmo modelo ao sector audiovisual, quando a vontade política se manifestar a favor e quando a mudança das mentalidades for uma realidade. O activismo cultural e a associação que ora se criou deverão questionar: esperamos por num novo estádio de desenvolvimento do país ou devemos, antes, avançar com as reivindicações? A História Universal, também, nos ensina algo sobre isso.
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sexta-feira, maio 18, 2012
quinta-feira, maio 17, 2012
ASSOCIAÇÃO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE CABO VERDE (4)
Consórcio Audiovisual público - privado?
Na sequência de uma Lei para o Cinema e Audiovisual e para melhor harmonizar o esforço privado com a legitimação e prática das instituições públicas do Estado, poderia ser criada um Decreto-Lei que instituísse um Consórcio Audiovisual público - privado, como a que, actualmente, se pôs em prática na Galiza (Espanha), ou seja, uma entidade que potencie, de modo institucional e sistemático, as acções tendentes ao desenvolvimento do sector Audiovisual. Um consórcio que deveria agrupar o Ministério da Cultura, a RTC, Canais privados, Câmaras Municipais, Associação e Universidades e, em termos de funcionamento, actuaria com um Conselho de Direcção e respectivo Presidente, e uma Comissão Executiva. As suas atribuições deveriam ser, no quadro dos valores universais: promover a utilização da língua cabo-verdiana mediante o seu uso nos meios audiovisuais; promover e potenciar a actividade profissional e a criação do emprego; promover a investigação, a formação e o desenvolvimento tecnológico no sector audiovisual (daí o papel das universidades); impulsionar a produção própria, a co-produção e a distribuição; e, condição sine qua non, promover um melhor conhecimento da história e realidade cabo-verdiana.
A última vez que se tentou avançar para um consórcio público – privado, na história recente da política cabo-verdiana, dentro da actual conjuntura, aconteceu numa área vital, a Saúde, tendo o resultado soçobrado como mera medida de recurso que consentiu, apenas, uma complementaridade entre ambas as esferas da vida social e económica. Isso demonstra quão difícil é fazer avançar um empreendimento desta natureza, dado que exige um novo vínculo social. Para o sector audiovisual em Cabo Verde isso acarreta, pois, um elevado grau de complexidade e, praticamente, não se vislumbra sinais de fumo no horizonte das políticas adoptadas até então para este sector. Para comprovar isso basta olhar para o actual Plano Estratégico Intersectorial da Cultura - o PLEI do Ministério da Cultura - na única passagem em que se refere ao sector audiovisual: “Promover a produção nacional, nomeadamente, a produção de documentários e ficção, em parceria com as companhias de Teatro”. Teatro?! È mais do que evidente que se deveria focalizar a atenção na criação de parcerias com a televisão pública ou privada e empresas audiovisuais privadas.
quarta-feira, maio 16, 2012
ASSOCIAÇÃO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE CABO VERDE (3)
A premência de uma Lei para o Cinema e Audiovisual
Como garantir a legitimação e sustentabilidade desta área de produção de saber e de prática artística que tem, já, os seus actores activos? Raison d’Etat, ou equilíbrio das partes, uma vez que nenhuma acção de activismo cultural encontrará eco, no futuro, se não houver uma Lei para o Cinema e Audiovisual. A associação recém-nascida é um dado novo a ter em conta, no futuro, quando for a altura de se criar um quadro legal e normativo que deverá instituir, para a posteridade, nomeadamente: os serviços e organismos do sector, que deverão estar sob a tutela do Ministério da Cultura: o programa de apoio institucional e financeiro à produção cinematográfica e audiovisual nacional; as normas e taxas para a distribuição, exibição e difusão cinematográfica / audiovisual; o ensino artístico e formação profissional nesse domínio; a normativa de registo de empresas cinematográficas e de produtos audiovisuais; o modelo de financiamento para um fundo de Investimento; assim como, as modalidades de contribuição e de contratos de investimento.
O Governo deverá, na sequência dessa Lei, regulamentar o sector, sob a tutela do Ministério da Cultura, partindo do princípio de que existe uma cultura audiovisual activa que expressa a realidade cabo-verdiana em termos artísticos, científicos e jornalísticos, e deve erigir essa regulamentação na linha da Convenção da UNESCO para a Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (aprovada em Outubro de 2005) que o país subscreveu. Para colmatar esta lei e respectiva regulamentação, dever-se-á: criar na prática um modelo de distribuição do filme nacional aliando-o às estratégias de divulgação e marketing que instiguem o interesse do público; fazer a gestão cultural do cinema e do audiovisual nacional; e, note-se, incentivar a investigação e pesquisa pública nesta área. Um conjunto de acções que se pode, como em outras paragens, concentrar num único organismo, regra geral, em moldes de Instituto. Tudo isso é, ainda, possível fazer na actual conjuntura política.
terça-feira, maio 15, 2012
ASSOCIAÇÃO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE CABO VERDE (2)
E para confirmar este «estado de coisas» [ACACV vs. Ministério da Cultura], a primeira reacção da associação recém-criada não foi um prudente encontro com o Ministro da Cultura, o que seria um procedimento normal, já que no futuro é este Ministério que tutelará todas as acções e programas de incentivo para o sector em causa. Com esta falácia post hoc que se instalou, a primeira acção encetada, após a sua criação foi, sim, um encontro dos órgãos directivos com o Vereador para a área da Cultura, Desportos e Formação Profissional da Câmara Municipal da Praia, com vista a criação de parcerias e à instalação de uma sede na capital. Uma iniciativa que teve, salve-se, uma recepção positiva e assertiva da parte do Vereador tendo este afirmado que a edilidade está aberta à criação de parcerias e à cedência de um espaço, para a sede da associação, numa das artérias na cidade da Praia o que poderá vir a confirmar-se, a breve trecho, num encontro planeado com o Presidente da Câmara Municipal da Praia, algo que, em princípio, deverá ocorrer antes das eleições autárquicas.
Desde logo, um dos maiores desafios que se coloca a Associação é o envolvimento de outras entidades que partilham da mesma paixão pelo audiovisual, nomeadamente a denominada “Cultura Móvel” que tem movido uma série de acções em prol da cultura audiovisual promovendo a criação de vídeos em telemóveis, workshops nas áreas de realização e sessões educativas nas escolas suburbanas. Pondera-se, ainda, a criação de um Festival Internacional do Filme Documentário, na capital do país, sem que, necessariamente, tenha que fazer «mossa» com o Festival Internacional de Filmes que já existe na Ilha do Sal. Um único país pode congregar várias mostras internacionais como se pode verificar em Portugal ou na vizinha Espanha, países desenvolvidos em cuja experiência nos baseamos para formular os juízos ora avançados. A credibilidade e o futuro da associação recém-formada dependerá, contudo, do modo como a sua Direcção, presidida por Mário Benvindo Cabral, souber gerir este desafio, no quadro da idiossincrasia cabo-verdiana, congregando e harmonizando as diferentes acções e os seus diferentes protagonistas, a nível nacional. A diáspora, essa, só responderá verdadeiramente se a associação conseguir se afirmar em pleno como a principal representante do cinema e audiovisual em Cabo Verde.
segunda-feira, maio 14, 2012
ASSOCIAÇÃO DO CINEMA E AUDIOVISUAL DE CABO VERDE
Nas
circunstâncias que antecederam à criação desta associação registaram-se
impressões que se reverteram em perfeitos ruídos na comunicação, o que impediu que
ela se efectivasse plenamente na consciência das pessoas. É, por exemplo, o
caso do artigo publicado no Liberal On
Line (02 Abril/12) que descrevia a associação como sendo de natureza
sindical. Alguma opinião pública mal informada chegou mesmo a ver nela uma
associação apenas limitada a realizadores, olvidando-se da imensa equipa de
operadores de câmara, montadores, apresentadores de televisão, e cinéfilos, o
que se reflectiu muito na configuração da assembleia-geral que veio a decorrer
a 31 de Março.
Note-se que a criação desta associação passou completamente ao
lado do Núcleo Cinemídia da Direcção Nacional das Artes, pólo de audiovisual criado pelo actual Ministro da
Cultura, Mário Lúcio Sousa. Os planos e as actividades deste pólo inovador
nunca chegaram a contemplar os incentivos ou a criação de condições para o
surgimento de uma associação para o sector. A sua presença não se fez sentir em
todo o processo de criação, nem na assembleia constituinte nem na tomada de
posse dos órgãos, e até ao momento em que se escreve estas linhas, o Ministro
da Cultura não emitiu nenhuma palavra sobre o assunto nos órgãos de comunicação
social apesar de já ter tido essa oportunidade, na entrevista que deu ao jornal
“A Nação” (N.º 242 /Ano V/ 19 a 25 de Abril de 2012). Esse facto denota,
evidentemente, indiferença ou desinteresse em relação ao assunto, sem que isso
signifique, necessariamente, uma possível crispação no relacionamento desta
instituição com estes ingentes representantes do cinema e audiovisual. A pairar
no ar fica o lapidar aviso desse membro do governo: “lá onde for a
responsabilidade do Governo, que não haja dúvidas, assumiremos e tomaremos as
medidas necessárias”(sic).
segunda-feira, abril 16, 2012
NASCEU A ASSOCIAÇÃO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE CABO VERDE
A ASSOCIAÇÃO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE
CABO VERDE (ACACV) já está criada, desde o passado dia 31 de Março de 2012,
data da assembleia constituinte realizada no Convento da Cidade Velha, no
Município da Ribeira Grande, tendo a tomada de posse da Direcção ocorrido a 15
de Abril de 2012. De acordo com os seus estatutos trata-se de uma associação
sem fins lucrativos, que está engajada na promoção do cinema e audiovisual
cabo-verdiano e na implementação de acções em prol do desenvolvimento deste
sector. A criação desta nova entidade cultural é o culminar do esforço
continuado de uma equipe de realizadores, produtores, criativos multimédia,
guionistas e cinéfilos que labutam na área do audiovisual e cinema na cidade da
Praia.
Tomaram posse os seguintes orgãos e respectivos integrantes:
Tomaram posse os seguintes orgãos e respectivos integrantes:
ASSEMBLEIA GERAL
Presidente – Mário Vaz Almeida
Vice-Presidente – Chissana Magalhães
Secretario – Nelson Alves
DIREÇÃO
Presidente – Mário Benvindo Cabral
Vice-Presidente – Júlio Silvão Tavares
Secretario – Daniel Spínola
Tesoureiro – Aniceto Fonseca
Paulo Cabral
Abel Monteiro
João Paradela
CONSELHO FISCAL
Presidente - António Oliveira
Secretario – Celeste Moreira Rocha
Relator – Nuno Rebocho
quarta-feira, julho 06, 2011
FILMAR O COMEÇO DA INDEPENDÊNCIA
Foto cerimónia/evento: dia da independência de Cabo Verde, 5 Jul 1975, Praia, Santiago, Cabo Verde. militar ao centro, a segurar a nossa primeira bandeira para ser içada em seguida. Cerimónia no campo de futebol da Várzea.Nos anos 70 em Cabo Verde, o facto mais marcante no cenário da “contracultura” e da emancipação de uma cultura popular e autóctone face ao poder simbólico do império colonial português, pode ter sido a criação do Cine Clube da Praia, ao qual se outorgava a 7 de Maio de 1975 o respectivo Estatuto. Anastácio Filinto Correia e Silva, [cinéfilo, homem da cultura cabo-verdiana (60-70), e um dos organizadores] enquanto cidadão, ia falando com as pessoas e “arranjando coisas sem atrevimento de querer mandar mensagens”. Isso, nas palavras do referido activista que fora, provavelmente, um dos poucos com pretensões claras relativamente à uma contracultura e emancipação de novos valores, mais radicados no indivíduo. Antes do cair da independência, conheceu o operador de câmara – o Betinho Melo - e convidou-o a fazer uma “coisa” histórica: filmar o começo da independência. “Para que Portugal pudesse assinar a declaração, Cabo Verde teria de fazer uma manifestação de força” “Fizemos, então, um pacto: se a população fosse votar (mesmo que seja um partido único, um voto dava para a vitória) filmava-se o acto. Mais ainda, trabalhou-se no duro para que houvesse uma votação que se visse. Toda a gente que tinha uma câmara de filmar se predispunha a ajudar. A Casa Comercial Serbam ofereceu as películas” confessou-nos o ex-radialista.
Num acto sem precedentes ocorria, pela primeira vez, a primeira manifestação de uma contracultura radicada no vídeo e na liberdade de expressão, sob um acontecimento único na história de Cabo Verde. Segundo afirmações do ex-activista, teve que se explicar o processo aos que entravam pela primeira vez nesse jogo de representações, de como se devia filmar, os movimentos que a pessoa devia fazer, e, fundamentalmente, a ideia de que se devia emprestar o próprio corpo para um filme. Toda essa história da emancipação caboverdeana, pelo cinema e depois, pelo vídeo, foi-nos confiada, entrecortada nas palavras deste homem da cultura (a).
Para a história documentalizada ficava, todavia, o registo de 32 minutos sobre a Independência Nacional editado em DVD, realizado por Lennart Malmer e Ingela Romare em 1975, e posta em circulação juntamente com uma emissão radiofónica de 45 minutos do programa nocturno de 04 de Julho de 1995, conduzido por Carlos Gonçalves, intitu¬lado Retrospectivas das Festas de 5 de Julho de 1975.
(a) O vídeo em causa ainda esteve em circulação nas maõs dos dirigentes políticos de então, mas depois desapareceu sem deixar rastos. (Uma história que já conhecemos do caso «O Segredo de Um Coração Culpado»).
sábado, julho 02, 2011
"EDEN": REQUIEM PARA UM SONHO ESQUECIDO
«Eden», de Daniel Blaufuks, explora a perda original. Visualmente forte, é um filme sobre a memória da memória. Na verdade há duas memórias neste singelo documentário: a dos intervenientes que estão nele (Daniel Mascarenhas, Manuel Figueira, Spencer,...) e a da própria matéria do filme. É, também, um longo requiem, para os sonhos do cinema vividos no Cinema Eden Park, soberbamente filmada, com um climax «ficcional», na penúltima cena, interpretada por Malaquias*, com o seu violino solitário e translúcido, a preencher o espaço arruinado e vazio em que se transformou o local. Resta a música para resgatar a memória do cinema caboverdeano e isso nota-se nas cenas em que alguns intervenientes, tendo já esquecido algumas cenas de um filme, cantarolam uma canção que o representou.
O realizador erigiu, de forma esclarecida e tranquila, um monumento ao cinema e encerrou um capítulo na história do "cinema caboverdeano". Mais do que as peripécias de um filme («O Segredo de um Coração Culpado») que, talvez, tenha ficado retido nas alfandegas de Dakar e, posteriormente, destruído, quis o realizador focar-se nas possibilidades de concluir esse esforço do "cinema", que outrora se queria fazer em Mindelo ou, provavelmente, recriá-lo nas suas parcelas. Um processo equivalente à da mumificação de um «corpo» de memórias, demasiado valioso, num ritual envolvendo a plateia e o filme.
sábado, junho 25, 2011
CURTA METRAGEM (2): A Embarcação das Imagens Turísticas
A avalanche de imagens turísticas e paisagísticas sobre Cabo Verde indiciam algo mais hegemónico e que se prende com a excessiva transformação das ilhas em produtos turísticos e culturais. Neste capítulo um dos produtos audiovisuais mais visíveis no cenário da produção nacional é o DVD Multimedia “Cabo Verde Islands” promovido pelo MNECC com produção da Contacto Virtual e Fresco Produções, a partir de uma ideia de Armando Ferreira, David Santos e Paulo Moreira.
O recrudescer do nacionalismo cabo-verdiano e do orgulho nacional fez-se sentir no aumento da quantidade de imagens sobre o nosso país. A maioria delas é, por essa mesma razão, de pendor promocional e as que constituem, de algum modo, enquadramentos sociológicos, caem no jogo fácil de uma moralidade duvidosa. Existe uma ausência perceptível de abordagens antropológicas e de críticas socio-políticas arrojadas. O meio criativo audiovisual praticamente não cultiva as tendências criativas contemporâneas cujos produtos não são visionados de forma activa pelos criadores, pelo menos no que tange às mostras especializadas de documentários que têm estado às moscas.
Os realizadores nacionais, na sua maioria, não funcionam como “expedicionários” que exploram uma montanha desconhecida mas, sim, como donos de uma estalagem isolada, sempre com os mesmos clientes, recebendo de vez em quando um estrangeiro nas suas instalações.
Apesar de se ter registado um ligeiro avanço na definição de um movimento estético e de haver propostas críticas neste género televisivo, a vanguarda documental caboverdeana ainda não se estruturou à volta de um epicentro vital, tal como ocorreu com o documentário político na América Latina, ou com o documentário chino, nos anos que se seguiram ao massacre de Tianamen em 1989, ou, aqui mais perto, com a avalanche de documentários divulgativos, de criação e de carácter político-social financiados pela OIT (Organização Internacional da Francofonia), produzidos e promovidos pela France 2.
sexta-feira, junho 17, 2011
FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (4)
Cena de «No Inferno» Encenado por João Branco * Fotografia: Kizó Oliveira * Fonte: Blog «Na Boca do Lobo»De finais dos anos 80 à década de 90, nas primeiras horas do vídeo e da televisão cabo-verdianas, uma larga fasquia da produção audiovisual limitava-se a pequenos concertos musicais e teatros filmados. A Juventude em Marcha sobreviveu às gerações de grupos teatrais e ganhou espaço numa área de negociação com a linguagem audiovisual originando o teatro filmado, como se de um género autónomo se tratasse. O grupo "Fladu Flá", na mesma senda, tem sido o principal impulsionador do género. Basicamente o que os criadores fazem é encenar, teatralmente, as acções, sem se preocuparem com a continuidade material e dinâmica dessas acções (caras ao cinema), dando mais atenção às caracterizações e ao texto dramático.
Assistimos, no mês de Março e Abril de 2010, a um recrudescer do teatro como género, com a entrada em cena de um novo grupo Otaca, com gags fortes sobre a condição do homem cabo-verdiano na sua labuta por outras paragens e na sua luta diária com as intempéries de um país transformado por dentro. Todavia, se é nos palcos e auditórios que o teatro triunfa assistira-se, na recta final do ano 2009, a um trabalho que desafiou as convenções do género: João Branco apresentava “No Inferno”, com uma banda sonora pungentemente cinematográfica de Caplan Neves, num registo raro de junção de aparato teatral (encenação, cenografia e figurinos) com a “vontade” de cinema, qualificando assim o melhor meio artístico cabo-verdiano com aquilo que gostaríamos de ver e ouvir em imagens montadas num ecrã. Uma reinvenção do cinema, pelo teatro, no mais secreto dos pactos entre géneros primos.
Contrariamente ao teatro, no qual se cultivam as colaborações e entreajudas, no sector mais avançado do meio artístico audiovisual prevalece a prática daquilo que Marguerite e Willard Beecher chamam de “courtship dancing” : uma forma prevalente e altamente irritante de não - cooperação. O “courtship dancer” está sempre tentando afastar os outros do seu percurso, impedindo-o de avançar com a iniciativa. Muitas “experiencias de cinema” detiveram-se nesse murro invisível, levantado no meio de um salão onde todos os dançarinos, movidos pelo desejo, esbarram, ao procurarem a melhor forma de chegar ao primeiro prémio. Algumas dessas “experiencias de cinema” não conseguiram passar de um único filme e outros não chegaram a passar de uma curta-metragem singela, com marcas de produção precária.
Acrescente-se a isso a eterna querela cultural e artística que mantém Mindelo como refém das transformações políticas e regionais, enquanto se assiste a algum “desequilíbrio” pontificante no meio social e artístico da cidade de Praia que, mesmo sendo o centro dos poderes políticos e culturais, está atravancado com mazelas da história e estigmas vários que deixa, na difícil arena sócio – política, poucas hipóteses de superação à iniciativa individual, em permanente combate desigual contra aquilo que já está enraizado na mentalidade de um povo, há séculos.
Não raro, encontramos ali uma certa franja “curiosa” do universo audiovisual cabo-verdiano como aquele núcleo de apaixonados e amadores que, imbuídos do espírito do atelier e do chamado work in progress, vão fazendo as suas experimentações a nível da técnica .
quinta-feira, junho 16, 2011
FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (3)
Da literatura provém uma dimensão do nosso imaginário, naturalmente, associado aos Claridosos, que assentaram as bases sociológicas e antropológicas da cabo-verdianidade. Depois de séculos sob a «sombra» literária-ontológica-socializante do colonialismo português, emerge o homem cabo-verdiano na sua insigne figura, destacando-se do fundo politico-social que lhe é demarcado do ultramar. Essa figura é a dos próprios Claridosos, na sua atitude e no seu modo de escrita, mais visível na adopção que se fez do crioulo como possibilidade poética e existencialista. Um fenómeno idêntico a esse período áureo da cabo-verdianidade (que despontara em Eugénio Tavares) está ainda por nascer na ficção cinematográfica, tanto a nível das adaptações como a nível das criações originais, portanto, ainda muito longe de se constituir como alternativa, enquanto “imaginação produtora”, dada a inexistência de indústria audiovisual e cinematográfica no país . De ressalvar, que toda a História das imagens em movimento foi marcada por rupturas e revoluções que ocorreram, logo, com a invenção do cinema. Logo cedo, criadores como D.W. Griffith estruturaram, de imediato, uma linguagem para todo o imaginário yankee que já existia na literatura norte-americana.
Muito do que se produz e se produziu na literatura cabo-verdiana (claridosa e pos-claridosa) contem em si uma técnica de conversação que parece ter sido retirada dos serões da tarde, de figuras eminentes da cena social cabo-verdiana. Na nossa cultura adoptou-se esse universo representacional do quotidiano e da vizinhança, essa espécie de falar manso, despreocupado e com tendência para a evasão. Toda a literatura cabo-verdiana, desde os claridosos, encontra-se impregnada dessa veia conversacional, salvo os que estão embevecidos na prática de intertextualidades ou um ou outro que anda entretido em afogar-se em algum mal-estar existencialista. Existe uma outra variante do “imaginário” cabo-verdiano que nos é despertado pela textura da voz celestial de Cesária Évora, pela dimensão onírica das suas canções, que leva a que se busque, a partir delas, o referente possível em imagens, obtidas de paisagens naturais, das ruas e noites de Mindelo, em efeitos visuais que expressam sonhos e prazeres hedonistas. Os seus clips musicais, que fazem parte das produções de bom orçamento, que já estamos habituados a ver em projectos musicais internacionais, incidem, na sua maioria, nos aspectos naturais e desprendidos da arte da Cize, isto é, da sua forma de ser e de estar. Num país essencialmente musical, o imaginário das ilhas e o seu natural desejo de representação, encontra, evidentemente, o seu depositário nas canções e nos vídeo clips dos grandes músicos cabo-verdianos. Assistiu-se, nos últimos anos, às melhorias substanciais no tratamento, ao nível da fotografia, da encenação dos desejos, e dos grandes arquétipos cabo-verdianos como a estiagem e as secas, as encostas das ilhas, o mar, a velhice e a saudade. A ruptura, facilmente dedutível desta realidade, seria, então, a capacidade de “transcodificarmos” a linguagem desse universo sensual da música, de reproduzir as falas, na sua natureza sã e reivindicativa, algo que não suscite apenas uma vaga comoção, mas a certeza de uma identidade construída.
Esse imaginário que deve sair das vivencias quotidianas da camada jovem, plena de ritmo e estilos diferenciados, não tem ainda plena expressão no contexto de criação audiovisual e cinematográfica nacional. Tornou-se necessário restituir à ficção o seu papel de construtor de realidades, e ao activismo artístico e cultural o seu verdadeiro espaço, face à uma cultura televisiva com tendência para a hipocrisia e o grotesco.
terça-feira, junho 14, 2011
FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (2)
Tchalê Figueira"O imaginário é, sim, o que existe. O real, se me permitem, é algo puramente inconsequente, algo que não se traduz, algo impossível de concretizar"
Irineu Rocha (a propósito da pintura de Tchalê Figueira)
A celebração da aparência que ocorre na maioria das produções artísticas contemporâneas é apresentada pelo filósofo italiano Perniola, na sua obra «A Arte e a sua Sombra», como uma das duas aventuras artísticas na experiência cultural do Ocidente, que se liga à indiferença, afastamento, suspensão até se reverter numa atitude estética próxima da catarse.
A outra aventura prende-se com a experiencia da realidade, de participação, de envolvimento e compromisso, ou, se quisermos, de uma «imaginação produtora». Esta última é a linha prospectiva que situa a arte como “uma perturbação, um fulgor e um choque”, similar a que emerge das práticas videográficas. Esse tipo de experiências estéticas convive muito mal com a presença de uma certa camada de intelectuais africanos, resistente às mudanças tecnológicas e, fundamentalmente, ao espírito dos novos tempos, uma vez que estão imbuídos daquela pré-disposição que motiva os "eternamente folclóricos" e os “puristas do género”.
Espreitamos, assim, uma aventura nova que resulta de uma apetência natural pela paródia de gentes e situações, em novos moldes (distinta do teatro de província). Estará aí uma nova ficção, criada na memória afectiva das gentes, e que quer estar numa vivência plena com a tecnologia, com as imagens e arquétipos contemporâneos. Entrevemos e ousamos uma vontade de transgressão, de fragmentação do “ego” identitário cabo-verdiano, de recriação dos velhos contos, propícia ao desenvolvimento do género ficção, em qualquer cultura que seja.
Nos primórdios da cultura romana, na Antiguidade, qualificava-se de “imaginarius” aquele que fazia imagens, estátuas, bustos ou efígies. Analogamente, o artesão que, desde os fins da Idade Média se dedicava à escultura ou á pintura sacra, passou a ser conhecido como “imagineiro” ou “santeiro”. Essa assunção da incontornável natureza e condição “imaginal” do homem e da cultura, que quer passar do plano dado para o plano desejado, da realidade para o sonho, consagrada na expressão de Pessoa “nada se sabe tudo se imagina”(Fernando Pessoa Ricardo Reis: Odes Lisboa), levantou, como se sabe, uma suspeição de base ontológica acerca da imaginação. Essa viva emoção não deixou de se ir projectando, ainda, ao longo de mais de dois mil anos, no posterior julgamento expresso, por exemplo, por Pascal quando perspectiva a imaginação como: “cette maîtresse d´erreur et de fausseté”, ou “cette superbe puissance ennemie de la raison, qui se plaît a la controler et a la dominer”. A necessária delimitação de um dado domínio espácio-temporal do imaginário é postulada, entre outros, por Merleau Ponty quando coloca a imaginação como “turbilhão de experiências” numa “placenta social”, isto é, um lugar onde se experimenta e se existe.
Todos nós temos na família aquele elemento que chamamos de “partioso(a)” que nos diverte e nos entretém com o seu falar, seu jeito e graça. A “partiosa da casa” alberga nele o imaginário da família, da vizinhança, ou quiçá, da região onde vive. No complexo sistema de representações e interpretações vivas do nosso viver, dos nossos sonhos, o "imaginário" é o que mais nos enleva, um "algures" que nos é imanente e nos aproxima das coisas com um novo olhar. É a expressão mais grandiosa do que o próprio indivíduo. A “partiosa” pertence á vizinhança e à região onde vive.
sexta-feira, junho 10, 2011
FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (I)
A primeira experiencia de produção e realização no cinema, em outras paragens, foi o de recriar com realismo a vida dos heróis e dos malogrados. A experiencia de linguagem e de estilos fotográficos surgiriam muito mais tarde. No nosso país tudo começou com o “Guarda Vingador” - a primeira experiencia do cinema; “o primeiro filme feito em Cabo Verde» (Rui Machado: 2008) que buscava retratar precisamente o real arriscado, potencialmente heróico dos primeiros filmes de Hollywood. O que veio a suceder-se, depois de uma longa elipse na rarefeita cinematografia cabo-verdiana, foi a tímida incursão nos domínios da adaptação de obras literárias de autores cabo-verdianos. Esta dívida para com os primeiros aventureiros do imaginário das ilhas irá marcar a produção mais actual de filmes em Cabo Verde: “Testamento do Sr. Napumoceno da Silva”, “Ilhéu de Contenda”, “A Ilha dos Escravos” - todos eles, adaptações de argumentos originais de escritores cabo-verdianos nomeadamente Germano Almeida, Manuel Lopes e Evaristo de Almeida. Uma das poucas aventuras em recriar o quotidiano do homem cabo-verdiano num guião original está no filme “Fintar o Destino” de F. Vendrell: um olhar saudosista que impressiona pela caracterização do personagem principal e pela reprodução de uma vivencia mindelense muito próxima daquela que estamos, realmente, habituados a viver. Nesta obra a juventude cabo-verdiana mereceu, em parte, um tratamento mais honesto e em conformidade com o seu real desejo de auto-expressão ( o amor sensual e as discotecas). Apesar de haver, ainda, uma certa visão paternalista na abordagem à realidade cabo-verdiana, herdada de um passado colonial congratulamos com este olhar mais condescendente para com a nossa juventude, sempre que ela aparece, nas condições de uma produção cinematográfica de grande orçamento.
No polémico “Cabo Verde Nha Cretchéu”, de Ana Lisboa Ramos, assistimos a uma arriscada incursão da realizadora pela ficção galopante e controverso, na linha do que se viu em “Magnólia” de Paul Thomas Anderson (sem comparações de natureza criativa) com o qual entrevemos uma relação remota, no seu substrato motivacional. Um conjunto de histórias soltas como as que saem das conversas de vizinhança e que começam com a expressão “tal fulano se meteu com sicrano”, polvilhadas de tragédias familiares que constituem o repertório do quotidiano crioulo: “é isso que somos, é isso o que nos acontece”. O filme teve, porém, uma fraca actuação dos actores, com pouca atenção aos papéis secundários que se sobrepuseram em determinadas alturas da narrativa aos papéis principais. Os cenários, característicos de uma pequena produção, não contribuíram para a verosimilhança da história contada, o que originou ferozes criticas de Abrãao Vicente, importante figura da televisão nacional, tendo ido parar às barras dos tribunais, numa peripécia que extrapolou da ficção para a realidade. Mais um dos nossos casos, “do que somos e do que nos acontece”. Passado algum tempo depois do filme, alguém viria a comentar com um certo fatalismo que Cabo Verde não tem actores (para o cinema, diga-se de passagem). O descrédito originado pelas fragilidades de uma fraca produção e pela insuficiência de uma emergente classe de actores cabo-verdianos de cinema, explica, em parte, a inclinação natural para se reconhecer a impossibilidade de haver um cinema cabo-verdiano, enquanto representação fiel do nosso imaginário. A rodagem de «Futcéra» em S. Vicente e de “Raboita de Rubon Manel” no Tarrafal (2010)*, na jovem produção audiovisual e cinematográfica veio equacionar novamente o problema da representação de um imaginário cabo-verdiano num quadro histórico determinado.
* Carlos Freitas, realizador de “Raboita de Rubom Manel”, é um dos poucos realizadores, naturais de Cabo Verde, com apetência natural para o género ficção, se levarmos em conta o seu anterior trabalho para a televisão “A Caderneta”: uma câmara subjectiva que põe no mesmo ponto de vista o espectador e o doutor para quem a protagonista fala; um recurso estilístico que aparecera pela primeira vez em “A Dama do Lago”/ “Lady in the Lake” (EUA, 1946) de Robert Montgomery.
«Futcéra», rodado em S. Vicente, é um claro sinal de que há quem, ainda, lute pela edificação do género ficção na cultura audiovisual nacional.
sábado, agosto 15, 2009
Chegamos ao Cinema ou aguardamos que o Cinema chegue até nós?
"Shadows" (1959). John CassavetesCaro bloguista: convido-o a ouvir o programa «Nôs Artista» na Rádio Educativa este Domingo (16 de Agosto) pelas 21 horas. Falo abertamente das possibilidades do cinema independente em Cabo Verde mediante o uso de handycâmaras, do experimentalismo como meio de expressão, mas sobretudo da mudança de atitude que é preciso ter para se fazer algo neste domínio. O essencial da conversa tida com o jornalista Nelson Pires abarca a realização do meu primeiro filme «Sábado á Noite» e os constrangimentos de se fazer cinema tout court no nosso país ao qual contraponho o recurso ás tecnicas de cine-verité e ao naturalismo na representação de que os actores amadores se podem munir. Foi o que se fez nos anos 60 em França e nos EUA. A Historia nos ensina.
Estou convicto que não se trata de utopia mas, talvez, de sombras que são projectadas por cúpulas de poder político, financeiro, lobbies culturais, e medos irracionais que impedem o jovem cinema caboverdeano de se expressar condignamente e em condições de maior visibilidade.
Opinamos?
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segunda-feira, fevereiro 09, 2009
RETRATOS (III): CHÃ DAS CALDEIRAS (FOGO)
"Last Days"(2005). Gus Van SantChã das Caldeiras (Fogo). 2 de Abril de 1995. 05 h da madrugada. Enquadramento: um homem está sentado numa cadeira de ferro simples. Está de tronco nú e apenas vestido com uma calça de ganga coçada donde desponta os pés nus. Ao fundo do enquadramento, do outro lado da parede uma janela deixa ver, em profundidade, o Vulcão e a sua cratera apontando para o céu. O corpo do homem está muito suado e treme. Tem uma faca na mão que maneja nervosamente na mão esquerda. Com frémito, tensão e nervosismo aproxima a faca do pulso. Nesse instante ouve-se um burburrinho que parece vir das entranhas da terra. Em milésimos de segundo guinchos de sangue saltam do pulso do homem ao mesmo tempo que, pela janela, as lavas incandescentes irrompem na cratera do vulcão como um fogo de artifício. À medida que se ouve aumentar os gritos no exterior o sangue vermelho escorre pelo solo e mistura-se, lentamente, com o vinho manecon que sai por entre os cacos de vidros da garrafa que a violenta irrupção acabara de partir.
sábado, fevereiro 07, 2009
RETRATOS (II): INTERIOR DE SANTIAGO
"Sarabanda" (2003). Ingmar BergmanInterior de Santiago. Enquadramento: Numa casa rustica louças e tachos velhos e gastos estão a ser recuperados pela mão hábil e paciente de um funileiro. Durante cerca de cinco minutos vemos o homem a trabalhar de forma exímia e concentrada uma caçarola velha, até a recuperar de todo. Numa única cena-sequencia o homem desloca-se com a peça já trabalhada (a caçarola) e dirige-se a uma outra divisão para chegar ao terreiro da casa humilde e modesta. Está lá uma mulher com as mãos no queixo a olhar para um ponto incerto na baia costeira. Apercebendo-se da presença do homem levanta a cabeça. Trocam o olhar por breves instantes. O homem entrega-lhe a caçarola. A mulher devolve-lhe um sorriso largo e de cumplicidade. Ele estaca-se por uns instantes á frente dela, dá-lhe uma piscadela de olho e volta para dentro de casa. Ao lado da mulher uma gaita e um ferrinho «descansam» encostados á parede da casa, na ponta leste do terreiro.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
RETRATOS (I): MINDELO
«Lola»(1981) - Rainer Werner FassbinderMINDELO - No enquadramento vemos apenas um violino em cima de uma cadeira. Ouve-se conversas fora do enquadramento «Oh, minis…b’sôt … oiá...(ruído)». Entra um casal que se põe a dançar mas só vemos as suas coxas e as pernas. Os corpos se inclinam numa coladeira e as mãos se insinuam nas coxas um do outro. Saem do enquadramento. Continuamos ainda a ouvir as vozes e os murmúrios. Um jovem rapaz entra (vemos pernas e coxas), logo seguido de um outro que lhe apalpa a bunda ... um momento de hesitação (nas pernas) e saem de cena. Ouve-se uma voz insistente «... dond’ê bsôt koloká kel violin, ahn?». Ouve-se ainda murmúrios e passos de gente saindo de um um compartimento para outro. Entra um terceiro jovem no enquadramento que se dirige em direcção ao primeiro plano onde está a nossa cadeira com o violino (que está sempre em primeiro plano). Agarra no violino e sai do enquadramento enquanto murmura «Es minin’s já ka ten kabesa!».
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