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terça-feira, junho 26, 2007

Comunidades Cabide

Há pouco tempo filmei um projecto que se debruçou sobre a comunidade multi-étnica de S. Francisco em Bilbao (Espanha) - sobre a qual ainda não disponho de financiamento para pos-produção. Resta-me para já uma pós-reflexão que partilho contigo: no início o vídeo girava em torno do racismo e da questão da integração da pessoa humana e se ela pode ser conseguida através de uma preparação e aperfeiçoamento de qualidades corporais e psíquicas que eliminem o medo do Outro. Nesta perspectiva, teríamos assim no centro do espectro a inter-acção entre o corpo, a vida quotidiana e as tecnologias. Mas depois de vários visionamentos, o projecto acabou por «esbarrar», sem querer, numa expressão teórica/metafórica do filósofo/sociólogo Zygmunt Bauman que explicita um dos aspectos essenciais das sociedades contemporâneas: «as comunidades cabides (cloakroom communities). Este sociólogo defende que as sociedades actuais precisam de um espectáculo que apele a interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna durante certo tempo em que outros interesses – que os separam em vez de uni-los – são temporariamente postos de lado, deixados em fogo brando ou inteiramente silenciados, formando assim, ocasionalmente, uma comunidade que tem nos cabides, cacifos e bastidores, o seu momento de comunhão.
Devo dizer que a visão crítica deste sociólogo/filósofo rondou, instintivamente, a primeira fase da montagem vídeo e, a cada visionamento, via, num processo, quase de imersão, claros sinais tremeluzentes dessa oscilação radical entre indivíduo e a colectividade. Na verdade foram coisas que eu senti durante a onda dos acontecimentos naquela cidade mas que só mais tarde, com o distanciamento necessário, acabaria por ter essa bênção teórica de Z. Bauman. Quando saí para a rua com a minha câmara quis, ingenuamente, participar de uma pequena revolução no Bairro imigrante de S.Francisco, em Bilbao, mas no final, não houve revolução nenhuma e acabei por regressar ao meu sossego e á essa estranha condição de estrangeiro.
Para já contento-me com esta mistura de performance vídeo e de manifesto politico-cultural, contendo, apesar da sua natureza lúdica, ideias positivas e esperançosas : a ideia de que é preciso dançar para ser; dançar para devolver ao corpo a alegria e o encanto de comunicar; criar; vencer o medo; transformar a rigidez em elasticidade; tecer esperanças; lançar caminhos; dançar para aceitar as diferenças e descobrir a riqueza de quem é diferente; dançar para sair da solidão, do isolamento e dos esquemas rígidos criados a nossa volta na sociedade. Apesar de todas essas danças, vozes e cânticos, que nascem da aparente imobilidade social apenas divertirem, em instantes lúdicos, essa mesma sociedade para acabarem inteiramente silenciadas pelo peso opressivo e mesquinho do status quo político-social ou pela vil mediania. E no final cai o pano sobre a cena .
Ah, sim! Se fosse um trabalho solitário (e se tivesse estômago para isso) poderia, pelo menos, distorcer tudo até tornar abstractos os movimentos de dança, as cores e os elementos da natureza. Pelo menos aplacaria essa asfixiante humanidade que me invade, eivada desse ridículo sentimento: a esperança de que somos verdadeiramente racionais e melhores como civilização.

sexta-feira, junho 22, 2007

Ah, Sun Flower !!

"Os Deuses da Terra e do Mar

Procuraram através da Natureza

Para encontrar esta árvore

Mas a sua busca foi em vão:

ela cresce no cérebro humano."


William Blake [Songs of Inoccence and Spirit]



People are Strange

People are strange when youre a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when youre down
When you're strange / Faces come out of the rain
When you're strange / No one remembers your name

When you're strange

People Are Strange - Jim Morrison

The Doors

terça-feira, junho 19, 2007

Dito

Oscars aos actores cujos corpos, figura, voz, não parecem ser deles, não dão a certeza de lhes pertencer.

Robert Bresson

terça-feira, junho 12, 2007

Estórias de hoje que parecem de tempos longínquos

Era uma vez um rapazinho paquistanês que denunciou ao mundo as atrocidades a que muitas crianças eram submetidas diariamente para fazer prosperar o negócio dos tapetes. Em plena Assembeia Geral das Nações Unidas um rapaz, muito pequeno, levantou-se da sua cadeira para explicar com voz e gestos infantis como é que ele e outras crianças paquistanesas, eram obrigados a permanecer de côcoras durante horas a fio, dia após dia, ano após ano, a tecer e entretecer fios e a dar nós nos tapetes. O rapazinho disse que o trabalho das crianças era muito procurado por terem mãos pequeninas e por conseguirem dar nós mais perfeitos nos teares. Contou que muitas crianças iam ficando sem dedos e com o tempo as suas mãos se transformavam em cotos por darem tantos nós e trabalharem sem descanso. Perante uma Assembleia mergulhada em profundo silêncio afirmou que as crianças só eram dispensadas do trabalho quando perdiam ambas as mãos. Depois sentou-se e adormeceu. Passado pouco tempo o rapazinho foi morto mas a sua voz e o seu testemunho continuam vivos. São estórias que parecem vindo de mundos longínquos e antigos onde a barbárie impera mas é apenas uma falsa impressão. Pode estar a ocorrer na vizinhança, ali ao lado.

sexta-feira, maio 25, 2007

Estórias antigas para os dias de hoje

Esta estória passa-se no México: um grupo de cientistas tinha contratado uns carregadores para transportar os pesados equipamentos de investigação a uma cidade Inca, no cume da montanha. De repente, durante a caminhada, os carregadores imobilizaram-se, não querendo continuar o caminho. Os cientistas, desorientados, já não sabiam o que mais fazer para os convencer a prosseguir a caminhada e nem sequer percebiam a razão daquela paragem tão longa. Passados umas horas os carregadores puseram-se, finalmente, em marcha. Alguns minutos depois, o líder deles resolveu, então, dar uma explicação pela longa paragem: andaram demasiado depressa e por isso tinham precisado de esperar pelas Almas.

quarta-feira, maio 23, 2007

So What !!

Miles Davis et John Coltrane.
Para nunca mais ter que sentir aquela necessidade de dizer alguma coisa.

sábado, maio 19, 2007

Blooker Prize para história de Guerra

O relato de guerra que Colby Buzzell, um soldado norte-americano, começou a escrever no blogue pessoal www.cbftw.blogspot.com enquanto estava na guerra do Iraque valeu-lhe o prémio Blooker Prizer (2.ª edição), ao ser editada em obra intitulada «My War: killing time in Iraq». O prémio no valor de 7.500 dólares (5.500 euros) distingue desde 2005 o melhor livro que começou como um blogue na internet. Colby Buzzell começou a contar as suas experiências apartir de uma tenda instalada na linha da frente do combate e equipada com internet. Para quem anda a questionar a razão porque se escreve um blogue está aqui uma boa razão: «voltava das missões com as orelhas a zumbir devido aos tiroteios e escrevia sobre isso». C.B.

Nota: blook= blog+book [livro baseado num blogue]

terça-feira, maio 15, 2007

segunda-feira, maio 14, 2007

O Burguês

Todas a revoluções se fizeram porque um dia alguem pensou que os seus sentimentos, a sua ética, são superiores aos dos outros, não por serem sofisticados, mas sim porque estavam, na verdade, embebidos no êxtase do poder e da luxúria. Em vez de uma maiêutica socrática contavam os seus bens e os factos do passado, como se lidassem com um guarda joias. Até a si próprios se traíram e o que de mais belo sentiram, certa vez, alienaram-na a favor do poder, ou talvez porque aquele sentir não era um verdadeiro sentir mas sim uma experiencia do poder. Sócrates, narrado por Platão, teve o desnorte de beber do veneno burguês para provar a sua extrema liberdade de sentir e pensar. Mas isso já sabemos.
Acredito, sinceramente, como certo teórico, que todas as nossas fontes já estão relatadas, por isso não me preocupa tanto conhecer-me a mim próprio ... porque eu já sou. Não acredito que alguem seja capaz de me narrar ... porque eu sou o único repórter da minha vida. Para fazer a síntese, ouso convidar toda a gente a pensar assim... porque duvido que alguem recuse um bem maior do que a sua liberdade. Como se saboreia melhor esse sentimento ? O que é que sente um burguês quando destrói o seu objecto mais valioso ?

sábado, abril 28, 2007

Michael Moore outra vez no centro das atenções

Mais uma polémica de Michael Moore: mostrará no seu novo documentário, «Sicko», como os doentes são mais felizes em Cuba do que nos EUA. A estreia vai ser no Festival de Cannes em Maio, onde é um dos destaques fora da competição.


Entretanto a sua imagem pública começa a esbater-se por causa de duas pessoas: Debbie Melnyck e Rick Caine, ex-fãs, cujo documentário «Manufactering Dissent» tem como objecto ... Michael Moore. O casal de documentaristas canadianos começou por querer fazer um filme sobre o seu ídolo mas Moore não queria ou não podia lhes dar atenção. E eles puseram-se, então, de plantão e microfone na mão á espera dele, utilizando o mesmo método que ele próprio, Michale Moore, utilizara em «Roger&Me». O resultado foi um documentário que descontruiu um carácter supostamente manipulador.

sexta-feira, abril 27, 2007

Casamento entre cinco mulheres na Nigéria acaba em fuga

Uma mulher lésbica, actriz, que se casou com quatro mulheres, no passado fim de semana no estado de Kano, em Nigéria, permanece escondida junto com as suas esposas para fugir á policía do país que quer prendê-las e aplicar-lhes a lei Islâmica conhecida por sharía. De acordo com esta lei, adoptada no estado de Kano, há sete anos, a homosexualidade e os casamentos entre pessoas do mesmo sexo são proibidas. O islão diz que um homem pode ter até quatro esposas, se as puder manter. A mesma lei não vale para mulheres, e menos ainda se são homossexuais.

O casamento teve lugar num teatro, que acabou sendo demolida pelas autoridades de Kano, a cidade mais grande do norte de Nigeria. A homossexualidade feminina é ilegal, tambem, no código penal nigeriano e o Parlamento está tomando em consideracão um endurecimento das penas para aquilo que eles consideram ser um «delito».
Fonte: BBC.com

Onde é que já li isto!?

O Medo é a única cor e a única raça: aloja-se na tua pele e faz-te odiar.

Parabéns, Cize, pela Legião de Honra de França!

quinta-feira, abril 26, 2007

Paris, Texas (1984) - Cena de Abertura





Win Wenders mostra-nos aqui como se filma um homem no deserto.

Planos de Autor II

Se F. Coppolla, na sua obra «O Padrinho», fez uso do tempo cinematográfico como factor dramático, em «Paris, Texas» Win Wenders utiliza o ambiente para o mesmo fim. Neste filme, o recurso a espaços cinematográficos de índole particular é que faz com que o comportamento das personagens ganhe sentido. A primeira imagem do filme é construído por um travelling e vários planos gerais do deserto, habitado apenas pela figura franzina de Travis (Harry Dean Stanton) e por um abutre, á espera que ele ceda ao cansaço. Wenders vai nos aproximando progressivamente da personagem. A composição do enquadramento vai-se simplificando e a nossa atenção centra-se, então, na cara desfigurada de Travis, nas mãos que tapam uma bóia já vazia de agua e no seu rosto crispado pelo sol do deserto. Á medida que o filme progride, a selecção das objectivas e os movimentos de câmara vão correspondendo cada vez mais as características dramáticas e orgânicas dos lugares, que correspondem ás características dramáticas que se observam nas personagens. Passamos, assim, da «pré-historia» das imagens totais para planos mais fechados e sintéticos da civilização humana.

terça-feira, abril 24, 2007

O Padrinho





O Plano de Autor por excelência.

segunda-feira, abril 23, 2007

Planos de Autor I

Na cena inicial de «O Padrinho» a câmara foca num plano aproximado do peito a personagem de Bonasera que está a falar para alguém que, entretanto, não nos é dado ver. Conta-lhe como a filha foi violentada. Passado um minuto o plano recua suavemente num travelling para trás das costas de Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando, que nesse momento apenas escuta. Bonasera levanta-se e sussurra qualquer coisa ao seu ouvido para lhe comunicar o tratamento que deseja que seja aplicado aos culpados. É nesse momento que nos é, então, revelado a real natureza de um Padrinho no código siciliano.

Este plano inicial é um dos raros planos de autor que fundaram o cinema contemporâneo. Coppolla regista-o no mesmo instante em que começa o filme. Pela sua densidade cerebral e codificação do tempo aproxima-se daquilo que Gilles Deleuze categoriza de cinema of the brain, igualmente presentes na arte de Stanley Kubrick ou de Alain Resnais. O tempo cinematográfico que decorre entre o início e o final de cena é na verdade um tempo hiper real; excede a própria encenação.


A cena é soberba: iluminação cuidada, movimento calculado da câmara, assombrosa interpretação de Marlon Brando - um «monstro sagrado» de Hollywood, saído do Actor’s Studio.



Saliente-se que o olhar de Coppolla é um olhar fascinado pela organização, pelo código de honra e pelo exercício do poder que estão na base das famosas vendettas sicilianas. O seu estilo cinematográfico encontra as raízes no universo dos grandes cineastas italianos como Visconti, Fellini e De Sica. Junte-se a isso meticulosidade, precisão, hiperrealismo e teremos a exacta medida da sua obra.




«O Padrinho», realizado em 1972, recebeu nesse ano os Oscares de Melhor filme, Melhor Actor para Marlon Brando e Melhor Cenário. O argumento foi adaptado do romance homónimo de Mario Puzo que também é co-autor na escrita do cenário do filme. O filme é considerado como um clássico da sétima arte e uma obra prima absoluta de um dos mais explorados géneros cinematográficos - o gangster. «O Padrinho» é também, sem exagero, um dos ícones da cultura ocidental.

sábado, abril 21, 2007

O Tempo, esse verdugo

(...)« Não importa a que sortilégios me entrego: / neste jogo de acasos que é a vida / ganha sempre este apostador sem rosto / a que outros chamam tempo./ Mas é com emoção quase adolescente / que a cada manhã o reencontro / para o aprazado combate.» (...)

José Luis Tavares *

* Poeta caboverdeano laureado, em Portugal, com o Prémio Mario António de Poesia por Paraíso Apagado Por um Trovão (2.ª edição)