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terça-feira, agosto 28, 2007

N de Natural

Desde que li «A um Deus desconhecido» de John Steinbeck percebi o que é representar de forma ontológica o natural. O imaginário nele expresso apela a qualquer coisa de intrinsicamente bravio e silvestre. Natural não se confunde com sapiência. Natural é a voz e musicalidade de Nancy Vieira sobretudo no seu mais recente album «Lus» que confirma todo o seu potencial e carisma de crioula desprendida e sensual. Natural é o que me ocorre também quando oiço as canções de Norberto Tavares que, na sua busca formal e estilístico, quase que antecipou a revolução operada por Pantera, década mais tarde.

Natural é o apelo que N'Zé di Sant' y 'Agu, heterónimo de José Hoppfer Almada na obra «Assomada Nocturna». Segundo o próprio Zé Hoppfer o N antes de N'Zé está lá, por definição, como a primeira pessoa do sujeito na lingua crioula. A obra, que constitui-se como um único poema, é , na sua estrutura, uma jornada poética de um badio, cioso da sua cultura e das suas origens:

«Lembras-te, Txokáti

do nocturno requiem

dos ciprestes e das buganvillas

dos olhos cintilando

vigilantes escrutando o vôo das garças e das pombas

sobre o rude verde das lemba-lembas

nas noites longas de Assomada?


Todos nós éramos verde poilões resguardando no ventre

rugosos e centenário

os colectores dos espíritos da chuva da vegetação e do tempo

e os salteadores da cobardia

acossados pela polícia

foragidos da lei e da ordem


Todos nós éramos túmulos de lendas e mitos

esconderijos da secular condição

de primogénitos das montanhas

da humanidade das ribeiras

da vastidão do verde

ressumando

sobre o corpo dos sequeiros

em raízes contorcidos.

[in «Assomada Nocturna», cadernos da Lusofonia, pag. 66-67]
Natural é a interpretação dos actores brasileiros nas novelas; artificial o dos actores portugueses, nas primeiras novelas (dj'es arma kômpu). Natural é o cinema de Yasugiro OZU; artificial é interpretação de Mano Preto ( que admiro na dança) no filme «Ilhéu de Contenda» (lá se vai aperfeiçoando a técnika, n'é?). Natural seria Nha Nácia Gómi, á sua maneira, a apresentar o noticiário das nove na televisão. Natural é tambem uma crioula que eu vi passar hoje na Rua do Loreto no Chiado: uma festa de sensualidade que destruiu ali mesmo o ritmo do meu quotidiano.
Enfim N pôde sta ser um poko simplista ma ser natural é um manera di stá na arte y na vida [kel ki ta une pessoas, amigus y kumplisis] . É ta prova ma inda é pussível ser honestu y artista u mesmu tempu, kusa ki N ka ta flá ma ta correspondi á maioria de artistas di nôs praça. N ta atxa també ma es honestidadi y es liberdadi é um interessi verdaderu pa conteúdu y não pa fla flá, astúcia y cenas kantadu na ritmo de ideologia.
Môda nha mãe ta flaba: dádu ku tudu alguem, ou seja ... ser natural.

2 comentários:

Paulino Dias disse...

Ééééé, precisamos mesmo de muito "N" de natural por estas bandas! Gostei do seu blog, valeu pela lembrança do "Assomada Noturna" que li primeira vez aos 16 anos e fez-me como que sobrevoar a Assomada que não conhecia então. Hoje, ainda descubro Santa Catarina de carro, à pé, e no poema na mesinha de cabeceira...

Abraço,

MÁRIO ALMEIDA disse...

Obrigado, Paulino. Santa Catarina foi a minha casa nos dois anos que leccionei no Liceu. Partedaminha formação adveio daí, principalmente no que tocaás pessoas e á sua propensão para o trabalho e progressão.

Abraço