TEMAS

quarta-feira, junho 15, 2011

COMO PODERÁ EXISTIR A ARTE SEM A CRIAÇÃO?

Mário Vaz Almeida é professor na Universidade Jean Piaget, na Praia, licenciado em Ciências de Comunicação, variante audiovisuais e medias interactivos. Tem uma pós-graduação em documentários que também detém uma componente jornalística. Frequentou durante seis meses um curso de Jornalismo no CENJOR, em Portugal, para além de formação na RTC também ligado ao jornalismo, Realização e Produção de programas. Em entrevista a Nos Identidade, este profissional deixa transparecer o gosto pela arte criativa.



* Entrevista conduzida por Cândida Barros (aluna finalista do curso de Ciências da Comunicação da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde)



Nos Identidade – Queria que falasse um pouco sobre a disciplina de Atelier de Criação?
Mário Almeida
– Atelier de criação é uma cadeira Interdisciplinar, quer dizer que os alunos terão que, a partir das outras disciplinas, dos conceitos e das noções, fazerem alguma coisa prática no atelier. Tem um factor que é a questão da experiencia: o estudante terá que ter experiencias de fazer as coisas, trabalhar na prática, manufacturar ideias, conceber e tratar fotos, filmar quando se pede, e são esses conjuntos de preceitos que vão ser avaliados pelo professor da cadeira, e que já tem a ver com a capacidade criativa do aluno. Cabe ao docente ver se o aluno, de vez em quando não repete padrões, se é capaz de assumir uma responsabilidade no futuro, porque a criação é pluridimensional: tem a ver com a postura do aluno, a forma de interacção entre ambos, aspectos importantes para uma aprendizagem saudável. O professor tem que ter uma componente criativa forte para provocar os alunos, obrigando-os a um feedback.



NI- Para leccionar Atelier de criação, para a variante de Jornalismo, o professor tem que ser um Jornalista?
MA
- Tem que ter conhecimento de jornalismo. Eu dou esta disciplina por várias razões. Primeiro, porque sou licenciado em Ciências de Comunicação, variante audiovisuais e mídias interactivos; tenho uma pós-graduação em documentários que também é uma componente jornalística. Tenho várias formações em jornalismo, fiz Cenjor durante seis meses e de alguma forma tinha que pôr em prática aquilo que aprendi. Cenjor é considerado o maior centro de Jornalismo em Portugal. Tive formação na RTC também ligado ao jornalismo televisivo, Realização e Produção e obtive um diploma. Tenho várias especialidades que me habilitam a fazer atelier de criação sempre que o quiser.
Portanto eu estou, sempre, dentro das diferentes áreas a criar coisas novas. Mesmo nos vídeos pessoais que realizo a nível dos documentários a minha ideia é sempre inovar, trazer algo diferente, e é isso que tento passar nas minas aulas de atelier de criação. Penso que deve haver uma atitude descomplexada em relação às pessoas, não se pode rotular ninguém, criar estereótipos, isso não é criação, mas sim comodismo.




NI- Da sua experiência como Professor universitário qual é o melhor método para a disciplina de atelier de criação?
MA –
Tratando-se de uma universidade, não pode ser padronizado como um ensino secundário; os alunos não podem ficar à espera de "tpc" (trabalho para casa).O que se faz aqui é conciliar as duas coisas porque temos a consciência das dificuldades do ensino em Cabo Verde. Alguns chegam com dificuldades e sem preparação para estarem numa universidade, e às vezes misturam as metodologias. Existem excepções, mas há uma parte desse ensino que é assistencialista, mas nós temos que trazer coisas secundárias para que o aluno se recorde de alguma coisa. Ele é confrontado com conjunto de exigências que tem a ver com a vida universitária em que os requisitos são outros. O aluno já vem com o raciocínio suficientemente completo porque o 12º ano lhe dá isso. Se se não trabalhar este aspecto irá ficar sempre preso ao secundário e não consegue desenvolver um trabalho de cariz superior. Existem casos em que o professor tem de estar sempre a chamar atenção. Na universidade é errado pensar que um professor tem que estar a correr atrás do aluno, por exemplo; todavia, existem trabalhos que têm de serem avaliados, e eu tenho que avisar milhões de vezes, porque além de cuidar da própria disciplina,cabe-me também chamar o aluno à responsabilidade.




NI- Sente-se bem na sua profissão?
MA- Eu gosto, sinto-me muito bem e estou à vontade. Acho que sou o único, provavelmente, que tem esta liberdade com os alunos e com a própria disciplina. Isto permite-me explorar vários campos, isto é, não me limito a dar uma matéria conceptual como as disciplinas teóricas que têm programas rígidos. Houve uma mudança de programa em relação ao ano anterior, quando cheguei encontrei um programa muito rígido, não permitia ao aluno aventurar-se por muitas coisas. Assim, adaptei o programa, fiz várias pesquisas, trouxe novas perspectivas ao atelier de criação para os alunos de publicidade porque a disciplina foi mudada em 2 turmas e eu tive que mudar completamente o programa porque não havia forma de pôr os alunos a trabalhar. Então, criei séries de procedimentos empresariais: trazer-lhes briefing para fazerem cartazes, por exemplo, e obrigá-los a entregar em tempo oportuno; entre outras actividades. Com o de Jornalismo também tento criar essa ideia de que estamos numa redacção: a pessoa tem que estar constantemente a criar noticias, por isso levo para turma temas actuais sócio-politico cabo-verdiana para que esse programa se cumpra.


NI- Então tem o método democrático, deixa a criatividade por conta dos alunos e depois faz a avaliação?
MA
É isso mesmo. Mas eu estarei sempre em interacção com os meus alunos.

Fotografia & texto: Cândida Barros



terça-feira, junho 14, 2011

FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (2)

Tchalê Figueira

"O imaginário é, sim, o que existe. O real, se me permitem, é algo puramente inconsequente, algo que não se traduz, algo impossível de concretizar"


Irineu Rocha (a propósito da pintura de Tchalê Figueira)





A celebração da aparência que ocorre na maioria das produções artísticas contemporâneas é apresentada pelo filósofo italiano Perniola, na sua obra «A Arte e a sua Sombra», como uma das duas aventuras artísticas na experiência cultural do Ocidente, que se liga à indiferença, afastamento, suspensão até se reverter numa atitude estética próxima da catarse.

A outra aventura prende-se com a experiencia da realidade, de participação, de envolvimento e compromisso, ou, se quisermos, de uma «imaginação produtora». Esta última é a linha prospectiva que situa a arte como “uma perturbação, um fulgor e um choque”, similar a que emerge das práticas videográficas. Esse tipo de experiências estéticas convive muito mal com a presença de uma certa camada de intelectuais africanos, resistente às mudanças tecnológicas e, fundamentalmente, ao espírito dos novos tempos, uma vez que estão imbuídos daquela pré-disposição que motiva os "eternamente folclóricos" e os “puristas do género”.


Espreitamos, assim, uma aventura nova que resulta de uma apetência natural pela paródia de gentes e situações, em novos moldes (distinta do teatro de província). Estará aí uma nova ficção, criada na memória afectiva das gentes, e que quer estar numa vivência plena com a tecnologia, com as imagens e arquétipos contemporâneos. Entrevemos e ousamos uma vontade de transgressão, de fragmentação do “ego” identitário cabo-verdiano, de recriação dos velhos contos, propícia ao desenvolvimento do género ficção, em qualquer cultura que seja.


Nos primórdios da cultura romana, na Antiguidade, qualificava-se de “imaginarius” aquele que fazia imagens, estátuas, bustos ou efígies. Analogamente, o artesão que, desde os fins da Idade Média se dedicava à escultura ou á pintura sacra, passou a ser conhecido como “imagineiro” ou “santeiro”. Essa assunção da incontornável natureza e condição “imaginal” do homem e da cultura, que quer passar do plano dado para o plano desejado, da realidade para o sonho, consagrada na expressão de Pessoa “nada se sabe tudo se imagina”(Fernando Pessoa Ricardo Reis: Odes Lisboa), levantou, como se sabe, uma suspeição de base ontológica acerca da imaginação. Essa viva emoção não deixou de se ir projectando, ainda, ao longo de mais de dois mil anos, no posterior julgamento expresso, por exemplo, por Pascal quando perspectiva a imaginação como: “cette maîtresse d´erreur et de fausseté”, ou “cette superbe puissance ennemie de la raison, qui se plaît a la controler et a la dominer”. A necessária delimitação de um dado domínio espácio-temporal do imaginário é postulada, entre outros, por Merleau Ponty quando coloca a imaginação como “turbilhão de experiências” numa “placenta social”, isto é, um lugar onde se experimenta e se existe.



Todos nós temos na família aquele elemento que chamamos de “partioso(a)” que nos diverte e nos entretém com o seu falar, seu jeito e graça. A “partiosa da casa” alberga nele o imaginário da família, da vizinhança, ou quiçá, da região onde vive. No complexo sistema de representações e interpretações vivas do nosso viver, dos nossos sonhos, o "imaginário" é o que mais nos enleva, um "algures" que nos é imanente e nos aproxima das coisas com um novo olhar. É a expressão mais grandiosa do que o próprio indivíduo. A “partiosa” pertence á vizinhança e à região onde vive.

sexta-feira, junho 10, 2011

FICÇÃO CINEMATOGRÁFICA CABOVERDEANA (I)

A primeira experiencia de produção e realização no cinema, em outras paragens, foi o de recriar com realismo a vida dos heróis e dos malogrados. A experiencia de linguagem e de estilos fotográficos surgiriam muito mais tarde. No nosso país tudo começou com o “Guarda Vingador” - a primeira experiencia do cinema; “o primeiro filme feito em Cabo Verde» (Rui Machado: 2008) que buscava retratar precisamente o real arriscado, potencialmente heróico dos primeiros filmes de Hollywood. O que veio a suceder-se, depois de uma longa elipse na rarefeita cinematografia cabo-verdiana, foi a tímida incursão nos domínios da adaptação de obras literárias de autores cabo-verdianos. Esta dívida para com os primeiros aventureiros do imaginário das ilhas irá marcar a produção mais actual de filmes em Cabo Verde: “Testamento do Sr. Napumoceno da Silva”, “Ilhéu de Contenda”, “A Ilha dos Escravos” - todos eles, adaptações de argumentos originais de escritores cabo-verdianos nomeadamente Germano Almeida, Manuel Lopes e Evaristo de Almeida.





Uma das poucas aventuras em recriar o quotidiano do homem cabo-verdiano num guião original está no filme “Fintar o Destino” de F. Vendrell: um olhar saudosista que impressiona pela caracterização do personagem principal e pela reprodução de uma vivencia mindelense muito próxima daquela que estamos, realmente, habituados a viver. Nesta obra a juventude cabo-verdiana mereceu, em parte, um tratamento mais honesto e em conformidade com o seu real desejo de auto-expressão ( o amor sensual e as discotecas). Apesar de haver, ainda, uma certa visão paternalista na abordagem à realidade cabo-verdiana, herdada de um passado colonial congratulamos com este olhar mais condescendente para com a nossa juventude, sempre que ela aparece, nas condições de uma produção cinematográfica de grande orçamento.



No polémico “Cabo Verde Nha Cretchéu”, de Ana Lisboa Ramos, assistimos a uma arriscada incursão da realizadora pela ficção galopante e controverso, na linha do que se viu em “Magnólia” de Paul Thomas Anderson (sem comparações de natureza criativa) com o qual entrevemos uma relação remota, no seu substrato motivacional. Um conjunto de histórias soltas como as que saem das conversas de vizinhança e que começam com a expressão “tal fulano se meteu com sicrano”, polvilhadas de tragédias familiares que constituem o repertório do quotidiano crioulo: “é isso que somos, é isso o que nos acontece”. O filme teve, porém, uma fraca actuação dos actores, com pouca atenção aos papéis secundários que se sobrepuseram em determinadas alturas da narrativa aos papéis principais. Os cenários, característicos de uma pequena produção, não contribuíram para a verosimilhança da história contada, o que originou ferozes criticas de Abrãao Vicente, importante figura da televisão nacional, tendo ido parar às barras dos tribunais, numa peripécia que extrapolou da ficção para a realidade. Mais um dos nossos casos, “do que somos e do que nos acontece”. Passado algum tempo depois do filme, alguém viria a comentar com um certo fatalismo que Cabo Verde não tem actores (para o cinema, diga-se de passagem). O descrédito originado pelas fragilidades de uma fraca produção e pela insuficiência de uma emergente classe de actores cabo-verdianos de cinema, explica, em parte, a inclinação natural para se reconhecer a impossibilidade de haver um cinema cabo-verdiano, enquanto representação fiel do nosso imaginário. A rodagem de «Futcéra» em S. Vicente e de “Raboita de Rubon Manel” no Tarrafal (2010)*, na jovem produção audiovisual e cinematográfica veio equacionar novamente o problema da representação de um imaginário cabo-verdiano num quadro histórico determinado.


* Carlos Freitas, realizador de “Raboita de Rubom Manel”, é um dos poucos realizadores, naturais de Cabo Verde, com apetência natural para o género ficção, se levarmos em conta o seu anterior trabalho para a televisão “A Caderneta”: uma câmara subjectiva que põe no mesmo ponto de vista o espectador e o doutor para quem a protagonista fala; um recurso estilístico que aparecera pela primeira vez em “A Dama do Lago”/ “Lady in the Lake” (EUA, 1946) de Robert Montgomery.

«Futcéra», rodado em S. Vicente, é um claro sinal de que há quem, ainda, lute pela edificação do género ficção na cultura audiovisual nacional.

quarta-feira, junho 08, 2011

HILÁRIO BRITO, DJIBLA E...CARLOS PULU!

O caso de Carlos Pulu (ver http://www.cafemargoso.blogspot.com/), que vai ser julgado no célebre caso da TVP, auto-intitulada TV do Povo, vai ficar na história do audiovisual caboverdeano.



Para a história fica também a primeira demonstração da hegemonia da técnica electrónica que foi levada a cabo por Hilário Brito, um patrão da electrónica e tecnologia vídeo que marcou a vida social e cultural cabo-verdiana ao criar, praticamente sozinho, a “primeira emissora nacional”. Este senhor esteve à frente do seu tempo e consumou as aspirações dos videastas e experimentalistas da electrónica dos anos 60-70, como Nam June Paik, que fez esta clamorosa afirmação: “Quanto tempo falta para que o videasta tenha o seu próprio canal televisivo?”. Pode-se seguramente afirmar que, em Cabo Verde, um homem o conseguiu sem ter motivações de poder e sem haver nenhuma confluência. Mas fê-lo movido por uma paixão: a electrónica.


Vale a pena aqui ressalvar a experiencia «paralela» ocorrida em S. Vicente nos finais dos anos 60 e que se prolongou até aos anos 80: “uma história que começou com o senhor Chiberto Faria, na altura gerente do banco, ainda no tempo dos portugueses (…) De Burro ele carregava baterias e televisores para Monte Verde – ainda não havia estrada – e lá começou a captar emissões de Dakar e Canárias.” Como contou o conhecido mindelense Djibla (Daniel Pinto Mascarenhas) na revista “Ponto & Virgula”(8) e que vale a pena ler. Chegou-se mesmo a formar uma TV Galeano ou TV Supirinha com a ajuda de um engenheiro da Philips. E fez-se, em certa medida, uma pequena produção com câmaras e magnetoscópios pessoais, com a consequente corrida às antenas de captação por parte de populares. Uma história que se reporta mais à experiencia dos primeiros inventores e saltimbancos na muito particular (e um pouco anárquica) historia do cinema que começou por ser uma actividade de circo e de exibições populares.




Em Cabo Verde essas ramificações nas experiencias de vídeo e TV vão desembocar, em 1984, na criação da TEVEC (Televisão Experimental de Cabo Verde), em 1984, para abrir uma nova era na história do audiovisual cabo-verdiano.

terça-feira, junho 07, 2011

CENTRO CULTURAL BRASILEIRO

Na sequência de vários Workshops sobre Documentário no CCB, no verão de 2009 entrevistamos Sr.ª Marilene Pereira, Directora do Centro Cultural Brasileiro que, de uma forma geral, considera que se deve pôr a tónica nas novas tecnologias vídeo/multimédia e lutar contra um certo «laxismo» que impera no seio dos potenciais criadores.




Dr. Marilene Pereira, desde que é Directora do CCB, que espaço tem ocupado o cinema na vossa programação cultural?
O cinema tem sido desde a primeira uma actividade constante cinema adulto e só o cinema brasileiro. Actualmente a gente faz uma programação mensal específica. Para a criança é mais raro porque o Brasil não tem uma grande produção de cinema para o público infantil. Além do espaço que é um auditório a gente tem feito parcerias com a Câmara Municipal. Por exemplo, na quarta-feira a nossa programação de cinema era na Praça, no ano passado foi feito um cinema voltado para os jovens. Este ano o CC Mindelo já está com uma programação de cinema ligada ao Carnaval. Paralelamente a isso fizemos tanto no primeiro ano de funcionamento como no segundo ano formações em documentário. No primeiro ano foi mesmo sobre cinema; os jovens aprenderam a fazer o guião, a questão da iluminação e do som. Era um grupo de 15 jovens.
No ano passado fizemos documentários curtos. Fizemos já duas formações. Está previsto este ano na nossa programação mais uma formação em cinema com aquele grupo que veio em 2008. Mas isso depende do governo brasileiro. Para as actividades maiores precisamos de mandar para a aprovação do Camaraty. E estamos a tentar uma parceria com a Telecom, já há uma sensibilidade, e que é um festival de curtas metragens só com telemóveis. Já temos um realizador para acompanhar. Se não resultar essa parceria vamos avançar com a T+. Inspira-se num festival do Brasil da autoria de uma companhia de telemóveis do Brasil que já tem um festival nacional de curtas que já tem bastante impacto. Essa é, portanto, a nossa parte do audiovisual. Incluímos também no programa passar cinema no bairro a começar primeiro pela Praia escol¬her cinco bairros e durante o ano passar a outros bairros.

Qual o bolo orçamental que cabe ao sector audiovisual no CCB?
Por incrível que pareça não é um pacote caro o que se dedica ao audiovisual. A única coisa que temos que fazer é a promoção. O governo brasileiro patrocina os filmes, directa ou indirectamente, por fundos. Para além disso para ter direito a isso o governo tem que pagar o direito de transmitir esses filmes, concedida a todos os centros culturais brasileiros espalhados pelo mundo.




Existe um programa de incentivo á produção audiovisual a esses países e que seja algo sistemático?
Não tem nenhum. Porque não faz parte da política cultural brasileira repetir as actividades. Há, todavia, um festival que já vai na sua 4.ª edição e que é o Festival Internacional dos Direitos Humanos. É um programa latino americano mas é de iniciativa da Secretaria do Estado dos Direitos Humanos que é ligada á Presidência da República do Brasil. Este ano o programa foi estendido a Cabo Verde e a Guiné-Bissau. Estiveram já duas técnicas da secretaria e elas têm interesse em que esse programa continue em Cabo Verde. Mas não é só trazer os filmes de Festival Internacional da América Latina. Quer dizer que tem uma selecção; trazemos tudo o que tem interesse para Cabo Verde. Mas há também interesse para que seja produzido localmente documentários para passar nesse festival Cabo Verde - Brasil. Como há muita sensibilidade da parte dos organis mos internacionais pela questão dos direitos humanos pode ser que consigamos através da questão dos direitos humanos institucionalizar uma actividade audiovisual dessa natureza em Cabo Verde.




Qual seria neste caso o papel do Governo?
Eu não gostaria de encostar o governo á parede. Acho que os activistas sociais têm uma capacidade mínima para fazer a produção. Há câmaras baratas; há programas de edição que você até pode baixar na internet. Eu acho que falta mais qualidade a nível de agentes culturais do que a nível do governo. Eu não apoio nada que é medíocre. Tem gente que tem que parar de ter essa visão carola: “ah, é culturinha”. Não! Ou é produto cultural ou não é! O mundo não aceita “culturinha”. “Sou coitadinho. Vamos apoiar.”. Não! Tudo tem que ter uma base económica.
O governo brasileiro não financia filme que não tem resultado de bilheteria porque quando o governo financia sai o nome de governo lá e o governo quer publicidade. Não é carolice. O governo está associando o seu nome a um produto de qualidade. Em vez de pagar publicidade na televisão tá incluindo a publicidade pagando previamente por ela. Os agentes culturais aqui ainda são muito pidões. Vamos fazer uma coisa com qualidade e parceria, não “apoio”. Não gosto da palavra apoio.




Há alguma figura que destacaria no cenário de produção nacional?
Eu destacaria o Silvão que inclusive acabou de ganhar um prémio da DOC TV. Pelo menos é o que e mais visível. Porque ele já está conseguindo se movimentar externamente. Olha aí o pacote da DOC TV quase não houve candidatura. Era ter ideia. Eu não posso pedir apoio ao governo para ter ideia, eu não posso pedir apoio ao governo para ter talento. Há financiamentos internacionais. Eu soube agora que o Mário Benvindo ganhou um financiamento grande num trabalho sobre a ecologia. Há instituições que financiam. E não é apoio. É parceria.




O CCB entraria em parceria para uma produção?
Não. Não é vocação desta instituição. A cooperação do Brasil com Cabo Verde não se baseia em recursos financeiros. É com base na disponibilização de capacidades técnicas. É este o modelo de cooperação que o Brasil faz com o mundo. Não tem dinheiro, tem capacitação técnica. Pontualmente, por exemplo no caso da dengue a gente disponibiliza uma ajuda de emergência financeiro.




Como vê a nossa televisão pública?
Eu vejo muito pouco TCV. Vejo mais outros canais internacio-nais. No caso das outras emissoras mostrou ser tão ruim e tão medíocre que a TCV parece super á frente da mediocridade com os recursos que eles têm. E há que tirar o chapéu a Tiver que anda na cate cate fazendo coisas interessantes. Mas a TCV está demonstrando nos últimos meses uma interelacção com o público que é muito interes¬sante. Uma interacção que acontece lá fora. Veja a SIC que eu acho indecente: meia hora de publicidade. Portugal não deve ter uma autoridade de regulação de comunicação televisiva porque é um desrespeito que num país de crises a televisão manda comprar, manda comprar. O que na véspera do dia das crianças enlouquece a criançada com consumo, consumo. É indecente e criminoso o que a SIC e outros canais portugueses fazem. Nós em Cabo Verde temos essa vantagem. Quem está vendo não é pressionado por publicidade. Mas por outro lado a televisão não ganha dinheiro e recursos para fazer os seus produtos. Eu não poso crucificar a televisão só. Nós temos a televisão com os recursos do país. Tenho uma amiga em casa que veio do Brasil e ela disse-me “esta televisão é do governo, n’é?”. Tá na cara. Ela só passa coisas do governo no noticiário que é só politizado. É só governo, governo. Mas eu estive na televisão e acho que é preguiça. Eu recebi as notas que me mandam até com texto arrumadinho. Eu nem preciso de escrever.

sexta-feira, junho 03, 2011

CULTURA: ESTADO DE COISAS

Marcel Duchamp, "Mile of String"(1942, New York)




A cultura está a ser uma questão mal abordada. Aquilo que deveria ser entendido como fluxos e movimentos, está a ser contemplado com uma visão parmenidiana, na qual se joga o papel da história e da identidade perene de um povo.


Esta situação não difere dos outros países africanos. Como atesta Máté Kovács, coordenador de pesquisa do Observatório de Políticas Culturais na África, no relatório “A economia criativa e a erradicação da pobreza na África: princípios e realidades”: “Em muitos países (africanos), não há nenhuma política cultural nacional formulada. Em outros casos, as políticas culturais oficiais não são adaptadas às necessidades e às situações das populações. Na verdade, para grandes massas da população, em especial nas áreas rurais, a cultura continua sendo essencialmente uma parte do modo de vida tradicional de sua comunidade, para a qual as atividades, os bens e os serviços culturais propostos pelas instituições culturais oficiais e pelo sector de negócios não são de nenhuma relevância”. (Maté Kovács, 2008: pp. 100) in "Economia Criativa – como estratégia de desenvolvimento, uma visão dos países em desenvolvimento” Edição: Observatório Itaú Cultural: São Paulo.

terça-feira, maio 31, 2011

GILL SCOTT-HERON (1949-2011): O PAI DO RAP.





Obras Primas:


• Free Will (1972; Flying Dutchman Records)
• Spirits (1994; TVT Records)

segunda-feira, maio 30, 2011

"STREET TAPES" E "THUGS" - NA ARENA COM DUDU RODRIGUES

Entrevistamos* o jovem “expedicionário” do vídeo e da cultura urbana Dudu Rodrigues, por ser um caso sério na mudança de atitudes no seio dos activistas e artistas, por representar a verdadeira nata da mais jovem cultura e arte nacional e, sobretudo, por ser uma pessoa esclarecida na sociedade cabo-verdiana actual. Enquanto artista é contemporâneo, universalista e adepto de uma certa estética hip hop.





Na segunda metade do mês de Outubro de 2009, o Centro Cultural Francês na Praia foi-lhe dado oportunidade para exibir uma obra em vídeo, num certame com um programa dedicado ao Cinema de Animação. Dudu Rodrigues que trabalha com técnicas de plasticina e animação multimédia, para alem de organizar eventos, é na verdade o prodígio protegido desta instituição. O CCF, mais criterioso e elitista na escolha que faz dos seus artistas, mais virado para as artes plásticas, musica e literatura, tem dado, sempre, cautelosamente, uma “mãozinha” ao audiovisual nacional mas, ao que parece, deixa aos verdadeiros interessados a incumbência de a construir. É nesta charneira que se visualiza toda a arte de Dudu Rodrigues que não se limita apenas aos vídeos de animação mas que se assume como activista e modelo de consciência da juventude.



Fala-nos um pouco desta actividade que tem estado a desenvolver. O que é que está na base do “Hip Hop Solidário” o movimento recentemente criado por si e pelos seus pares? Qual é a filosofia desta acção?
O hip hop consciente da DJuntiarti é um projecto que tenta fazer actividades e show hip hop, desde a área da música, dança, pintura, e modalidades do hip hop – graffitti, MC, DJ – mas trazendo isso num formato diferente. Apresentação de um vídeo reportagem de um artista que vem participar no show. O show é mensal e cada vez temos novos artistas e cada mês novas entrevistas a ver o que fazem. As novas modalidades que trazem: enfim, como é o ensaio e como é que é o processo de produção. O conteúdo do vídeo tem dois sectores interessantes: num sector mostramos a realidade dos jovens caboverdeanos (o bairro, o dia-a-dia, a família, o grupo social e as conversas); num segundo sector interessante é como é que este jovem tendo uma condição diferente faz arte. As dificuldades que têm em fazer o seu trabalho, como vem a explicação e como vem a ideia. Isso é apresentado antes do show. Temos 15 minutos antes do show. São todos estudantes e todos trabalham na edição e escrita de textos. Temos cerca de 50 GB de conteúdos e seis meses de trabalho. São cerca de 30 grupos de rap no DJUNTIARTI e to¬dos um vídeo de mais ou menos 5 minutos sobre a vida deles.



Enquanto artista tem estado a desenvolver algum projecto?
Este projecto DJUNTIARTI parece mais de inclusão social do que artístico. O projecto inicial eu tinha sempre a ideia de fazer um vídeo que falasse dos problemas dos jovens. Como não sou rap o projecto inicial era estudar o comportamento dos rappers e fazer um vídeo sobre isso. Mas nessas coisas o resultado é imprevisível você vai sempre encontrando coisas novas e os resultados vão se alterando. Mas o projecto continua a ser fazer um vídeo.



Com que regularidade põe os seus vídeos no youtube?
Não, ainda não. Eu tenho a seguinte estratégia: o que eu quero criar é uma rede – uma rede tanto entre os artistas mas que tem algum conteúdo que se possa segura-se por mais tempo.
Os vídeos são feitos numa câmara DV normal estamos a fazer vídeo de celular para celular. Somos ainda uma equipa recem-formada. Ainda estamos na parte de definir o objectivo do grupo. Daqui a lgum tempo pode vir a se transformar em algo. Temos patrocinadores em mente. Por agora temos o único apoio o CCF.


O Dudu Rodrigues já deu um passo em frente a nível do vídeo. Realizou um filme de animação dos bons. Pensa continuar nesta senda?
… digamos que neste momento sou apenas um artista e vou continuar a fazer o trabalho. Neste preciso momento estou a trabalhar os meus bonecos para o meu próximo filme de animação que vou exibir no Palácio da Cultura. Faço isso em paralelo com o trabalho de activismo social. A parte do conteúdo é a razão porque estás a fazer aquilo. Eu já tenho o meu conteúdo que é justamente o trabalho que faço enquanto homem, activista social e artista. Podemos ter um trabalho técnico muito bom e a nível de conteúdo não ser tão bom assim. As vezes temos artistas que levam décadas a descobrir o seu estilo próprio e a razão da sua arte. Posso dizer que estou a ser pago para aprender.



Fala-me um pouco mais do projecto DJUNTARTI
O projecto DJUNTIARTI não é só um show de hip hop. Imagina de cada vez que fazes um show como produtor tens que contactar o artista antes do show e ás vezes no mesmo dia de show. O nosso é diferente. Contactamos antes e durante o projecto até ao dia em que ele actua. O que é que nos leva a fazer isso? Há projectos que jamais apareceriam no mercado se não fosse assim. Como já existe um projecto (que é o DJUNTARTI) não temos que estar a bater em cada porta e perguntar se há algum projecto. Em termos técnicos é muito aliciante. E quando vais filmá-los ao mesmo tempo que criar estás produzir um arquivo desse artista. Daqui há alguns anos esses jovens podem ser advogados, actores e quererem as imagens. Ou pelo simples facto de que esses vídeos propiciam aos nosso pais saberem um pouco das nossas vidas, não é? O que de uma outra forma não haveria possibilidade de me ver. Alem disso daqui há alguns anos esses vídeos poderão ser autênticas relíquias. O trabalho de animação está incluída num miniprojecto Double Click – duas pessoas eu capto o video e Nats edita.



E Ficção?
São múltiplas estórias que eu vivi desde a minha infância. Eu já tive pessoas amigas que se suicidaram que mataram. Percebi a determinada altura que não era só uma estoria minha, mas uma estoria de outras pessoas. Daí procurei apresentar-me não como aquele que é autor disso mas sim como aquele que presencia tal coisa. Qualquer alguém que venha a fazer algo sobre hip hop encontrará coisas que já aconteceram há décadas porque houve coisas que forma uma explosão daquilo que aconteceu há anos atrás. Só agora a imprensa o divulgou. Mas isso de thugs já tem décadas de existência.



De algum modo o fenómeno é provocado pelo acesso que os jovens têm às imagens de violência?
Essas imagens podem dar a ideia de fazer. Mas eu acho que é melhor ver sob o ponto de vista de afirmação. Porquê? Pen-semos num jovem que não está contemplado pelo projecto social que não passa de número de estatística. Ou seja não fazem parte de nada. Não têm direito a nada, nem mesmo direito a uma bolsa de estudos têm. O que é que se pede a alguém que não tem nada? Por exemplo alguns grupos de rapazes no liceu se destacam assim. Costumávamos ouvir de alguem “Kel rapazinhu lá é malkruiadu, ahn?!”. Quando ouvimos algo assim ouvíamos como se fosse um elogio, o que é um erro. Se um pai tem um filho macho que bate noutro pode chatear e repreender mas no fundo fica com orgulho: “o filho é valente”. Por isso não podemos condenar algo por aquilo que no passado ajudamos a criar. Isso é algo na história da adolescência. O que devemos apoiar é o que se faz mais pela positividade. Destacá-los como ídolos, como modelos. Um jovem que não se considera nada pensa assim: se calhar se me juntar aos thugs ganho algum respeito. É mesmo uma questão de afirmação.



*[Entrevista efectuada no átrio deo Centro Cultural Francês, em Novembro de 2009]



Esta reflexão de Dudu Rodrigues traz-nos, naturalmente, uma outra reflexão - a do conflito de gerações, no qual ele parece constituir, obviamente, uma figura consensual. Em relação a isso novo “expedicionário” do vídeo terá, assim, forçosamente, que evitar relacionamentos lineares; desfazer o medo de “umbrais” de sentido; tomar como natural as contingências da nossa produção nacional, que devem ser vistas como simples etapas a ultrapassar; buscar uma maior capacitação tecnológica; evitar estribilhos como aquele de que o povo cabo-verdiano só tem apetência para a música; e trilhar os caminhos da ficção cinematográfica, aventurando-se por essa nova possibilidade expressiva para, assim, entrar num novo ciclo. Para isso alguns pré-requisitos deverão ser levados em linha de conta: se houver, como propõe José Herrera (2000), a criação de irmandades em diversos domínios da criação; se emergir a consciência de que o trabalho de equipa é muito mais importante que a obsessão individual e o laxismo; que o correcto ajuizamento é de que uma criação nunca é completamente original e individualizada. Cumpridas estas condições as coisas poderão melhorar significativamente no meio artístico que se avizinha. Home videos e pequenas produções terão, certamente, o seu devido valor enquanto arte e afirmação no seio de uma camada juvenil que já não quer tanto ler ou escrever mas, sim, filmar.




O cinema autóctone (de modo ainda incipiente em grupos vindos do meio artístico teatral) sairia por certo de um sector privado, mas teria algo de eminentemente social porque esse grupo a existir terá que ter uma verdadeira consciência do meio para poder avançar com segurança. Honestamente creio que vai haver tudo isso antes que o governo tome uma decisão em relação ao sector. Porque do lado de cá da arena cultural a imaginação e a capacidade de produção não falta aos seus intérpretes.







quarta-feira, maio 25, 2011

terça-feira, maio 24, 2011

CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS / INSTITUTO CAMÕES

Esta entrevista, no ano de 2010, com o Dr. João Neves, Director do Centro Cultural Português – Instituto Camões, instituição baluarte da lusofonia, foi movida por um secreto desejo direccionado para a afirmação da moderna cinematografia portuguesa na realidade cabo-verdiana, e para que a nossa futura cinematografia viesse a ser incentivada na arena das relações humanas e intercâmbio de ideias entre os criadores de ambos os lados. Algo que pareceu encontrar, naturalmente, eco nos desígnios do actual director do CCP-IC em Cabo Verde.




Qual o espaço ocupado pelo Audiovisual na vossa programação?
A nossa programação está estruturada em dois grandes blocos: uma que é a área da exibição e a outra da produção. Organizamos a nossa exibição em duas grandes mostras: uma para a área de documentário com um festival chamado Lisbon Doc TV que hoje em dia tem uma parceria com a DOC Lisboa e com a Associação Portuguesa para o documentário – a APORDOC - e contamos exibir ainda uma edição deste festival em Cabo Verde. E temos ainda outras secções relativas á produção ainda para este ano 2010 e que visa mais a exibição de curtas. Tratando-se da produção nós não temos ainda capacidade para apoiar uma produção mas sim de proporcionar contactos e possibilidades de negociação. Este ano pensamos retomar algumas das exibições de filmes portugueses desde que tenhamos autorização de exibir.




Equacionar nesta altura a viagem de um realizador, com o retorno que daí resulta, nesta fase, é bastante difícil. É que ainda não temos um público para custear uma viagem. Se calhar pro¬mover um encontro com os realizadores para que estudem e vejam uma forma de fazer as coisas. Prefiro muito mais esta faceta. A forma de divulgação da língua portuguesa não pode só ser feita por si. É um encontro de civilizações, um encontro de pessoas.


A cultura é produzida por pessoas. O que é importante aqui é que para além de pôr as pes¬soas em contacto com a língua é melhor pôr as pessoas em contacto entre si. Desse encontro deve gerar-se uma nova realidade, uma nova possibilidade de criação. E, portanto, este é o princípio básico do nosso crescimento. Não é trazer para mostrar o que nós fazemos mas é, sim senhor, proporcionar um contacto com a contemporaneidade artística de forma a que quem cá venha também leve essa forma de contemporaneidade artística. E é desse encon¬tro que se aproximem ideias, que se aproximam pessoas. Nós não fazemos exibição, nós promovemos cultura.



Não será, ainda, um pouco paternalista o modo como as coisas são idealizadas?
Não me preocupam a questão das dominações. Eu não tenho uma perspectiva nem paternalista nem uma perspectiva de exibição de uma superioridade intelectual. Nós colocamos a disposição dos criadores propostas artísticas. (…) e agora cumpre aos cabo-verdianos que também não conhecem muita coisa contactar, conhecer, gostar, apreciar e ficar a acompanhar esse fenómeno artístico e ao português “olha isso existe em Cabo Verde e é interessante ser visto em Portugal e da mesma forma aquilo que é Português que os cabo-verdianos possam ver do outro lado do Atlântico”. Eu tenho muitas estórias desta plataforma que nós temos que criar aqui plataforma porque isto é local de encontro de diversas pessoas, personalidades, etc.



Qual o papel do governo nisso tudo?
Tem sido positivo do ponto de vista daquilo que eu vejo, da energia das pessoas, da criação das ideias. Nós somos uma entidade estrangeira não estamos aqui para avaliar as actividades do governo. O que eu vou dizer aqui não é uma avaliação do trabalho do governo de Cabo Verde nesta área. O que eu gostaria era maior interesse das instâncias diversas oficiais pelo menos naquilo que já existe no audiovisual e multimédia e que eles podem dar um contributo de modo a projectar noutra dimensão. Mas não digo. Lembro-me desta parte. Nós tivemos o primeiro festival da CPLP – o primeiro – aqui em Cabo Verde. Nunca mais se fez e não me compete a mim as razões porque isso não aconteceu. Eu gostaria muito que Cabo Verde pudesse organizar mais festivais desses.





[Entrevista realizada em Abril de 2010]

quarta-feira, maio 18, 2011

LEÃO LOPES - O PAI DA MODERNA CULTURA AUDIOVISUAL CABOVERDEANA

Leão Lopes - "São Tomé - Os Útimos Contratados" - Preparação de entrevista a Alda Espírito Santo - Setembro 2009


Destacamos aqui a figura incontornável de Leão Lopes que já foi, uma vez, Ministro da Cultura, por considerá-lo, sem margens para a dúvida, o “Pai” da moderna cultura cabo-verdiana audiovisual e cinematográfica. Essa entrevista vem na sequencia da produção do filme “S. Tomé - Os Ultimos Contratados”.


Em que condições técnicas de produção, rodagem e pós-produção o documentário “S. Tomé - Os Ultimos Contratados” foi realizado?

As condições de produção foram mínimas, mas eficazes. Consistiram numa viagem prévia de preparação no terreno e estabelecimento do roteiro e na montagem financeira do projecto. A rodagem realizou-se em boas condições com suficientes meios locais de produção e uma pequena equipa com elementos ha-bituados a trabalhar juntos. Os meios de equipamentos foram reduzidos, mas suficientes e adaptados às circunstâncias; interior de S. Tomé, com alguns acessos difíceis e clima instável na ocasião. Quanto à pós-produção, tenho referido que foi facilitada e muito, pelo facto de a ter realizada no país, com meios próprios e de M_EIA, a escola superior de Arte a que estou ligado.


Como surgiu a parceria com a Plataforma das ONG’s em Cabo Verde?
A Plataforma apenas se ocupou da realização da estreia na Praia e em S. Vicente, contribuindo para trazer alguns dos participantes no filme que estiveram presentes na estreia na cidade do Mindelo. Uma importante contribuição da Plataforma e do Cônsul de Cabo Verde em São Tomé, determinante para que o filme tivesse o impacto e bom acolhimento que teve em Cabo Verde.

Recebeu algum apoio do Instituto das Comunidades (MNECC) neste projecto?
Não. Que diria da terminologia “documentário de criação” utilizada para definir esse seu ultimo trabalho e o anterior - “Bitú”? Creio que todo o documentário é de criação, apesar do seu carácter documental e expositivo e desde que não se confunda com grande reportagem. Todavia, acho interessante a terminologia “documentário de criação” que, talvez queira propor uma abordagem do documentário mais livre e que pode oferecer ao realizador imensas possibilidades tanto ao nível da narrativa como dos recursos de linguagem fílmica. Um filão a explorar.

Quais são as suas influências /referências no cinema e documentário internacionais?
Seria uma banalidade dizer que todo o bom cinema seja ficção ou documentário são referências podendo ser muito bem influências no sentido de procura de uma linguagem. Não tenho influências objectivas por esta razão, são as boas obras e os bons autores a minha escola, a minha aprendizagem. Desde a proposta estética do Eisenstein, passando pela inteligência da narrativa de Chaplin à desconstrução de Felini, ou à poesia de certos filmes de Almodovar, à irreverência do Woody Allen, ao lirismo de Kurosawa, todos representam o meu universo de culto e aprendizagem. Quanto a documentários tenho uma experiência muito relativa, conheço muito pouco da história do documentário e consequentemente os seus autores mais relevantes. Na verdade, o documentário para mim é terreno ainda de muita aprendizagem. Recentemente descobri o documentário cubano e brasileiro aquando de uma vista a Cuba e ao Brasil. Fiquei muito impressionado pela qualidade das obras que me foram dadas a conhecer. Alías, tanto as políticas públicas para o cinema como a produção cinematográfica destes dois países são incontornáveis referências para nós.


O que é que pensa do trabalho de Michael Moore?
Nunca vi nenhum trabalho de Michel Moore, mas tenho lido muita coisa sobre o seu trabalho e sobre seu espírito crítico, acutilante, em relação à política e monopólios americanos. Fascina-me no Moore o activista, a sua coragem e frontalidade. Já vi uma entrevista dele na televisão onde fiquei a conhecer um pouco das suas motivações enquanto realizador. O Atelier Mar tem vindo a desenvolver uma série de acções de grande importância para a cultura nacional, que extravasa as produções audiovisuais e artísticas para se situar, por exemplo, na questão dos problemas ambientais, culturais, etc. Na sua óptica qual é o lugar do Atelier Mar relativamente às outras instituições \ organizações cabo-verdianas que se têm dedicado a transformar a face da nossa cultura. O Atelier Mar, assim como outras ONG’s nacionais têm des-empenhado um papel interessante na sociedade caboverdeana. O Atelier Mar, na verdade, actua especialmente no domínio da cultura enquanto motor de desenvolvimento de pessoas, de colectivos ou comunidades, em várias frentes: educativas, culturais, investigação, arte, economia e tecnologias alter-nativas várias. O lugar do Atelier Mar será aquele que a sociedade caboverd¬iana o reconhecer enquanto ONG empenhada no desenvolvimento do nosso país.

Pensa abraçar definitivamente o documentário como modo de expressão estético-moral ou pondera ainda aventurar-se pela ficção?
Faço cinema “adjectivamente”, como diria Baltasar Lopes, pelo que não produzo este tipo de determinismo. Contudo, continua a interessar-me o documentário como um modo de expressão, uma oportunidade de indagar para conhecer, uma forma de actuar com imensas possibilidades de se insta¬lar nestas ilhas, enquanto produto cultural de excelência.


“Ilheu de Contenda” foi o seu primeiro trabalho enquanto realizador e o único em género ficção. Como foi trabalhar com Paulo Sousa, nessa altura?
Foi grato trabalhar com Paulo de Sousa. Ele confiou em mim e investiu muito no filme, a todos os níveis, incluindo na determinação de que”Ilhéu de Contenda” se faria apesar das pedras vindas especialmente de alguns “bons” caboverdeanos que tudo fizeram para que o filme não se realizasse. Toda a gente deve estar lembrada daquela “conheço Felini, conheço Kurosawa, mas quem é Leão Lopes”? O mal dissente que parecia conhecer estes grandes nomes do cinema, afinal não conhecia nada. A única verdade contida nessa diatribe era que de facto não conhecia Leão Lopes. Porque se o conhecesse tinha tudo para o aproximar da história destes criadores, que tal como Leão Lopes, fizeram um dia o seu primeiro filme; tal como Leão Lopes, foram artistas plásticos antes do cinema e continuaram sendo; que os três entraram no cinema pelos mesmos caminhos. Mas Leão Lopes tinha tudo a perder; não nasceu na Itália, nem na China. Pagou caro por ter ousado fazer um filme na sua terra. Pena é que nunca tenha sido possível fazer-se a estreia do filme na Praia, nem nunca a nossa televisão passou a série que produzi para esse formato e realizado em simultâneo ao filme, de 3 episódios de 50 minutos cada. Os cabo-verdianos nem sabem que “Ilhéu de Contenda” foi premiado algumas vezes lá fora, incluindo no Fespaco (melhor música), que teve sua banda sonora editada, entre outras apreciações que mereceu durante a seu percurso. Também nem deram conta que na primeira edição do festival de cinema de Francisco Manso realizado em Cabo Verde, o filme não foi seleccionado.

Temos hipótese para ter, num futuro próximo, uma cinematografia nossa, de relevância? Sendo o nosso país de vocação dominantemente literária?
Não creio, pelo menos tão cedo. Não temos visão política neste domínio, tanto no plano educativo como no de produção. Teríamos alguma possibilidade dada pela história deste país e pela sua diversidade cultural.


Voltando ao seu último trabalho “S. Tomé - Os Ultimos Contratados”: sendo o filme vanguardista revela também o seu mundo interior quando conduz o problema ao campo da expressão artística (música e poesia) em vez de seguir o social «ritualizado» no quotidiano são-tomense com todos os seus problemas actuais. Concorda com esta afirmação?
Concordo. Tenho referido que “S. Tomé” é bastante intimista, não é um relato, é um mergulho muito dentro de nós caboverdeanos. Não fui para o terreno com esta intenção, deliberada. Fui com uma certa bagagem de conhecimento do problema e um itinerário esboçado impelido pela urgência de voltar a estar com aquele gente, desterrada, sem culpa. O filme foi escrito com a câmara em cima daquele drama de que eu próprio faço parte. “S. Tomé” sou eu também.




[Entrevista realizada a 08 Junho de 2010]

terça-feira, maio 17, 2011

A PRÁCTICA VIDEOGRÁFICA

As peculiaridades da prática videográfica sempre se fizeram sentir, tendo-se registado, desde logo, as primeiras manifestações de uma certa transgressão diegética . Em 1984, Michael Klier realiza Der Riese, um marco na recente e pequena história do vídeo: uma “reciclagem” das imagens captadas pelas câmaras de vigilância de aeroportos autopistas e aparcamentos. Eram imagens roubadas e unicamente acompanhados de uma música extra-diegética envolvente que surpreenderam pela novidade e singularidade. (MANUEL PALACIO: 2005).


O vídeo vanguardista e os filmes-ensaios viriam a aparecer num conjunto mais vasto de propostas estéticas, enten-didas como processos de transgressão relativamente ao bom gosto e à aura artística estabelecida. Como refere Josep M. Català no seu artigo “Film Ensayo y Vanguardia”, cineastas independentes, que filmavam em 16 mm, tinham a consciência dessa aura artística que imperava na época mas, com muito à vontade, elaboraram projectos que não iam ao gosto do público e, consequentemente, das cadeias televisivas da época, tendo alguns deles migrado para a prática vídeográfica, tout court. (CATALÁ: 2005). Esta segunda tendência é a que caracteriza a geração que emerge da prática videográfica nos anos 60-70 nos EUA.




O nascimento do vídeo coincide com este período. Só que, em relação ao vídeo, a técnica estava lá antes dos problemas artísticos que acabaram por ser solucionados por meio desta técnica. Como observa Renato Barilli, na sua obra “Curso de Estética” (1989) “o vídeo desenvolveu-se, completamente, antes que alguém soubesse o que fazer com ela”. Em 1969 a primeira exposição integralmente consagrada aos trabalhos realizados em vídeo foi a célebre “TV as a Creative Medium” (Nova York, Howard Art Gallery, 1969). Com esse título também se denomina a primeira publicação ao tema: o capítulo que Gene Youngblood dedica a este tema em “Expanded Cinema”, em 1970.





Foto: Der Riese - Michael Kier

quinta-feira, maio 12, 2011

A ERA PIONEIRA DOS PORTAPACKS

A 31 de Dezembro de 1963, na retransmissão de uma partida de futebol americano utilizava-se, pela primeira vez, o instant replay (a repetição da jogada) numa emissão televisiva. Em meados dos anos sessenta (1965-1968) a empresa japonesa Sony comercializa, nos EUA, o primeiro vídeo dirigido a um mercado de consumidores fora do circuito televisivo. Eram vídeos portáteis que gravavam em branco e negro, baptizados de portapack, nessa era pioneira. O magnetoscópio portátil que, antes, devia ser transportado num carrito, se pode agora transportar ao ombro numa pequena caixa. Ninguém, então, previa que o novo suporte de imagens pudesse vir a ter algum tipo de conteúdo próprio ou ser motivo para novas formas de expressão dotadas de uma certa autonomia estética, como a que Nam June Paik (n.1932, Seoul), um dos pioneiros na arte da vídeo instalação, viria a protagonizar ao realizar, em 1966, a primeira instalação com monitores de TV.







As mudanças drásticas e perturbadoras do vídeo surgiriam, porém, quando a Sony introduziu, em 1969, o sistema de registo helicoidal que permitiu gravar em fitas de menor diâmetro. Aparece, assim, no mercado, o Videocorder AV-3400 Sony e todos os equipamentos foram reduzindo, drasticamente, as suas dimensões, tornando-se no principal mote de desenvolvimento de uma vanguarda artística, nos anos seguintes. De salientar que o aparato video popularizado pela SONY (sim¬paticamente baptizado de portapack), se apresentou no espaço público como a primeira grande alternativa para conseguir o completo controlo sobre o processo informativo, até então dominado pelas emissoras televisivas. Suas características de manejo, de ligeireza e leitura imediata, o convertiam na ferramenta ideal de intervenção social.

quarta-feira, maio 11, 2011

FESTIVAL “BLACK & WHITE” ARRANCA HOJE NA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PORTO

Arranca, também hoje, o Festival “Black & White” no Porto, que se prolongará até ao próximo sábado, 14 de Maio. Trata-se, já, da VIII edição de uma competição audiovisual que ocorre todos os anos na cidade invicta. Durante quatro dias, a Escola das Artes da Universidade Católica no Porto torna-se palco do certame que, este ano, conta com um total de 46 obras – 30 vídeos, oito sequências fotográficas e oito áudios, provenientes de 13 países.


Esta iniciativa procura educar os espectadores para a especificidade do preto e branco.


FESTIVAL DE CANNES 2011 COMEÇA HOJE!



FILMES EM COMPETIÇÃO 2011:

La Piel Que Habito, Pedro Almodóvar.
L’Apollonide – souvenirs de la maison close, Bertrand Bonello.
Pater, Alain Cavalier.
Hearat Shulayim, Joseph Cedar.
Bir Zamanlar Anadolu’da, Nuri Bilge Ceylan.
Le gamin au vélo, Jean-Pierre e Luc Dardenne.
Le Havre, Aki Kaurismäki.
Hanezu no tsuki, Naomi Kawase.
Sleeping Beauty, Julia Leigh.
Polisse, Maïwenn.
The Tree of Life, Terrence Malick.
La source des femmes, Radu Mihaileanu.
Ichimei, Takashi Miike.
Habemus Papam, Nanni Moretti.
We Need To Talk About Kevin, Lynne Ramsay.
Michael, Markus Schleinzer.
This Must Be The Place, Paolo Sorrentino.
Melancholia, Lars von Trier.
Drive, Nicolas Winding Refn.




Secção "Un certain regard"

"Um Novo Despertar" de Jodie Foster,
"The Artist" de Michel Hazanavicius,
"The Conquest" de Xavier Durringer
"Os Piratas das Caraíbas: Navegando em Águas Misteriosas" de Rob Marshall. (Estreia Mundial)

Exibições Especiais

"Labrador" de Frederikke Aspock,
"Le maitre des forges de l’enfer" de Rithy Panh, Michel Petrucciani de Michael Radford.
"Tous au Larzac" de Christian Rouaud.
"Les Bien-aimés" de Christophe Honoré. (Encerramento do Festival).

segunda-feira, maio 09, 2011

O NASCIMENTO DO VÍDEO










Nascia oficialmente, na noite de 30 de Novembro de 1956, na Convenção Anual de Radiodifusão na cidade de Chicago, aquilo que viria a ser a oitava musa de todas as artes: o vídeo. A indústria televisiva estado-unidense estava a braços com os problemas de transmissão que resultavam das diferenças horárias existentes entre as duas costas do seu território, isto é, aquilo que o cinema (e suas actualidades ocasionais) não conseguia fazer. Necessitava, afinal, de um suporte audiovisual que resolvesse de uma maneira mais cómoda tais dificuldades. Criou-se, assim, um novo aparato tecnológico revolucionário - uma patente da Ampex - que registava imagem e som de uma emissão televisiva numa cinta magnética de 5 cm de diâmetro.




Era um equipamento de grandes dimensões e se compunha de um sistema propulsor que transportava a fita de uma bobina para outra, num tambor de quatro cabeças que efectuava o registo ou a reprodução da imagem e sons a 250 r.p.s. (rotações por minutos), apoiando-se numa fita disposta num sector vazio da máquina. Produzia 25 imagens por segundo, o que equivalia gravar programas de cerca de uma hora, com 1500 metros de fita. O vídeo permitia, a partir daí, que uma determinada notícia pudesse ser emitida nos informativos da costa Leste e três horas depois, sem muita dificuldade, (depois de registadas), nos informativos da Costa Oeste. O magnetoscópio, ora inventado, ficaria ao serviço das necessidades de armazenagem e arquivo de programas.




Durante mais de uma década o suporte electromagnético de registo de imagens e sons pertenceria, em exclusivo, às cadeias televisivas.



Bibliografia: TORREIRO C. et alii. (2005). Documental y Vanguardia. Madrid: Catedra.

sexta-feira, maio 06, 2011

CULTURA AUDIOVISUAL (Definição)












Começa aqui uma nova rubrica no «Tempo de Lobos». Depois de uma série de incursões por domínios da escrita criativa (alfabeto, referências cinematográficas, enquadramentos, números) vai-se passar a trazer, post por post, informações, opiniões, histórias e interpretações sobre o que já é uma presença constante nos debates da esfera pública e académica, a nivel internacional: a cultura audiovisual. Em Cabo Verde este tema é completamente ignorado e mal-entendido. A maioria dos intelectuais e opinion makers procura posições de sentido cômodas, como por exemplo, a de circunscrever essa realidade apenas ao universo das emissoras televisivas nacionais. Mas esta história já vem desde os anos 60-70, desde os EUA passando pela Europa:




A cultura audiovisual é, na sua origem, uma emancipação cultural face às emissoras televisivas, que representam o poder centralizador do media televisivo. Configurou-se, definitivamente, como um manancial de experiencias contemporâneas à volta do vídeo, “contracultura” e atitude libertária. Dela fazem parte artistas plásticos, arquitectos, engenheiros, activistas sociais, designers gráficos e os próprios cineastas que quiseram experimentar o vídeo como nova linguagem, para lá das suas preocupações com as películas de 16 ou 35 mm.


A cultura audiovisual aparece, ainda, como um dos eixos estruturantes da vida contemporânea, uma força lúdica, cultural, ideológica que interfere com a nossa concepção do mundo. Ela contém várias facetas: a cinematográfica, a televisiva, a videográfica., a multimédia e o hipermédia, constituindo-se, cada uma delas, em pequenos viveiros de relações restritas mas que só adquirem verdadeira dimensão cultural nos fluxos permanentes que existam entre eles, ligando-os essa substancia primordial, equivalente á água de rega que mantém o viveiro: o bem de consumo.




Imagem: Capa do livro "Guerrilla Television" (Novembro, 1971) - versão em livro da famosa revista sobre uso de video "Radical Software"

quinta-feira, maio 05, 2011

quarta-feira, maio 04, 2011

1

Este ano vamos experimentar quatro datas incomuns: 1/1/11; 1/11/11; 11/1/11; e 11/11/11.


Mais engraçado, ainda, é que: se somares os últimos dois dígitos do ano em que tu nasceste mais a idade que vais ter este ano dá precisamente 111. E isso é para todo e qualquer indivíduo que tenha nascido a partir do ano 1900. E quem tenha nascido precisamente nesta data terá, este ano, exactamente, 111 anos.


Quem tiver esta idade, este ano, e ainda estiver vivo é figura de circo: «The 1 (one)».

segunda-feira, maio 02, 2011

0

Vuk Cosic, ‘ASCII History of Moving Images – Psycho’







NUMA LÁPIDE DE UM TÚMULO QUALQUER LIA-SE:

“Ele nunca se perdoou por ter tido 0 a Matemática.
Soubesse ele que 0 é o mais original dos números.
Não interfere com a divisão, nem com a subtracção de elementos.
Qualquer valor que se queira multiplicar por ele é, logo, anulado.
Ainda que se queira dividir algo pelo seu valor absoluto, torna-se uma impossibilidade.”




terça-feira, abril 12, 2011

quarta-feira, março 23, 2011

8,9



JAJAPÃO PÃO






terça-feira, março 01, 2011

10

10 anos se passaram sobre a morte de Orlando Pantera de quem já se escreveu muito. Eu tambem faço parte desse contingente dos que entenderem ser ele o epítome da revolução musical santiaguense e caboverdeana. Numa folha académica «Kriolidade» da União de Estudantes Caboverdeanos em Lisboa, criada por mim e mais alguns colegas, em 1997, fiz-lhe uma entrevista na Baixa de Chiado e teci alguns comentários sobre a sua arte de fazer música e o seu lugar na galeria dos eternos da cultura caboverdeana. Lembro-me de ter escrito qualquer coisa do estilo «partir as tábuas do saber numa luta incessante contra a morte» para caracterizar a essência da arte da qual ele era, quanto a mim, o principal intérprete. Essa expressão, inspirada em Walter Benjamim e utilizada para definir a arte em geral, detinha apenas um cunho filosófico e não de premonição. Esta é a segunda vez que escrevo sobre algo imperioso para mim e só me ocorrem duas imagens amigas: uma é aquela do entertainer que vi num concerto no Teatro da Trindade em Lisboa, que me surpreendeu pela originalidade da letra e melodia das canções. A segunda imagem: nunca a direi a ninguem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

4

"Discurso do Rei" de Tom Hooper


Melhor Filme

Melhor Actor (Colin Firth)

Melhor Realizador (Tom Hooper)

Melhor Argumento Original (David Seidler)


quarta-feira, fevereiro 23, 2011

100...1000...10000...10n...

Mouamar Kadhafi

“Danzam com sus padres, sus niños tambien y com sus esposos, en soledad…
un dia danzaremos sobre sus tumbas: libres.»
Sting

Que caiam todos os Kadhafi’s, Pol Pot’s, Id Amin Dada’s, Nero’s, Mobutu’s e que no terreno baldio, onde eles estão, não cresça mais nada … nem capim.

17

Passado o período das eleições legislativas quem vai agora resolver a confusão que se instalou em consciências menos preparadas e com expoentes bíblicos? Que sociedade é a nossa? Qual é a sua errância e qual é a sua herança?

Vale a pena, a propósito, ler este pequeno dito popular com origens no Oriente Médio:


Um Mullah cavalgava no seu camelo em direcção à Medina quando viu um pequeno rebanho de camelos e, a seu lado, um grupo de 3 jovens afligidos por alguma coisa.

- O que é que se passou, amigos?
-... nosso pai morreu.
- Que Alá o acolha na sua glória. Os meus pêsames. Mas seguramente vos deixou algo em herança.
- Sim... estes 17 camelos...
- Pois alegrem-se! Que é que vos aflige então?
- Apenas a sua última vontade: ... de que eu, que sou primogénito, receba a metade; que o filho do meio receba um terço e o filho menor receba a nona parte. Mas já tentamos dividir a todo o custo e nunca resulta … as contas não batem certo.
- É só isso que vos aflige, amigos meus? - disse o mullah. Tomem, então, o meu camelo por um momento e vejamos o que podemos fazer.

Então: com 18 camelos o irmão maior recebeu a metade, ou seja, 9 camelos, e ficaram nove. O irmão do meio recebeu um terço dos 18 camelos, ou seja, 6; e ficaram três. Uma vez que o irmão mais novo tinha que receber a nona parte dos 18 camelos, ou seja 2, restou, ainda, 1 camelo. NegritoEra precisamente o camelo do mullah, que voltou a montá-lo e foi-se cavalgando em direcção ao horizonte.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

1924-2011


"DENTU D'ALGÊN KE ALGÊN." Nácia Gomi.
A mulher que nasceu aos oitenta e seis anos.
Sim, porque ela foi sempre igual a si própria: uma constante, apesar de todos os holofotes, bajulações e elogios. Por isso, ao ter nascido já tinha, na verdade, oitenta e seis anos. O que equivale dizer que pertence à eternidade.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

2.???.???.???



z = x3 / 3 − xy2 + a(x2 + y2) + bx + cy.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

2

2 apagões (com segundos de intervalo) antes de poder ver o debate na televisão.
2 lideres ás voltas com a "moral dos fortes".
2 dossiers fulcrais: a energia e o emprego.
2 mandatos que já dão «para inglês ver». Chega!
2 secções compartimentadas com uma abertura: a dos ataques pessoais.
2 minutos de tempo de discurso á nação,dirigindo-se a um «nós» em vez de um «tu» (mais real).
2 pontos fortes a instalar no sistema: a despartidarização da função pública (e em todos os outros sectores, até os mais improváveis como a cultura) e a pessoa como centro nevrálgico.

sábado, janeiro 15, 2011

1+1+1+1=2

O debate histórico de ontem foi, na verdade, um ajuste de contas de dois líderes dos dois maiores partidos. Houve um desrespeito total da parte de José Maria Neves (PAICV) e Carlos Veiga (MPD) para com os outros dois candidatos. Em nenhum momento um ou outro se virou para João do Rosário (PTS) ou António Monteiro (UCID) para refutar o que quer que seja. Uma desconsideração completa pelos argumentos esgrimidos pelos dois. Muitos desses argumentos revelaram-se, até, superiores aos do JMN e do CV; como aconteceu, de facto, na questão das energias renováveis, da regionalização e da segurança. O que deveria ser um debate a quatro reverteu-se, a dada altura, numa troca de acusações entre dois senhores que afinal actuaram de forma menos democrática. Houve algumas ideias fantasiosas que poderiam animar esse debate, nomeadamente a da criação de casas oficinas, pavilhão permanente para empresários, energia eólica em quantidade suficiente para dar potência á electricidade, entre outros voos mais arrojados pelos dossiers centrais. É claro: como sempre faltou senso de humor a esta classe.
Penso que não faz sentido os dois maiores líderes terem actuado daquela maneira quando já no próximo dia 18 de Janeiro terão essa oportunidade única de se verem frente a frente. Começamos, pois, a rosnar e a uivar!
A democracia deve ser vivida do interior. Mais do que vangloriar por uma constituição ou leis democráticas, há algo que já devia estar na mente dos políticos e, sobretudo, nos seus hábitos.
Parabéns á TCV. Já existe uma vitória: a do jornalismo cabo-verdiano.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

NORBERTO TAVARES (1956-2010)



NENHUM OUTRO POLÍTICO, MAS ELE: O ARTISTA!

terça-feira, agosto 18, 2009

"Talking Jazz Cinema"


Foto: Nazra Parvez


Parece que por razões alheias ao normal funcionamento deste país (leia-se: ELECTRA)
o programa «Nôs Artista» só vai ser emitido no próximo Domingo, 23 de Agosto, ás 21 horas.

Não perca interesse!
É na Radio e Novas Tecnologias Educativas:

103.1 FM (Santiago)
103.5 (S. Vicente)

sábado, agosto 15, 2009

Chegamos ao Cinema ou aguardamos que o Cinema chegue até nós?

"Shadows" (1959). John Cassavetes



Caro bloguista: convido-o a ouvir o programa «Nôs Artista» na Rádio Educativa este Domingo (16 de Agosto) pelas 21 horas. Falo abertamente das possibilidades do cinema independente em Cabo Verde mediante o uso de handycâmaras, do experimentalismo como meio de expressão, mas sobretudo da mudança de atitude que é preciso ter para se fazer algo neste domínio. O essencial da conversa tida com o jornalista Nelson Pires abarca a realização do meu primeiro filme «Sábado á Noite» e os constrangimentos de se fazer cinema tout court no nosso país ao qual contraponho o recurso ás tecnicas de cine-verité e ao naturalismo na representação de que os actores amadores se podem munir. Foi o que se fez nos anos 60 em França e nos EUA. A Historia nos ensina.



Estou convicto que não se trata de utopia mas, talvez, de sombras que são projectadas por cúpulas de poder político, financeiro, lobbies culturais, e medos irracionais que impedem o jovem cinema caboverdeano de se expressar condignamente e em condições de maior visibilidade.



Opinamos?


Não perca na Radio e Novas Tecnologias Educativas:


103.1 FM (Santiago)

103.5 (S. Vicente)




quinta-feira, agosto 06, 2009

Adeus BIUS

"Round Midnight"(1986). Bertrand Tavernier



Em 2000 entrevistei o Bius para uma revista «Àfrica Hoje», em Lisboa. Na altura trabalhava para a revista e o editor encomendou-me uma entrevista para a rubrica "Artista do Ano". Tinha que escolher entre as "Gingas" da Paty Faria ou Bius. Claro que escolhi Bius, como é evidente, não por ser um patriota meu mas porque gostava de vê-lo cantar e actuar nas noites quentes do clube "B. Leza". Só o podia apanhar mesmo ali a noite. Assim juntei o util ao agradável. Lá tive que esperar até que ele desse um intervalo aos seus músicos acompanhantes. Falamos breves momentos: o suficiente para umas linhas elogiosas e bem condimentadas uma vez que já conhecia a carreira dele. Ainda tenho esse n.º 145 do ex - Jornal «Àfrica Hoje», atafulhado em assuntos de imprensa, a minha primeira entrevista como jornalista estagiário mas tambem a ultima para a imprensa escrita. Ofereceu-me, na altura, o recem-nascido album musical «Dia e Noite». Sempre que cai a noite sobre Lisboa e sobre Mindelo a estrela Bius brilha. Incansável como ele era.



Deus ta dal um diskansu na sé glória.

domingo, julho 05, 2009

A TRANSAÇÃO ARTE E CIDADE

"Lost In Translation" (2003). Sofia Coppolla



A Oficina Arte / Ocupação de Território / Desenvolvimento Local promovida pela CIDLOT – Centro de Desenvolvimento Local e Ordemnamento de Território da UNI-CV agraciou-nos nos dias 01 e 02 de Julho, respectivamente na Praia e no Mindelo, com uma importante discussão á volta da relação entre a arte e a cidade, que nas ultimas décadas sofreu grandes alterações. A ideia central é esta: a cidade constitui uma relação simbiótica e indescirnível com a arte, tornando-se ela própria uma obra de arte.


Para compreender melhor esta relação nada melhor do que atermos às poderosas contribuições de Dominique Malaquais, Historiadora de Arte, arquitectura e política africana, co-directora do projecto SPARCK – Space for Pan-African Research Creation and Knowledge (Africa do Sul) e da Kadiatou Diallo, artista visual educadora e activista na África do Sul. Ambas apresentaram interessantes novidades sobre o actual estado das coisas na arte, arquitectura e urbanismo africanos, sobretudo a dinâmica existente nas grandes cidades africanas. São novidades como:


- Networking Thinking, gente que se interessa pela ideia de tecnologias muito mais complexas mas que, todavia, não trabalha sistematicamente com tecnologias. Neste movimento surgem EWA BAMI JO = «come dance with us» uma organização muito nova em Kinshasa que lida com projectos sobre novelistas, poetas, etc.

- ACC – African Centre for Cities – University of Capetown - que implementa um programa denominado «Scenographies Urbanistique» na qual a ideia da transação é fundamental. São projectos como o Visual Arts Residency de KaKuDJi, o Performing Arts Residency de Mowoso, etc. Entre eles o caso mais paradigmático é o de KaKuDJi que contrapõe denúncias políticas filmando com câmaras pequenas, em viaturas em movimento, situações flagrantes de corrupção, atropelos aos direitos humanos, etc. Editou «The Secret Diary of a Paranoid Schizophrénique” no qual mistura fotos e desenhos com mensagens fortes sobre a esquizofrenia do capitalismo nas grande metrópoles.


Enfim, imaginary worlds como o de KaKuDJi , artista africano que imagina cidades europeias do futuro desde o contexto africano ou o colectivo estudantil universitário MATAHATI (traduzido: ‘olho da alma’) que produz obras sobre a história, a identidade, mudanças culturais e sociais em Malasia. Podem ser vistos no site http:\\www.universes-in-universe.de.


«No Centre, No Hierarchy, No One-way relationships», resume, na óptica de Dominique Malaquais e Kadiatou Diallo, o essencial destas propostas estéticas e activistas contemporâneas: cruzam-se vários caminhos na dinâmica das cidades e a transação é contínua, até em simples objectos como o sapato (neste particular, Dominique Malaquais fez questão de mostrar a plateia, ávida, os seus belos sapatinhos).


Outra contribuição de relevo foi o documentário «Lost Freetown», o primeiro da Nazia Parvez. Desta vez, na perspectiva inversa: a da destruição desse espaço de transação entre a arte e a cidade. Freetown, depois da guerra, transformou-se numa enorme catástrofe natural e humana e se há palavra que traduza as imagens apresentadas pela documentalista e fotojornalista de «The Guardian», tambem freelancer da Associated Press, ela está encerrada no próprio título do documentário: «cidade perdida». Não Transaccionável. Inóspita.

sexta-feira, junho 26, 2009

MICHAEL JACKSON MORREU ?

“A.I.” (2001). Steven Spielberg



É ... Michael Jackson morreu. Todos os fãs estão tristes. Lamento a sua morte porque marcou-me a mim e a toda uma geração adolescente. Ninguem ficou indiferente ao Rei da Pop. Mas fiquei deveras triste quando ele «morreu» pela primeira vez em 1987: foi quando vi a capa do album «BAD» e ouvi as canções. Nessa altura confirmava-se algo extraordinário no mundo do espectáculo o que despoletou mais tarde, um nunca mais parar de correr tintas e piadas. O desencantamento que isso suscitou em mim levou-me a outras paragens da música negra.


Já eu era crescido e sempre que me falhava a memória dos meus anos de adolescência lembrava do jovem cantor negro de «Don’t Get Still Enough», «Human Nature» e «Billie Jean». Da mesma forma quando lembramos de um brinquedo ou outro objecto qualquer de valor inestimável no qual depositávamos todo o nosso carinho e confiança nas más alturas.


Sim, para mim a verdadeira morte ocorreu antes. Foi mais triste porque era mesmo ele na capa do «Thriller», depois que se tornou «Bad» já não era ele: tornou-se o seu simulacro reinventado para o mundo do espectáculo em moonwalking interminável. Como ninguem tinha feito antes.


Não, já não era ele ... mas, todavia, era a arte pura no corpo e na alma, contemplando eternamente a sua, provavelmente,, única imagem adorável: a de Elizabeth Taylor.


Fica a Lenda para as outras artes.

quinta-feira, junho 04, 2009

RETRATO (V): ARMÉNIO VIEIRA (CABO VERDE)

"Finding Forrester"(2000). Gus Van Sant


ENQUADRAMENTO. Prémio Camões. 03 de Junho 2009. Um homem desce as escadas de uma cave escura. Ouve-se o ranger da madeira da pequena escada e vemos a poeira que se eleva no ar trespassada por uma luz ténue que vem de uma pequena janela na parte lateral do compartimento. O homem dirige-se a uma estante velha no extremo oposto contendo vários livros empoeirados. Pega num deles: «...hmmm...cof...cof...cof...», susssura para si próprio «tás aqui meu velho amigo. A ti ninguem deita mãos, minha relíquia ... aqui os aplausos não te perturbam».




... e o poeta regressa ao castelo...

segunda-feira, abril 06, 2009

O DESEMPREGO DE LICENCIADOS

"Good Will Hunting" (1997) Gus Van Sant



Oito (8) dicas para enfrentar o desemprego de licenciados no país:




1. Criação de agências de emprego nacionais como actividade geradora de rendimento. Emprega-se quem precisa e ajuda-se outros a empregarem-se: só assim se cria a consciência de busca não só como fim como um meio em si;


2. Sistematizar a aplicação de testes psicotécnicos e de inteligência emocional nas candidaturas: desta forma criamos uma sociedade baseada no mérito e não em favores políticos;


3. Promoção de auto-emprego aliada ás ideias e ao empreendorismo nacional;


4. Criação de laços umbilicais entre a universidade e o mercado de emprego de forma a que estudantes que tenham aproveitamentos possam ter acesso directo ao emprego;


5. Maior divulgação acerca das ofertas de emprego existentes nos países da CPLP que passa por uma agencia de intermediação de ofertas e de buscas;


6. Criação de cursos superiores de turismo e de agentes culturais!!

7. Incutir maior responsabilidade nos nossos estudantes e lembrar-lhes que o país começa a deixar de ser para todos que simplesmente queiram viver nele;

8. Promover o micro-crédito para sectores não antes contempladas. Que tal apoiar uma empresa que queira produzir uma revista de moda e de beleza, um dos sectores mais badalados nos ultimos anos no país ?;


8 1/2. Incentivar o audiovisual e a industria cinematográfica tornando-a uma actividade lucrativa e geradora de empregos.


Leia a seguir o que diz a malta do blog joint: