TEMAS

terça-feira, junho 18, 2013

Exibição: 27 de Junho (3.ª feira) - 09h30 - Auditório da Universidade de Cabo Verde


"A RAPARIGA" (17'53'' Thrillet/Suspense) Dir.: Mário V. Almeida
Sinopse
Sena é um fotógrafo profissional que leva uma vida de trabalho. Vive com uma rapariga modelo de quem cuida como se fosse uma peça de arte. A sua convivência começa a assumir contornos estranhos com o silêncio da rapariga a persistir entre ambos. Cada vez mais indiferente a ela e perdido nas suas visões, Sena entra numa escalada de loucura, mistério, alienação e morte.

domingo, março 03, 2013

ACERCA DO DESEJO DE AFIRMAÇÃO

Numa sociedade mediatizada o desejo de afirmação dos jovens está em íntima relação com a crise conjuntural de identidade e, consequentemente, com o binómio criminalidade - criatividade. Este triângulo de implicações mútuas tem criado um negócio desprezível no mundo do entretenimento e meios de comunicação de massas no qual não se nota a criação de valor. Como atesta Vilches (2006) na sua análise sobre este tópico o que se assiste, actualmente, neste sector é «uma gestão brilhante em negócios cada vez mais degradados» (Vilches, 2006:158). 

Nos dias que correm qualquer jovem munido de mini-sistema de gravação e software de criação de beats pode criar o seu próprio discurso sobre a sua vida e o seu bairro, ou, nos melhores casos, sobre a vida social e política. Seguindo-se à cena internacional, em Cabo Verde, o discurso rap urbano que, praticamente, incorpora a atitude dos jovens invadiu os mass media e os assuntos nele presentes não diferem muito um do outro. Já houve, porém, propostas interessantes como as do agrupamento «Rapaz 100 Juiz», Expavi e, muito recentemente, a de Batchart. Ressalve-se que numa sociedade mediatizada a criação de valor deveria ser uma constante sob pena de cairmos na entropia e embasbacamento. 

E de notar que, entre aquilo que é vivido nas comunidades por esses jovens e o que transparece na arte há uma distância. Essa distância tende a abolir-se em «benefício exclusivo do modelo», como defende Baudrillard (1991), criando uma terceira e nova categoria de simulacro com base na hiper-realidade: o simulacro da simulação, ou seja, «(…) os modelos já não constituem uma transcendência ou uma projecção ; já não constituem um imaginário relativamente ao real, são eles próprios antecipação do real (…)» (Baudrillard, 1991: 152). Convém lembrar, aqui, que o som dos tiros de armas de fogo nas gravações da Death Row Records sobretudo as de 2PAC, não só tinham o intuito de arte como o de incitamento à violência e ao crime. O assassinato de 2Pac e o ferimento de Suge Khight naquela fatídica noite em Los Angeles, no ano de 1996, foi apenas o culminar e coroar de um fenómeno de proporções dantescas. Esse epicentro histórico na comunidade hip hop afro-americana constitui o modelo «cibernético» ao qual os jovens, pelo mundo fora, se atêm, perpetuando uma prática que, na origem, tinha motivações díspares e contextualizadas. Como modelo a imitar sobrevive menos o «2Pac poeta» do que o «2Pac gangster» e, de uma certa forma, estar entre a criminalidade e a criatividade é intuir uma ou outra dominante do fenómeno 2Pac. 

Os jovens que estão no esteio desse discurso hip hop constituem uma comunidade imaginada que esbarra na cultura nacional que também tem a sua comunidade imaginada. Hall (2006: 52-56) discorrendo sobre a questão da identidade cultural, no contexto da pós-modernidade, e num capítulo dedicado as culturas nacionais como comunidades imaginadas, identifica 5 grandes narrativas culturais: em primeiro lugar, a narrativa da nação, ou seja, aquilo que diz a história e literatura nacional, tal como a história da independência nacional e do dealbar da democracia; em segundo lugar, a narrativa que assenta as suas bases na tradição e intemporalidade e no incessantemente vivido, como aquelas pequenas coisas que nos tornam efectivamente crioulos cabo-verdianos (e não europeu ou africano): em terceiro lugar, as narrativas baseadas nas ritualizações e tradições inventadas como a banderona ou tabanka; em quarto lugar, a do mito fundacional, isto é, uma narrativa que aponta para as origens da nação, como o mito das Hespérides; por último, a narrativa cultural que reivindica a pureza e originalidade do folclore nacional sem paralelo em outras paragens, como a nossa morna, por exemplo. Nesta perspectiva, o discurso hip hop urbano aparece como a modernidade que confronta as referidas narrativas e que surge do impacto da última fase da globalização sobre as identidades nacionais. Segundo Hall (2006) uma das características dessa modernidade é a «compressão espaço-tempo» que constitui «a aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que os eventos em um determinado lugar têm um impacto imediato sobre as pessoas e lugares situados a uma grande distância» (Hall, 2006:69). Os sistemas de representação que surgem no seio dessa modernidade constituem, para o autor, o ónus da questão, uma vez que a sua configuração e reconfiguração «têm efeitos profundos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas». Os jovens munidos de um ipod ou de um ipad constroem o seu imaginário moderno, com base nos filmes, videoclips e canções internacionais de moda, mas as suas culturas autóctones concretas fazem apelos a uma parte diferente da sua identidade própria. É nesse pêndulo entre a tradição e a modernidade que emerge a criatividade nos jovens. Neste particular, o autor considera o retorno ao local e ao étnico, um dos aspectos da pos-modernidade. O trabalho artístico de grupos teatrais recentes têm ensaiado esse retorno ao étnico e dessa tendência destaca-se nas obras de João Pereira (Tikai) e de Gil Moreira que recorrem, inteligentemente, ao audiovisual para sustentar o seu ímpeto criativo.

terça-feira, junho 12, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (4)

Conclusivamente, (relativamente aos conteúdos culturais na TCV) há que ponderar a figura de um Provedor que sonda o mercado e a audiência, mantendo-se fiel aos princípios liberalizantes das sociedades democráticas modernas. Uma medida que deve ser equacionado no sentido de evitar tendências demasiado corporativas face aos colectivos de civis, cidadãos, telespectadores, adultos e crianças.

segunda-feira, junho 11, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (3)

Da intersubjectividade e do “xamanismo” televisivos.


Na obra, editada em parceria com Daniel Dayan, A história em directo. Os acontecimentos mediáticos na televisão, Elihu Katz (1999), num capítulo intitulado “Lar como espaço público”, corrobora uma ideia, formulada em 1948, por Lazarfeld e Merton, de que os noticiários televisivos comportam uma ilusão de participação política e que, normalmente, as pessoas «transportam» a informação que recebem dos noticiários televisivos para discussões públicas em sedes locais dos partidos, corredores, bastidores, ou cafés. Acrescenta, ainda, que se tornou difícil separar os efeitos da televisão dos efeitos persuasivos do próprio acontecimento. (Katz, 1999:130). Assim, uma transmissão em directo de uma tomada de posse presidencial pode ter sucesso como acontecimento mediático e definir uma nova era na cabeça das pessoas mas, neste caso, que efeito poderia ser equacionado para um programa televisivo religioso como a Eucaristia Dominical, transmitido todos os Domingos na TCV? Para todos os efeitos, o resultado que se almeja é que a Eucaristia Dominical, ao ser transmitida em directo, para todo o país, pondo a igreja no centro dos acontecimentos, estruture as famílias e as relações sociais de uma forma mais consentânea com os princípios cristãos, num alargamento do seu raio de influência. Nos termos aqui propostos (relativo a conteúdos programáticos culturais) seria, por certo, mais eficaz (para essa camada de espectadores cultos e esclarecidos) um programa que explicasse, por exemplo, as origens do cristianismo e que não nos leve a ter que esboçar um sinal de incompreensão face ao olhar insistente de uma religiosa na direcção da câmara (ecrã para nós) ou nos «obrigue» a ajoelharmo-nos à frente do televisor.

Uma missa dominical na televisão nunca chega a ser «natural», na perspectiva antropológica da qual partimos. Num espaço comunicacional negociado pode chegar, até, a perder o seu significado eucarístico e religioso, simplesmente, por não ser a sua forma própria de mediatização. Porém, compreende-se que se deve equacionar a questão do tempo em que vivemos e a premência de se adaptar as novas tecnologias de comunicação e informação às necessidades da igreja contemporânea.

O mesmo «xamanismo» televisivo acompanha as transmissões em directo dos inúmeros festivais de música e debates parlamentares que criam, em uníssono, uma ilusão de participação que origina, por sua vez, uma comunidade virtual de relações distanciadas da realidade essencialmente diferente da que é vivida pelos presentes em tais acontecimentos. Essa onda de transmissões em directo da televisão pública camufla, porém, uma outra realidade: a incapacidade de produzir programas inovadores de conteúdos culturais.



quinta-feira, junho 07, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (2)

Com o processo de digitalização completa dos estúdios a aposta da TCV tem-se virado, actualmente, para grandes formatos. Basta olhar para o esforço encetado, ultimamente, por este canal em equilibrar uma certa identidade nacional com uma espécie de aculturação, como é o caso específico do programa matutino «Show da Manhã» , que se aproxima de uma outra forma de fazer televisão, que já fez escola, ao combinar valores universalistas, de sã convivência, com entretenimento. Um tipo de programa que deve ganhar a sua especificidade na transmissão em directo porque envolve actualidade, instantaneidade e realidade vivida no presente momento. O objectivo desse tipo de programas é o de acompanhar as pessoas no seu dia-a-dia, geralmente donas de casa e crianças. A sua reposição, por contingências de produção, como tem acontecido tantas vezes na TCV, é um contra-senso.

A questão de se saber se a TCV dá uma resposta variada à situação cultural cabo-verdiana actual nunca poderia ser afirmativa à luz das novas propostas culturais, urbanas, e de incursão em novos formatos televisivos como talk shows, comics, contra-informação política, programas especializados de cultura e arte apresentados por jornalistas também especializados, ou à vista das novas experimentações visuais e estéticas que o audiovisual tem sofrido nestes últimos anos. Ao não abrir-se a novas manifestações a TCV perde elasticidade na abordagem aos assuntos, fenómeno que, segundo Katz (1999), ocorre, em maior ou menor grau, sempre que os conglomerados técnicos são reformulados para uma reprodução em massa.

Para darmos conta disso basta observar o conteúdo dos dois programas culturais actuais mais destacados - “26 minutos com…” e “Código de Vida” -, que já não conseguem ir para além do mero perfil artístico dos representantes da nossa cultura (a maior parte delas pertencentes ao mundo da música) num registo warholiano daquela que é uma espécie de Fábrica da Cultura Cabo-verdiana. Acresce a isso outras lacunas, no conjunto da programação, que se prendem com elementos como o horário de programação, a classificação das audiências e o contacto profissional com novos estilos audiovisuais e géneros televisivos, como por exemplo, os chamados documentários de criação , que ainda não são considerados em toda a sua complexidade imagética e no seu impacto na formação do conhecimento e das mentalidades. Actualmente, a maior parte dos programas de conteúdos culturais enquadram-se no género televisivo reportagem, em vez da abordagem a um estado real das coisas que o género documentário compreende, isto é, narrativas e visões particularizadas de quem vive permanentemente um conjunto de situações para depois os exprimir com tempo e dinheiro.

terça-feira, junho 05, 2012

CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS CULTURAIS NA TCV (1)


A cultura na sua vertente ideológica.
A cultura crioula sempre esteve aí, no seio do povo como factor identitário que recebe, desde sempre, os reflexos da globalização e das novas tecnologias de comunicação e informação. Mas, fundamentalmente, é preciso entender que a cultura sempre esteve ligada à ideologia, como defende Geertz. Por sua vez, Hall (2009) explica como é que a ideologia actua sobre o discurso e actua dentro dela. Essa actuação deve-se à conotação que qualquer discurso detêm, isto é, o seu sentido é menos fixo e mais fluido do que a simples denotação. Segundo ele, regra geral, raramente os signos organizados em discurso significarão somente seus sentidos «literais» (Hall:2009) dependendo de seu posicionamento no campo discursivo, como afirma na seguinte passagem:


“O nível de conotação do signo visual, de sua referência contextual e do seu posicionamento em diferentes campos discursivos de sentido e associação, é justamente onde os signos já codificados se interseccionam com os códigos semânticos profundos de uma cultura e, assim, assumem dimensões ideológicas adicionais e mais activos.”  [HALL, 2009: p. 373]
Desde as primeiras emissões deste canal público que a preocupação de trazer a cultura cabo-verdiana ao ecrã se impôs naturalmente, tendo iniciado com os concertos em estúdio de grupos musicais ou pequenas reportagens com artistas e artesãos. Mais tarde assistiu-se, nos anos 90, ao recrudescer da tradição santiaguense e a um revivalismo na música e na escultura, com manifestações folclóricas que tiveram, naturalmente, uma clara repercussão nos programas de televisão e nas práticas de produção audiovisual de grupos[1]. Esse fenómeno social e cultural é o resultado daquilo que Geertz alega como sendo “uma tensão que tem como resposta a ideologia”. Nesta linha de ideias, pensamos que a «confluência de uma tensão sócio-psicológica» que vem desde o período colonial prepararia o cenário para o aparecimento de ideologias que preconizam o revivalismo cultural de Santiago, o que criou de modo catártico um cenário cultural em ruptura completa com o passado colonial recente, deslocando o epicentro cultural de S. Nicolau, Mindelo e suas noites de mornas e coladeiras para uma cidade da Praia prenhe de valores autóctones recalcados, nomeadamente, o batuque, o funaná e a variante da língua crioula de Santiago. Referimo-nos, aqui, a uma querela sobejamente conhecida, polemizada e vivida de há duas décadas para cá, e que envolve intelectuais, homens da cultura, que se dividem em «puristas» do folclore santiaguense, «modernistas» mindelenses, «saudosistas» do antigo seminário de S. Nicolau, e, de um modo geral, os inconformados com a actual situação vivida na cultura cabo-verdiana.


[1] Sobre este assunto consultar a obra «Cultura Audiovisual em Cabo Verde» de Mário Vaz Almeida editado pela SOCA Edições em 2010.