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quarta-feira, dezembro 03, 2008

O DESTERRO DO POETA (versão cedida pelo autor)

O DESTERRO DO POETA
(versão segunda)

ao Arménio Vieira, inveterado mestre da palavra
e das incongruências do quotidiano

Num dia qualquer
de Junho ou Março
expulsaram-te da tua taverna predilecta!

Dizem
consumias demasiado café
(ah! essa tua mania
de fazer o vagar do dia
vogando na solidão
recostado ao fumo teu e dos outros)

Dizem
trazias a poesia
para o coração
dos marginais dos desesperados
das vítimas da cidade e da rotina

Dizem
enchias de vaticínios e paradoxos
a nudez das tardes e a rispidez dos enredados
nas incongruências do dia e do quotidiano

Mas
- chateiam-se -
porque enxertas a poesia
aos estádios
e a outras rotas circulares
dos fanáticos da bola?

O poeta deve ser discreto
e exemplar na sua pose austera
mas tu
-desesperam-se –
dás trela aos que no futebol
são os sábios dos sábios
(e são quase todos os habitantes
destas urbes e suburbes)
e perdes o teu lato tempo
pormenorizando os dribles
discorrendo sobre as fintas de tal e tal jogador
(afinal um simples proletário
da várzea da companhia
ou, lastimam urbanos e cépticos, de ribeirão chiqueiro!...)

Um poeta deve ser
sisudo e sorumbático
e protótipo de uma postura filosófica!

Mas tu
- arrepiam-se -
cabelos em desalinho
em mangas de camisa
as sandálias franciscanas desapertadas
o peito ao sol e à bruma
discutes futebol
e pagas bicas e água tónica
a todos os que se vangloriam
de serem cortesãos do teu condado

Será isso
digno de um poeta
ademais consagrado?

Por isso
instaram-te a mudar
o teu indeclinável percurso
de todos os dias
e proibiram-te de consumir café
na tua irremediável taverna
das tardes todas
(diacho de poeta
que não cumpre a sina da boémia
e não consome nem scotch nem ceris!)
e colocaram o teu assento predilecto
num recanto da penumbra
(agora aí se senta
um velho funcionário reformado
em matrimónio indissolúvel
com o seu imperceptível silêncio)

Oh! pior
quando o teu poema saiu
numa das revistas da cidade
negaram-se a vender a revista
e em magotes amontoaram-na
com os restos de velhas publicações ilustradas
e com os dejectos dos turistas alemães
incomodados com a tua inconfundível conversa
sobre a gramática o futebol
e o non sense do quotidiano…

Lisboa, Julho/Novembro de 2008

(versão refundida do poema com o mesmo título
publicado na revista Fragmentos, nº 5/6, 1989)

REMÉDIO (Para Bloguistas)

"Faço todos os possíveis para parecer indiferente. Quero impor silêncio ao meu coração que julga ter muito que dizer. Receio sempre ter apenas escrito um suspiro quando acreditava ter dito uma verdade."


«Do Amor*» - Stendhal


Página 41


* Cheers!

terça-feira, dezembro 02, 2008

SOLIDÁRIO

Estamos todos solidários com o Abrãao estes dias. Convenhamos, caros amigos, que não é fácil um diálogo com este país, com esta cidade e com a sua mentalidade. São atitudes de tipo boçal que não abonam a favor da arte. Não há como fugir: xungaria ás tortas e ás direitas; esquerdismos infantis em problemas de gente grande, banalidades em política séria, lugares de sentido intoxicados por uma sucessão de erros de interpretação, ... Mas digo-te uma coisa, Abrãao, de coração aberto: com esta corrida desenfreada em direcção ao non sense vale mesmo é ficar em último e sermos sempre os eternos incompreendidos... por isso não percas a lanterna, meu caro.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

REFORMAS DE MISÉRIA

Não percebi porque é que no jornal «A Semana», da sexta-feira recente, aparecem dois orientais de chapéu, á conversa, a proposito de Reformas de Miséria em Cabo Verde. Não há fotos dos nossos reformados? Ou já morreram todos à fome?

A MORAL DOS FORTES


Stá na moda jantares de beneficiência y, por obra y grasa, tud un variedadi de diskursos sobre assunto. Ma é komoventi rapara un certu djôgu de cintura pa eskiva expressons konstrangedor, ki ta leba a un certu tipo de reason moda kel ki Mizé Badia de Renascer teve na ultimu entrevista de Abroni na 180º. Em vez de kel expreson menos dignifikanti nu ta dal uns retokis ti ki fika ka ta parce me kelá ki, na fundu, nu sta objectiva ... na verdadi é un realidadi txeu duro y txeu presenti na nos vida social y ki nu ta «maskaral» ku ideias di responsabilizason social , di sensibilizason, etc, etc, ... problema é ki é ka ten un vínkulo objectivável nes tipo de relason mas apenas un dimenson di konsciencia ki nu debe ganha dia pa dia ... sê si, nton basta nu ka torna'l un relason perversu ou kompassivu, do tipo amo y escravo...


Ka nu mésti inkomoda txeu, si nu ka kre fla'l na kriôl, na inglês anglo-saxóniku kurrectu é ta fladu «hey...pssst...just share it back».

Oferendas, jantares de beneficiência social, espectáculos de beneficiência, apadrinhagem, etc, etc

é pamodi un Bem divinu ki dêbe repôdu …

Se kel argumentu li é radikal, nton nhos ôdja kel di un autêntico incivilizado di un tribo di ôtu lado di mundo ta pápia !!. È ta txoma Papalaguiu a kes guêntis ki pôde, ki ta fazê y ta disfazê ...



I'm just sharing it back:



"Quando um homem diz: « a minha cabeça é minha e de mais ninguem!» tem razão, tem muita razão e contra isso ninguem terá nada a objectar. Aquele a quem uma mão pertence será quem mais direitos tem sobre ela. Até aqui estou de acordo com o Papalagui*. Mas ele tambem diz: «a palmeira é minha!», só porque ela cresce, por acaso, diante de sua cabana, como se tivesse sido ele a fazê-la crescer! Nunca a palmeira poderá pertencer-lhe, nunca! A palmeira é a mão que Deus nos estende, através da terra; Deus tem muitas mãos,. cada árvore, cada erva, o mar, o céu e as nuvens são outras tantas mãos de Deus. Podemos tocar-lhes e regozijar-mo-nos com isso, mas lá por isso não temos direito de dizer «A mão de Deus é a minha mão!» No entanto é isso que o Papalagui faz."


Discurso de Tuiavii - chefe da tribo de Tiavéa nos mares do pacífico Sul


Sim, nô ta faze'l sim.

sexta-feira, novembro 28, 2008

«PRISON BREAK» (FUGA DA PRISÃO)

Não, a sério. Estou mesmo a curtir a escolha da TCV, ultimamente. Boas séries e tal, filmes bons aos fins-de-semana (todos devidamente com direitos de transmissão, não é?!). Água boa.
Gosto de filmes sobre as prisões afro-amer... (não)... norte-americanas. Em todas elas a violência e a corrupção dominam todo o argumento. Os Condenados de Shawshank (EUA, 1994) de Frank Darabont, com Tim Robbins, e Prison Break (EUA, 2004), criado por Paul Scheuring são provavelmente os melhores exemplos disso. Nos dois filmes ambos os personagens chegam á prisão nas mesmas condições: inocentes (mesmo)!
Scofield (Wentworth Miller) e Andy Dufresne (Tim Robbins) têm razões completamente diferentes e o seu confronto com a dura realidade das prisões é tambem distinta, em grau e parentesco cinematográfico: o espectáculo de uma consciência em acção que está presente em Os Condenados de Shawshank quase que aproxima este filme do universo cinematográfico do «enorme» cineasta japonês OZU; o frenesim presente na série televisiva Prison Break - uma conspiração política para acabar com a vida um homem inocente - está, talvez, mais próximo de um Oliver Stone ou de um Ridley Scott, quando este muda de pele.
A hiper-tranquilidade de Andy Dufresne (Tim Robbins), o seu aspecto silencioso reverte-se na própria estrutura do filme que nada mais é do que uma longa e penosa travessia simbolizada na fuga fabulosa do protagonista «por um inferno de lodo e esgotos». Os longos planos-sequências respeitam esse tipo de cinema mais reflexivo, dado pelo voice-over de Red / Morgan Freeman, aspectos esses ausentes em Prison Break, no qual dominam mais as acções violentas com travellings rápidos, planos serrados que criam a sensação de aflição como é próprio das prisões. Se a personagem Scofield (Wentworh Miller) tem todo o mapa da prisão tatuado no corpo, n' «Os Condenados de Shawshank», Andy Dufresne (Tim Robbins) tem o mapa tatuado na sua consciência, forjado no silêncio de uma cela.
Entretanto ambos, por questões comerciais, não tocam as baínhas do cinema hiper-realista e radicalmente contemplativo de Robert Bresson que tambem filmou a realidade das prisões com «Um Condenado á Morte Escapou» (1956). Este cineasta reinventou o conceito de cinema substituindo-o pelo de «cinematográfico» ao pretender mostrar ao espectador a essência das personagens, substituindo os actores por «modelos» cujos gestos, olhares e expressão facial ganham relevo no esquema argumentativo e na direcção do filme.
Isso, sim, seria uma catástrofe para quem quer apenas ... divertir-se.

quinta-feira, novembro 27, 2008

MALA EDUCACIÓN

No parlamento, Fernando Freire, lider parlamentar, amua e não quer falar.

Jorge Santos faz birra e quer abandonar a sala.

Na câmara da Praia, Edna Oliveira está sempre a falar na vez da Rosa.

Claudia Rodrigues deu um grito que perturbou os católicos conservadores...

A Isaura Gomes anda a assustar as criancinhas e a deitar a lingua de fora aos estilistas.

A jornalista Elizabete Correia anda a massacrar toda a gente em horário nobre, na TCV,

só porque confundiu um salão de cabeleireiro com um programa de televisão.

«Bianda» anda a atirar tomates podres ao governo ...



... e eu ? Apetece-me aqui puxar as trancinhas da Eilleen ...

MALA EDUCACIÓN

terça-feira, novembro 25, 2008

RESGATE


Foto: Abraao Vicente

A criança vê mas guarda algo dentro de si. É, talvez, isso o olhar. É tambem a visão de um fotógrafo: o seu resgate pessoal.

sexta-feira, novembro 21, 2008

OBAMA E O CINEMA

Exemplos há muitos. As comparações e epítetos não param sobre ele: é Mr. OBAMA, aquele que Ridley Scott definiu como um “excelente actor, cálido, humano, preciso”. A sua história é muito parecida com aquela de que o cinema adolescente adora abusar no argumento: sempre aquela estória de autosuperacão, de fé em si mesmo apesar das adversidades e, enfim, a exaltação de uma sociedade que permite o éxito a quem o demonstra. Tambem a noção de «superpoderes» não está posta de parte.
Já o comparei, aqui, á figura real do imperador etíope Haile Selassie [uma comparação, de resto, demasiado absurda para que faça sentido (é para isso que servem os blogs)], mas no cinema, a película que mais me ocorre, de imediato, quando se trata de Obama não é uma longa-metragem mas sim uma série televisiva: o 24 horas (4.ª Série) e a figura iconográfica do Presidente Afro-americano, na personagem Robert Palmer [demasiado óbvio para que seja uma comparação interessante (é, tambem, para isso que servem os blogs)].

Palmer / OBAMA é amigo pessoal de Jack Bauer/PODERIO TECNOLÓGICO-MILITAR ... especialista na detenção e eliminação de acções terroristas.

A série foi concebida uns dois/três anos antes e, já que estamos em maré de comparações a OBAMA, apetece mencionar «Viagem na Lua» (1902) de George Meliés , a antecipar a verdadeira viagem do homem á Lua ( em 1969). Desta vez, se usarmos, meramente, o mecanismo causa-efeito, o efeito foi mais depressa: .... é o real que fomenta a ficção... ou é a ficção que persegue o real ?!

quinta-feira, novembro 20, 2008

Teatro

Fui espreitar, ontem, a peça de teatro «Máscaras» do João Branco [com Mano Preto escondido por trás de uma máscara]. Gostei da peça, do primeiro ao ultimo acto, que não foi no palco mas na plateia, com a improvisada (?) provocação aos presentes. Essa espécie de desenredo, que desperta pela sua imprevisibilidade, quase que responsabiliza as pessoas por aquilo que andaram a ver, confrontando a arte com as suas vidas. O melhor exemplo disso, no cinema, talvez esteja presente n' «O Sabor da Cereja» de Abbas Kiarostami: depois de passear, pelo enredo, a figura trágica do protagonista até ao suicidio, o cineasta nos deixa ver os bastidores das imagens das filmagens, questionando por dentro a própria obra, sem ligar aos «anseios» ficionistas do público. O efeito é estranho e obriga todos, igualmente, a questionar. Estranho, tambem, é o modo como soa a mediação de um fragmento textual, tirado a papel químico, das composições de Orlando Pantera no decorrer de uma cena teatral desse estilo. Fantástico!



Ontem só faltou mesmo aquele beijo real (de que tanto se poetizou) a um felizardo qualquer que estivesse nessa halloween de alta definição.


Challenge: «War»

WAR


Until the philosophy which hold one race

Superior and another inferior

finally and permanently discredited and abandoned

Everywhere is war, I say it's war.



That until there are no longer first class

and second class citizens af any nation

Until the color of a man's skin

is no more significance than the color of his eyes

I say war



That until the basic human rights are equally

guaranteed to all, without regard to race

This is war.



That until that day

the dream of lasting peace, world citizenship

rule of international morality

will remain in but a fleeting illusion

to be pursued, but never attained


Now everywhere is war, war.


And until the ignoble and unhappy regimes

that hold our brothers in Angola, in Mozambique,

South Africa sub-human bondage

have been toppled, utterly destroyed

Well, everywhere is war, I say war.



War in the east, war in the west

war up north, war down south

war, war, rumours of war.



And until that day, the African continent

will not know peace, we Africans will fight

we find it necessary and we know we shall win

as we are confident in the victory.



Of good over evil, good over evil, good over evil

Good over evil, good over evil, good ever evil.



(Discurso de Haile Selassie na Liga das Nações em 1936)


Picture Edited by «Tempo de Lobos»

terça-feira, novembro 18, 2008

Economia da Cultura?!...ahnnnn!! Agô dja N' tendi...

Agora falando sério. O que é eu compreendi, na minha pouca frequência ás «aulas» da cultura é que: fala-se d' «a cultura como actividade geradora de rendimento» que, por sua vez, precisa de investimento, que pode vir de Portugal, Brasil, Espanha, Luxemburgo, Senegal, Canárias e Holanda, estando, no forum, para tal, especialistas destes países que nos vão ajudar a pensar como chegar, com os seus investimentos, a criar uma indústria da cultura, com controle fiscal e de propriedade, no nosso país. Certo?!


Ok, então espera aí. Há muita gente no planetário da cultura a querer algo mais silencioso e menos pomposo: um centro de investigação em audiovisual, documentário e cinema, bem financiado. Seria um bom começo ... para artes, inventos, experimentações,... um silicon valley caboverdeano? Dá para deitar umas moeditas cá pro sectorzinho, no finalzinho bom?


hey... dinheiro ... é dinheiro... e tudo vai parar ao valley da economia... é, não é?

Economia da Cultura?!!!

João Branco, tragando o seu café margoso, disse, de soslaio: «neste momento estamos a tentar entender o que é isso da Economia da Cultura». E eu, que adoro o meu café com açucar, digo, com olhos escancarados: « vejam a Economia que está na plateia e a Cultura que sobe ao palanque e façam as contas».

Le Racisme vient de l'avenir» - Jacques Lacan

Quanta ironia e enigma não estará nesta frase singela, porem intrigante, de Jacques Lacan: «Le Racisme vient de l'avenir»!!

quarta-feira, abril 23, 2008

Aimé Cesaire - O Poeta

« Parfois on me voit d'un grand geste du cerveau,
happer un nuage trop rouge
ou une caresse de pluie, ou un prélude du vent,
ne vous tranquillisez pas outre mesure:
je force la membrane vitelline qui me sépare de moi-même,

Je force les grandes eaux qui me ceinturent le sang

C'est moi, rien que moi qui arrête ma place sur le
dernier train de la derniére vague du dernier raz-de-marée

C'est moi rien que moi
qui prends langue avec la derniére angoisse
C'est moi, oh, rien que moi
qui m'assure au chalumeau
les premiéres goutte de lait virginal!»

In "Cahier d'un retour au pays natal"

sexta-feira, abril 04, 2008

MARTIN LUTHER KING, Jr. (15 de janeiro de 1929, Atlanta, Geórgia – 4 de abril de 1968,

Polítika: «burro é na ladera ki ta dexadu»

Sobre ultimu okurridu ridíkulu na campanha pulitiku pa autarquica, na kual José Maria Neves fla ma «Burro é na ladera ki ta dêxadu...» nu tem ki sabe un kusa: ômi é um animal pulitiku y animal tem txêu: burro, cabra, bódi, leon ô tigre. Se na cena pulítiku kauberdianu skodjêdu «burro» pa kria comparasons foi mal skodjêdu apesar di nu tem poku variedadis di animal na país. É ki tem um animal mas representativo nes katan-katan di campanha: bôde !! Dos bôdes ki djunta kabesa ku kabesa riba kutelu di Somada ( lokal txoma mesmu Cutelo: foi lá ki kes dos campanha bai stanka).



N kel bram-bram um fika biradu pa Nhagar e mas pa lá na direson di vales e montes; kel ôtu fika biradu pa skola secundáriu y camara municipal. Purtantu: na kutêlu somada de kostas voltadu num korrida pa ganha eleison autarquica. Na kel (i) lógika di burrice kenha ki stá bai ganha?! Um bôde difícil di razolvi ...


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Deselegante afirmason pa um ministru mé, diga-se de passagem. Até porque se logika mas profundu for um kiston mas toponimiku y ku ordenamentu ti territóriu, kal foi ultimu bez ki ministru dá um vista di olhos na mapa toponímiku di sê país? Se nu bai pa mapa nu ta rapara ma país sta xeiu di burros, tudo pa ladera. Un psikanálise geral pa tudu alguem ... debia ser rakumendadu.

quinta-feira, março 27, 2008

Teatro ou ... «my mental condition is illegal»

Está aí uma arte que ainda não esgotou todas as suas possibilidades. Uma pessoa está à beira da loucura e porque leu uma obra de Beckett que lhe sussura «podes aproveitar isso» ou uma frase de Nietzche que lhe segreda aos ouvido «a loucura é rara nos indivíduos mas que é norma nas colectividades» resolve, por isso, subir para palco e terapiar-se em meia ou uma hora. Mas há técnicas que é preciso aprender - a colocação de voz, o timbre, a postura corporal, o controlo de si e do público, etc, etc. Já vi muito teatro por aí que não é exactamente o que se prega á volta disso. «Será isso teatro!?» Quantas vezes fazemos essa pergunta ao sair de um espectáculo. Bem, «tudo é teatro» - responderá certamente alguem com bom senso. Não é por acaso que certos criadores têem aproveitado dos loucos e doentes mentais para a sua criação inserindo-os em contexto alheios aos estabelecimemto psiquiátricos. E as prisões? O que se faz com o facto de hoje em dia sentirmo-nos prisioneiros, refens das pessoas sem que tenhamos físicamente correntes ou mordaças . Que teatro se pode fazer apartir disso? Há algum que tenha já sido feita na cidade da Praia? Ah, espera aí não há nenhum teatro ou cinema a funcionar no país. Com o actual estado do mundo e neste tempo de lobos o teatro não deveria funcionar a tempo inteiro em várias sessões diárias para todas as idades e mentalconditions ? Ou estarei enganado? Mas não sou eu quem poderia dizer mais sobre o assunto até porque, a meu ver, alguem já disse tudo o que precisamos saber sobre as origens do teatro. E não é nenhum historiador ou director teatral. Basta ler as obras de Michel Foucault.

sexta-feira, março 14, 2008

Mulher

Estou de castigo estes dias. Chamaram-me de criança, infantil e mandaram-me escrever uma composição sobre a mulher por ter infringido uma das suas regras básicas. Por isso cá vai a composição, como as que costumamos fazer na escola primária:


Composição


«A Mulher»


A Mulher é uma criatura rara (ponto). Faz as coisas com determinação, pensa em vários assuntos ao mesmo tempo e é demasiado séria nas negociações (ponto). Decididamente ela já fez cair o mito do sexo fraco. Mas numa coisa continua sempre mulher, sempre ela: a sua própria composição (ponto parágrafo).

A necessidade imperiosa de se sentir adorada leva-a, por vezes, a trair-se nesse intento quando, por exemplo, leva involuntariamente os dedos ao cabelo a meio de uma reunião de trabalho enquanto observa o potencial admirador ou mesmo quando, abusivamente, não quer parar de falar sobre um não sei quê de inovação (ponto). Para se elevar ao pedestal de idolatrada e venerada está disposta a tudo até a transmutar-se nas suas origens e modos (ponto e continua na mesma linha). A mulher africana quer parecer-se com a latina alisando o cabelo, pintando os lábios; a mulher latina quer parecer-se nórdica, alisando ainda mais o cabelo, branqueando-a, acinzentando-a e esforça-se para que a sua expressão facial pareça mais fria e glacial possível; a mulher nórdica quer parecer-se com a africana trançando o cabelo e, não raras vezes, vestindo os seus trajes tropicais.(ponto e espera aí: onde é que está a minha mulher?). Só sei sei uma coisa sobre a mulher: de que nada sei sobre a mulher senão aquilo que me é dado saber. Eureka.(final da composição).


Nome: Mário C.F.V Turma: @ Fila: dos Traquinas e Terríveis


segunda-feira, março 03, 2008

Amistad

Ainda não percebi porquê essa euforia toda por uma réplica do Amistad, atracada no Porto da Praia? Culpa da história (que não abona a nosso favor) ou de Spielberg?

sábado, março 01, 2008

Cabo Verde: País de Desenvolvimento Médio

A UE doa um fundo de 3 milhões de euros para iniciativas culturais dos PALOP, valor esse que será gerido pela Guiné-Bissau (salva-se os escultores Joaquim e N'Djai ... espero bem que sim). A Embaixada de França doa 150.000 euros para a Associação de Cineastas Moçambicanos sendo 30 % desse valor para as primeiras produções. E nós?! Isso de País de Desenvolvimento Médio já nos está a afastar da mesa do bolo ! O sector Audiovisual em Cabo Verde será muito provavelmente da inteira responsabilidade e autoria do seu governo. Está na cara: o dinheiro não vem para cá. Os cineastas e realizadores têem que ir busca-lo a outras paragens devendo criar, para o efeito, uma associação que terá ainda que pressionar a nível interno o governo. Em Novembro próximo realizar-se-á um Fórum sobre Cultura e Economia idealizado por Leão Lopes e, em princípio, sairá desse fórum a estrutura mais adequada para gestão do sector e sua regulamentação, segundo o Ministro da Cultura, que afirmou ainda que a portaria para a atribuição de uma Bolsa de Criatividade já está aprovada desde ontem. Anualmente será atribuída 1.000.000 de escudos caboverdeanos para suportar uma obra mas apenas numa area específica. A primeira área a ser privilegiada é ... a música. Como se a odisseia da Cize não fosse prova suficiente de que somos bons nessa matéria. Valha-nos Deus!!

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

«Wetland Bird Outside of its Natural Inhabitat» - Joe Underwood




O meu compromisso com Joe Underwood mantem-se. Já lhe prometi mil vezes de que um dia ainda conseguirei fazer uma viagem até Londres para bebermos uma caneca de cerveja num bar irlandês. Só que o meu amigo já deixou de beber e eu já não sei que argumentos inventar. Agora enviou-me esta tela irónica «Wetland Bird Outside of its Natural Inhabitat». Publico-a com a naturalidade com o qual que olho para a minhas próprias reflexões nestes tempos difíceis em que quase todos os dias uma pessoa se sente estrangeiro na sua própria terra sem que para isso lhe dêem muitos motivos. Basta que lhe digam duas ou três palavras entrecortadas com sorrisos maliciosos e esgares maquiavélicos.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Era uma vez um país...



Hoje em dia toda a gente vai para Londres. Eu fui parar a Guiné-Bissau para participar num workshop sobre documentários naquele continente, pois, foi lá que deixei o meu cordão umbilical. Ando em busca das origens ... e isso é já uma boa razão para reiniciar este blogue depois de uma inter-missão (entenda-se intervalo para realizar uma missão).


Ah..., para quem tem lido este blogue ao longo destes dois anos devo dizer que decidi não disponibilizar aqui as minhas imagens video, por uma questão de bom senso (conselho do meu amigo realizador de documentários Miguel Clara Vasconcelos, da Andar Filmes). Para este suporte de informação a internet já está a tornar-se um local pouco seguro. Alem disso o fenómeno do video-instalação parece ser mais consistente do que ter um V.log na internet, pois acaba por criar uma experiência mais humana no espaço relacional da arte, mais interessante do que esse espaço impessoal e virtual da net. Claro que isso não é novidade para ninguem mas eu procurei descobri-la do modo mais radical possível ...


Portanto fui parar á Guine-Bissau, considerado já um narcoestado. Aí, valiosos Jeeps e outros carrões percorrem ruas arruinadas e parece que, como em qualquer governo corrupto, lá as coisas são obtidas não pelo esforço de construção de um país mas sim por expedientes obscuros e continuados que não atendem ás concequências morais e sociais que daí advêem. As ruas da capital Bissau são despojos da guerra e da pobreza; os passeios estão literalmente arrancados do chão; o antigo palacio do governo está todo esburracado e, pasme-se, é diante dela que se levanta a bandeira do país ás duas horas da tarde. Conheci lá dois jovens talentos da escultura - o Joaquim e o N'Djai - que ocupam o seu espírito durante o dia, no Centro Artístico Juvenil, na produção em pau de sangue de figuras e símbolos da sua cultura étnica como régulos e irans, cuja força mitológica equivale no mundo moderno ao papel dos nossos parlamentaristas, políticos e religiosos. A partilha destes dois universos não os confunde. Agarram-se a velhas formas e ontologias porque acreditam que é dali que vem a sua força e é talvez por isso que os centros urbanos (a capital do pais espelha isso) não tem importância enquanto construção do espírito humano. Enquanto trabalham morosamente o seu material o mundo lá fora deixa de existir: se não se puder salvar um país em vias de se transformar na «Colombia da África» salve-se pelo menos o Joaquim e o N'Djai. Se fores a Guiné Bissau visite o Centro Artístico Juvenil da capital e salve o Joaquim e o N'Djai. Outros esforços em relação aos problemas desse país em http://www.odiaquepassa.blogspot.com/.


Eu, por enquanto, vou salvando as minhas memórias ... neste tempo de lobos ... e o meu blogue já leva - faz hoje - 2 anos de existência, portanto ... velinhas!!

terça-feira, outubro 16, 2007

Z de Zen (a Oriente) e Zweckrationalitãt (a Ocidente)

O melhor de dois mundos - a ocidental e oriental apresenta-se, a meu ver, sob duas formas de consciência expansivas, uma mais racionalizante e metódica do que a outra. Ambos constituem de certo modo o alfa e o ômega da consciência e do labor humano. Isso vem a propósito de algo que li na revista «Exame» sobre gestão e economia: «Sri Sri Ravi Shankar ensina produtividade Zen - uma técnica de respiração indiana ensinada no local de trabalho promete aumentar a produtividade. A PT é uma das 30 empresas que já aderiram.» O guru Sri Sri Ravi Shankar, que já tem milhões de seguidores, criou a Fundação «Arte de Viver» e concebe cursos específicos para empresas onde são ensinadas técnicas de respiração para elevar a satisfação e a produtividade. A busca activa do satori - a libertação ou iluminação - está incluída num programa empresarial mais vasto chamado Achieving Personal Excelence. Neurologistas indianos demonstraram, até esta altura,, que a práctica regular da sudarshan kriya processo de respiração com vários ritmos tem uma taxa de sucesso de 68 a 73% no tratamento da depressão no local do emprego. Respirar com consciência e meditar são prácticas que têem vindo a prender a atenção do mundo ocidental. Com isso a práctica Zen ultrapassou as portas dos templos budistas orientais para chegar ao mundo do trabalho. São os tempos: importamos espiritualidade.


Outro mundo é aquela que parte do conceito originalmente adoptado por Weber: zweckrationalitãt (racionalidade instrumental) e que Feinberg faz recair na importância dos símbolos para a vida pessoal e para a estabilidade social. Não podemos ter uma coerência individual e vida colectiva sem avaliarmos a nós próprios como símbolos e modelos racionalizantes. Isto para a realidade quotidiana é de extrema importância. Ambos os mundos podem ser conciliados, a meu ver, se pretendermos manter-mo-nos «normais» neste tempo de lobos. Seja como for, para muita boa gente basta simplesmente pegar numa bicicleta ao final do dia e avançar em direcção ao pôr do sol...

segunda-feira, outubro 15, 2007

Santa Teresa krê pa pobreza ser
Rainha li di bâxu* y ê sima stá skrebêdu.
Pôkus Kusas è ta flá dês governason,
Y é ka ta fika sô pa detalhes ki ta sobra

Mas pôntu krucial, na sê opinion, kel kusa ki nu ten ki ôdja:
Livre arbítriu ta pêsa, ta argumenta y ta parlamenta,
Dipôs pôbri-di-kurason ta dicidi y ta sigui sê kaminhu.

Kênha ki ta impidi'l? Sê ûniku deseju é ka ôtu
Sinon keli: stá, um dia, entre kel númeru di eleitos
Servidor poderosíssimo, soberânu poderosíssimo.

Pródigu y, acima di tudu, ka ta liga kusas materiais, di ten
Mas ta akumula sempri kûsas ke ba ta sabe:
Pa súbditu tan altivu y livre - ki rainha!

Paul Verlaine [Traduson ku tradison]

* Dicotomia céu-terra, paraíso-inferno.

terça-feira, outubro 09, 2007

Y libre!

Y no es suficiente con que el pensamiento busque su realizason, es preciso que la realidade busque el pensamiento ... y asi pues que no hay gesto radical que la ideologia no intente recuperar... y los que se quedan en contestacion parcial integran la función opressiva del gobierno...y en concecuencia se quedan prisoneros de todo el sistema... y no se cultivan mucho...y no tienen, quizas, una postura y imaginación ficcional... y su realidad es una forma de armazén, sin contenidos; un local donde todos entran e salen iguales... donde la mediocridad es la norma... y no respéctan nada y nadie...y no respectan ya el orden moral y familiar...y no saben cual es sus verdaderos origenes ... y sin intentarlo se créen justos... y sin saberlo todo, se creen inteligentes... y solamente porque compran el ultimo modelo de mobile Nokia se creen llenos de conocimiento y sabedoria sobre las cosas... y, sin saberlo, ya son los nuevos esclavos de la era tecnologica... y solo escuchan la repetición... y nunca escuchan a la cancion... y no danzan una musica que ha sido hecha para danzar... y no saben dialogar uno con el otro... y quando lo hacen es con un transfondo musical inadecuado para hablar... pero lo que me da rabia es que te hacen sentir una mierda quando los dizes que tienen razon, por respecho a su opinion... y si, que son locos, ellos... y tienen una falsa dinamica... y beben mucho ... y sin conocerlo bien ya lo quiéren...
... y, solamente, algunos de ellos (los mejores?) dominam sin esfuerzo los miserables controles de capacidad previstos por los mediocres, los dominan perfectamente porque han compreendido el sistema, porque lo desprecian, y se saben sus enemigos... y asi toman del sistema político lo que tiene de mejor: los privilegios ... aprovechando los fallos de control. Asi ya me gusta.
Fuente: De la miseria y la carcel en el medio estudantil de la nueva generación


Che sempre fumava os charutos mais baratos possíveis, chamados cazadores.

quinta-feira, outubro 04, 2007

X e Z: duas variáveis presas a eXistenZ

No mundo livre contemporâneo estaremos, na verdade, a viver numa imensa prisão? Na sua obra«eXisten, o reconhecido cineasta David Cronenberg apresentou, em 1999, uma tese e transformou o seu cinema num jogo deveras sofisticado. Nesta obra o cineasta observa o mundo como se fosse um campo de novas percepções dentro do qual a espécie humana está começando a sofrer um interessante processo de mutação colectiva. O cineasta canadense parece fusionar os discursos das suas películas anteriores para atribuir um certo sentido a um mundo sem raízes, no qual a substância orgânica se metamorfoseia em mecânica, e a biologia se transforma em química inorgânica. Nesta obra a biologia humana gera novos órgãos, a sexualidade ganha novos canais fisiológicos de experimentação - representados pelo casulo e pela bioporta - e os sujeitos se converteram em seres presos e agarrados a um jogo virtual. Os protagonistas de eXistenZ são conscientes de estarem participando num sofisticado videojogo; atravessam numerosos mundos em busca da sua identidade mas no final de todo o processo apenas adquirem a certeza de se encontrarem perdidos ad eternum num jogo cujos limites com o mundo real se encontram diluídos. Nesta ideia de um mundo de psicose generalizada o programador/arquitecto do jogo surge como o demiurgo que faz a sua aparição como um autêntico deus ex-machina. Muitos filmes posteriores , tal como Matrix, têem sugerido esta lógica de ideias e e, já num registo diferente, o filme Esfera fez convergir o processo todo apresentado-o como cosa mentale. A ideia de prisão e liberdade foi sempre um excelente binómio para multiplos argumentos de cinema mas para mim o mais radical e o mais cinematográfico, ao nivel da forma, talvez tenha sido Underground de Emir Kusturica.

terça-feira, outubro 02, 2007

X... pa Electra: nôs grandi inkógnita

Electra é maior inkognita ki ten na Cabo Verde, em termos di geston i di kapacidadi di soluson de prublemas. Ês é um erro sistemátiku na kualker geston racional di um kasa, di um estado: planeta i universu intêru kumesa pa energia i sê regularizason! Sem kel nu ka ta pôdi faze nada nem siquer tem um ideia di nós própri funsionamentu. Di Elektra dja passa limite, nha guênti. Dj' ê sa ta fika un intropia difícil di resolvi. Xiça!! Desculpan es Xpreson li, leitor.

En vez di buzinon pa kapital debia ta fazeda un romaria de velas pa cidadi. Dja nhós imagina: un multidon, iluminadu apenas pa velas ki kada un stá traze na mon, ta anda na Avenida Marginal ou na Avenida Cidade de Lisboa na mei di sukuru, ta bai manenti ti instalason di Elektra pa bai deposita na sê porta milhares de velas. Ma parcen ma, sima tud alguem dja intendi, si tud bez ki tiver un apagon de Elektra fazedu um romaria, é ta kaba pa bira folklore i passadus di li uns tempos nu ta lê num obskuro revista de turismo internacional álgu n'es stilu li: «Cabo Verde é tambem um país conhecido pela sua romaria silenciosa de velas em tempos de apagão, um problema insóluvel do seu Governo, mas que já se tornou um hábito cultural naquele estranho país da costa ocidental africana». Ayan, parcem m'ê pa Pro Praia i ADECO, na Mindelo, poi di guarda en relason a es tXakóta contra residentes i consumidores.

segunda-feira, setembro 24, 2007

W de What'a-Wonderfull-World-Wide-Web

A Web 3.0 será o futuro da internet. As actuais investigações vão no sentido da criação de uma nova mega estrutura destinada a substituir o actual world wide web. A Web 3.0 está em fase de preparação e representará uma nova forma de navegar, mais rápida e eficaz e principalmente com maiores potencialidades. A velocidade de navegação será de 50 Mb/seg. As causa desta revolução silenciosa que já foi iniciada deve-se ao boom das redes sociais (Myspace, Hi5,...), tv on line, vídeos e redes peer-to-peer. A world wide web deixará de existir, daqui há alguns anos, e passará a assumir a designação de World Wide Database: deixa de ser uma rede de documentos passando a ser uma rede de informação. Uma das grandes revoluções é que a extensão «.com» extinguir-se-á e surgirão dominios mais pessoais e particulares, do estilo http://www.minhapágina.helena.hn/.
Recorde-se que a world wide web foi criada por um inglês Tim Berners-Lee e por um belga Robert Cailiau, cientistas do Centro Europeu de Investigação Nuclear da Suíça.
Wikipedia passará a ser Wika
Jimmy Wales vai apresentar, em Dezembro, a Wika - versão beta do novo motor de busca Wikipedia. O fundador da enciclopedia Wikipedia quer, com esta mudança, fazer frente ao Google em algumas matérias.
Fonte: FCCN / Newsweek

V de «Voyelles» e Visionário



O meu amigo inglês Joe Underwood pintou «The Pile Up of Progression» inspirando-se em «Voyelles»* do visionário-anárquico Arthur Rimbaud (1854—1891):

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles, / Je dirai quelque jour vos naissances latentes: / A, noir corset velu des mouches éclatantes / Qui bombinent autour des puanteurs cruelles, / Golfes d'ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes, / Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles; / I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles / Dans la colère ou les ivresses pénitentes; / U, cycles, vibrements divins des mers virides, / Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides / Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux; / O, suprême Clairon plein des strideurs étranges, / Silences traversés des [Mondes et des Anges]: / — O l'Oméga, rayon violet de [Ses] Yeux!

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* [Tradução de Gaetan M . de Oliveira]:

Vogais
« A negro, E branco, I vermelho, U verde, O Azul: / Das vogais direi um dia os partos latentes: / A, veloso corpete negro das luzentes / Moscas que rondam fétido e cruel paúl, //
Golfos de sombra; E, candura de fumos e tendas, / Lanças de altivos gelos, reis brancos, tremor de umbela; /
I, púrpuras, cuspo e sangue, furor / No riso dos lábios belos, ébrias emendas; // U, ciclos, vibrações divinas
dos virentes / Mares, paz de pastos e gados, das pacientes / Rugas que a alquimia imprime em sábios sobrolhos; // O, Clarim supremo de estranhos gritos fundo, / Silêncios cruzados por Anjos e por Mundos: / — Ô, de Ômega, raio violeta dos Seus Olhos!»

sexta-feira, setembro 21, 2007

U de Utopia

«O homem não está só na história, mas leva sobre si próprio a história que explora»
Raymond Aron

A crise da realidade provocada pela Guerra do Golfo, em Janeiro de 1999, e posteriormente pela guerra do Afeganistão, em 2001, gerada como represália aos atentados de 11 de Setembro, levantou o problema da utopia da objectividade televisiva: a imposição de uma hipotética história objectiva da guerra não teve sentido. O poder omnisciente da CNN encontrou, desde logo, um contraponto na contra-informação da cadeia televisiva do mundo islâmico AL-Jazeera. O jogo sujo da guerra das imagens - que se impôs e se impõe durante esses acontecimentos - não cessou e numerosas imagens e informações se colocaram sob suspeita. Talvez a única excepção tenha sido, infelizmente, o atentado de 11 de Setembro contra as torres gémeas de Nova York, em que o relato informativo tel quel superou todos os filmes de catástrofes hollywoodescos.

A crise da verdade televisiva e com ele o modelo de utopia da informação pôs em crise um modelo de realismo entendido como afirmação da objectividade e trouxe ao primeiro plano os limites da ficção. O efeito bigger than life hollywoodesco fornecido pelos relatos comoventes dos protagonistas das tragédias tão pouco resolve esta crise. Atente-se por exemplo no caso do casal McCann - cuja filha Madeleine foi supostamente sequestrada – que, para já, começa a ganhar contornos grotescos e assombrosos prefigurando-se, talvez, como o maior embuste televisivo infligido ao espectador.

O problema de fundo é que se começa a estabelecer uma fronteira volúvel e confusa entre o real e a ficção. Estabeleceu-se já, ao nível do conhecimento humano, uma reformulação do conceito clássico de ficção que voltou a centrar o debate na necessidade ficcional como instrumento para o conhecimento e questiona-se, cada vez mais no mundo académico-universitário, a importância que a ficção pode exercer dentro de uma cultura contemporânea na qual se impôs, para já, uma crise de objectividade informativa. Tal constitui, por exemplo, a posição de Jean Marie Schaeffer na sua obra Pourquoi la ficcion? ( Paris, Seuil, 1999).

Para chegar ao conhecimento das causas reais a história teria que deixar de ser explicação para transformar-se em interpretação das intenções, sentimentos e razões das pessoas envolvidas, defendia Georg Simmel, ainda, no inicio do sec. XIX. Deste modo, somos cúmplices de toda a realidade e estaremos, então, a buscar a nossa verdade ao elevar o nosso nível de interpretação, daquilo que levamos em nós, para ultrapassar essa contínua suspeita em relação á informação televisiva.
A tendência actual é que o cinema de ficção como documento histórico pode estar a responder facilmente a algumas das questões que se encontram em contínuo movimento no presente, mediante a sua fabulação. Chegou-se á conclusão de que as imagens já não são o reflexo da realidade mas sim uma construção dela estando condicionada pelo pensamento que o cineasta inscreve, na qualidade de construtor das imagens. Os procedimentos de carácter estrutural, formal ou técnico dos cineastas devem, em princípio, desvelar o pensamento de uma época. Os casos mais significativos dessa construcção talvez sejam a América paranóica de Oliver Stone; o binómio corpo vs. virtualidade de David Cronenberg; ou o absurdo e queda em abismo de Abbas Kiarostami.

quarta-feira, setembro 19, 2007

T de Temperamentu, Tíru y Têra-Têra

T di Têmperamentu

Era un bez un rapaz ki tinha mutu mau tempêramentu. Sempri ku sê rostu runhu é ta txomaba tudu alguem di ignorânti, «besteirol», y ot'ora é tinha un manêra pôku ortodoxu di kôba alguen. Por isso sê pai da'l um bôlsa di prêgus y é fla-l p'e prega-s na parêdi de madêra di ses jardim tudu bez k-e perdi paxenxa ô diskuti ku alguem. Na primêru dia é prêga 37 prêgus. Mas passadu uns semanas é prende kontrola e, asi, númeru di pregus marteladu na parêdi di madêra ba ta diminui dia pa dia: é tinha diskubertu ma era más convenienti pa êl controla sê temperamentu di ki prêga prêgus na parêdi di madera. Uns semanas dispôs é ba djôbi se pai y ê-fla-l ma duranti kel dia é ka martela nenhun prêgu. Sê pai fla-l nton p' ê trá un prêgu pa cada dia ke ka perde paxenxa. Dias ba ta passa y finalmenti rapaz pôde flá sê pai ma dj'ê kaba de trá tudu prêgu di parêdi.
Nton sê Pai, xei di intenson, lêba'l pa djuntu di kel parêdi di madera xeiu di brákus y é fla-l: "Nha fidju, bu comporta drêtu, mas ôdja tudu bráku ki stá na cerca. È ka ta ser jamás kel u-mesmu di antes. Ò ki bu briga ku alguen y bu fla-l algu ki ta mâgua-l ô ta maltrata-l bu ta provokal um pankáda moda keli. Bu pôde mêti un fáka num hômi y dipós bu tra'l, mas ta fika sempri un pankadinha lá. Ka ta importa kantu bez bu pidi-l diskulpa: cicatriz ta fika lá pa sêmpri.»

T de Tíru
Kel stória sta bem a propósitu di un kâsu ridíkulu entre dôs puetas simbolistas francês di sec. XIX, ki dam graça: Paul Verlaine dá sê amigu Rimbaud um tiru dipôs di un discusson, é ba kadeia dôs ânu. Kantu é sai é tenta pidi Rimbaud diskulpa di tudu manêra, duranti tudu sê vida, mas foi en van. Ma si nu djôbi ses skritus nu ka ta ôdja nenhun índice di violencia, só musikalidadi y beleza ráru. È, sim: mediokridadi y arte pôdi convive djuntu na un mêsmu personalidadi.

T di Têra, Têra!
Têra-têra! N têni un grôgu kana-kana lá na kasa ki N ta tôma têpu-têpu, badiomenti y na paz di sprîtu. Sen fadiga txeu ... nes têmpu di lobos.

terça-feira, setembro 18, 2007



APARTIR DE HOJE TEREMOS, PELA PRIMEIRA VEZ, NO TEMPO DE LOBOS UM COLABORADOR - O MEU AMIGO INGLÊS JOE UNDERWOOD QUE VAI CONTRIBUIR COM AS SUAS TELAS E COMPOSIÇÕES PICTÓRICAS, ALGUMAS DELAS FEITAS COM BONECOS INFANTIS, PARA CARACTERIZAR ESTE TEMPO EM QUE VIVEMOS.
JOE UNDERWOOD É TAMBÉM UM VEGETARIANO CONVICTO: ACREDITA QUE A CARNE E OS SEUS DERIVADOS AUMENTAM, EM TERMOS BIOQUÍMICOS, OS ÍNDICES DE VIOLÊNCIA NO HOMEM.
INICIAMOS, ASSIM, COM UM CLOSE UP OF STYLE.

segunda-feira, setembro 17, 2007

S de Site-Sapo.cv

A PT vai arrancar o seu portal www.sapo.cv, exclusivo para Cabo Verde, em Outubro. A organização do portal será idêntica à do sapo.pt, com as naturais adaptações para a realidade cabo-verdiana. O portal terá notícias e uma área da Comunidade, onde estarão alojados videos, blogs, fotos, etc. Joaquim Arena [http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=22522], jornalista, escritor e advogado, autor do romance «A verdade de Chindo Luz», é o gestor editorial e pretende contactar bloggers crioulos, de todos os cantos do mundo, para se alojarem também no domínio sapo.cv. Passe a palavra entre o pessoal que mantêem blogs, filmes e fotos na net sobre Cabo Verde, pois será um portal exclusivamente para o nosso país.

R de Roberto Rosselini [«Roma-cidade aberta» (1945)]

Entre 1943 e 44, Roma, sob ocupação nazista, é declarada "cidade aberta", para evitar bombardeios aéreos. Nas ruas, comunistas e católicos deixam suas diferenças de lado para combater os alemães e as tropas fascistas. De salientar que as filmagens de Roma, Cidade Aberta iniciaram-se ainda durante a ocupação Nazi na capital italiana, o que confere ao filme aquele carácter de documentário. O filme é considerado um dos maiores da história do cinema pela crítica especializada e é estudado em todas as escolas de cinema e de documentário do mundo. Filmado em locais reais e com actores amadores, Roma, Cidade Aberta tornou-se, assim, o marco inicial do neo-realismo italiano, provando que é possível fazer-se cinema mesmo sob as condições mais precárias. Enfim, todos os caminhos (do real) vão dar ao ... cinema.

sábado, setembro 08, 2007

Q de Quero-Que-Quebres-e-te-Quedes-Quente, Querida.

Gosto do mar. Gosto de ir á Quebra-Canela, gosto de vir-me... da Quebra Canela.


Uma vista rápida por cima da montanhas, curvas e enseadas. Já perto do mar, por cima da enseada, a espuma das ondas propaga o seu halo quente até mim. Desço a enseada arenosa do dorso da colina que resvala até á praia arenosa e quente. «Oh! esta areia está mesmo quente.» Apresso os meus passos em direcção á orla do mar, num misto de ansiedade e prazer. Quedo-me por uns instantes na areia para lhe tirar o odor e o calor. De seguida meto-me sem contemplações naquela água quente e húmida; meto-me a fundo até aos corais passando ao de leve a roçar as ouriçadas. Permaneco-me ao fundo ondulando-me o tempo suficiente para ter aquela sensação de perda, do absoluto, de proximidade, de pequena morte. Volto á tona: uma onda enorme de calor, água e vapor, está prestes a cair-me em cima da cabeça. Pensei furar ali mesmo e acabar, o que seria frustrante; mas em vez disso faço aquilo que os craques da Quebra-canela chamam de «panha cachorro» - até á praia. Prancho todo o meu corpo sobre a superfície límpida e húmida do mar e deixo-me ir. O meu coração aumenta de cadência e bate compulsivamente, enquanto movimento as minhas nádegas e os pés tentando manter-me na crista da onda. A toada imensa de água, sal, espuma, força, leva-me prazerosamente até esvanecer-me na praia. «Ahhhhhhh...hmmmmm, foi boa a cachorrada». Aí deixo-me ficar algum tempo, ofegante, no seu leito cremoso. Ela - o mar - quente, quente, quente, ... como só ocorre em algumas tardes solarengas de Domingo. O sol continua a beijar-me o rosto e a língua troteante da água alisando os meus pêlos do peito. Os gritos e risos das crianças em brincadeiras na praia chegam ao meu ser como um cântico de querubins. Instantes depois, que pareceram uma eternidade, levanto-me para pegar uma onda ainda mais bonita e voluptuosa. 'Got the Picture?


terça-feira, setembro 04, 2007

P de ... ?

Mágica de bastidores, figuras clownescas, burlescos cinematográficos, intimidadis ... tudo isso apaga-se perante um facto que já comprovei: as pessoas são sempre mais sofisticadas do que aquilo que parecem. Kantu grau di sofistikason stá na bô, leitor? É tan forti ki ta bai ti pou kai na vaziu, moda cinema de Robert Bresson? Ô é moda sonoridadi di Charlie Parker kantu kumesa ta toca? [ a' êl é foi di tan grandi sofistikason k' es mandal studa ôtu bez]. Ô kel grau é similar a kel di Vasco Martins ki dja tinha sê composisons na obidu stranjeru, mesmu antes de um estudanti di têra sábe kem el ê? Ô é môda kel ki Ferro Gaita traze pa funaná di têra? Ô bô é tan poko sofistikadu k'es ta txomou koitadu?

Es P li ta fika na bu kritériu: atribuil um sequenciason di acordu ku bu sofistikason.
Foto: «Angelus Novus» de Paul Klee

sexta-feira, agosto 31, 2007

O de OUT

Há umas semanas atrás ajudei uns colegas brasileiros a procurar apartamento aqui em Lisboa. Depois de várias olhadelas e senhorios ansiosos por alugar chegamos finalmente á zona da Ajuda (Deus estava connosco). A senhoria até era uma boa senhora: daquelas mulheres portuguesas que parece que ainda vivem no tempo da monarquia. Tratou-nos como a seus súbditos e alugou aos meus colegas o apartamento calmo e tranquilo. A rua chamava-se Rua Filinto Elísio. (isso mesmo! aqui mesmo em Lisboa!) Daí, pensei: mas não será o ...? Bem mas a minha preocupação não era bem essa: a minha única preocupação era esse colega, meio andrógeno, que eu queria ajudar mas que não parava de me lançar sinais. E que sinais!! Eu já não sabia o que fazer. «Deve ser um tique ou uma mania qualquer do rapaz.» Passado uns dias fui visitá-los a ver como estavam acomodados. Só lá estava o meu amigo com aspecto de quem tinha acabado de bater uma pívea. Umas conversas de circunstância e convidou-me para ir ver o quarto que ele tinha escolhido (faço aqui uma elipse para cabeças confusas). Minutos depois estava ele na internet. Também fui á internet dar um check. Sem querer abrí uma janela e encontrei lá um blogue chamado todo o Mundo te quer, cheia de fotos de homens nus. Uauuu!!! No meu humor tranquilo de sempre achei bem que ele se declarasse daquela forma. Fiquei-lhe grato por isso. Curioso é que a rua se chamava Rua Filinto Elísio: não vou dizer em que zona. Um daqueles grandes mistérios? Bem, aproveitei para pesquisar quem é Filinto Elísio na internet e encontrei isto:


«Filinto Elísio é o pseudónimo que Francisco Manuel do Nascimento recebeu de D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, a quem ensinou latim quando esta se encontrava reclusa no Convento de Chelas e por cuja irmã, Maria, se apaixonou platonicamente.
Estudou os clássicos e foi admirador incondicional de Horácio.


Filinto Elísio foi um defensor incondicional do purismo da língua portuguesa e é considerado por muitos como um dos precursores do Romantismo português. Se quiseres saber amis click

http://br.geocities.com/poesiaeterna/poetas/portugal/filintoeliseo.htm#Ode»

[Ah, e lá se vai o ortónimo meu caro, já que escreves em Português. Acho melhor começares a usar o outro da arte .]


Mas apartir desse incidente curioso uma coisa ficou: ocorreu-me que o nosso Filinto Elísio, da blogosfera kauberdianu, age como se todo o mundo lhe queresse, actuando como um seu superintendente. Sim, todo o mundo te quer, Filinto Elísio. Filinto Elísio: ès Gay. Não me admira que quando chegues ao meu blogue batas uma punheta. [«O besteirol de Mário Almeida há de me chamar hermético. Vê-se que é alguém que não se masturbou em tempo dos lobos. Too bad. Mais uma vez, concordo com o Abraão Vicente, mais substantivo do que os betinhos, neoradicais, lobinhos e seus afluentes, de pequenas causashttp://www.albatrozberdiano.blogspot.com/]




[Ah, outra coisa: perguntaste pelo meu clã de neo radicais e lobitos? Estão a morrer de rir aqui ao pé de mim: Lobo solitário, deixaste de ser solidário ( com a malta nova).]


A minha próxima letra é P. Deveria ser o P de Pedante (aquilo de que já deste provas mais concretas) mas prefiro deixar as coisas por aqui. Noblesse Oblige.










terça-feira, agosto 28, 2007

N de Natural

Desde que li «A um Deus desconhecido» de John Steinbeck percebi o que é representar de forma ontológica o natural. O imaginário nele expresso apela a qualquer coisa de intrinsicamente bravio e silvestre. Natural não se confunde com sapiência. Natural é a voz e musicalidade de Nancy Vieira sobretudo no seu mais recente album «Lus» que confirma todo o seu potencial e carisma de crioula desprendida e sensual. Natural é o que me ocorre também quando oiço as canções de Norberto Tavares que, na sua busca formal e estilístico, quase que antecipou a revolução operada por Pantera, década mais tarde.

Natural é o apelo que N'Zé di Sant' y 'Agu, heterónimo de José Hoppfer Almada na obra «Assomada Nocturna». Segundo o próprio Zé Hoppfer o N antes de N'Zé está lá, por definição, como a primeira pessoa do sujeito na lingua crioula. A obra, que constitui-se como um único poema, é , na sua estrutura, uma jornada poética de um badio, cioso da sua cultura e das suas origens:

«Lembras-te, Txokáti

do nocturno requiem

dos ciprestes e das buganvillas

dos olhos cintilando

vigilantes escrutando o vôo das garças e das pombas

sobre o rude verde das lemba-lembas

nas noites longas de Assomada?


Todos nós éramos verde poilões resguardando no ventre

rugosos e centenário

os colectores dos espíritos da chuva da vegetação e do tempo

e os salteadores da cobardia

acossados pela polícia

foragidos da lei e da ordem


Todos nós éramos túmulos de lendas e mitos

esconderijos da secular condição

de primogénitos das montanhas

da humanidade das ribeiras

da vastidão do verde

ressumando

sobre o corpo dos sequeiros

em raízes contorcidos.

[in «Assomada Nocturna», cadernos da Lusofonia, pag. 66-67]
Natural é a interpretação dos actores brasileiros nas novelas; artificial o dos actores portugueses, nas primeiras novelas (dj'es arma kômpu). Natural é o cinema de Yasugiro OZU; artificial é interpretação de Mano Preto ( que admiro na dança) no filme «Ilhéu de Contenda» (lá se vai aperfeiçoando a técnika, n'é?). Natural seria Nha Nácia Gómi, á sua maneira, a apresentar o noticiário das nove na televisão. Natural é tambem uma crioula que eu vi passar hoje na Rua do Loreto no Chiado: uma festa de sensualidade que destruiu ali mesmo o ritmo do meu quotidiano.
Enfim N pôde sta ser um poko simplista ma ser natural é um manera di stá na arte y na vida [kel ki ta une pessoas, amigus y kumplisis] . É ta prova ma inda é pussível ser honestu y artista u mesmu tempu, kusa ki N ka ta flá ma ta correspondi á maioria de artistas di nôs praça. N ta atxa també ma es honestidadi y es liberdadi é um interessi verdaderu pa conteúdu y não pa fla flá, astúcia y cenas kantadu na ritmo de ideologia.
Môda nha mãe ta flaba: dádu ku tudu alguem, ou seja ... ser natural.

sexta-feira, agosto 24, 2007

M di MINTIRA!

Magistral testu em kriôlu di Kizó na sê blogue «Multimerdia»: «MENTIRA! moda es ta dze, es pode ingana alguns pessoas alguns vez.. mas nao tud gente i tud vez! Pelo menos mim es ka inganam! i n sabe ma tem txeu kes ka ingana tambe. No pta um "oiada" na o k k kontce ess one na Festival de Musica de Baia das Gatas (3, 4 & 5 de Agosto de 2007)» - http://cvmultimerdia.blogspot.com/

quinta-feira, agosto 23, 2007

L de Lei e Lobbie [para Sector da Criação Audiovisual]

Pensei numa proposta de Lei, que faça de Cabo Verde um paraíso para os criadores audiovisuais: funda-se um Instituto vocacionada para a cinematografia e artes audiovisuais que dependeria não de um Ministério da Cultura mas sim de um ministério da educação, ciência e tecnologia (penso que de deveria juntar a ciência e tecnologia á educação). Esse ministério proclamaria, então, uma espécie de lei de fomento e promoção de cinematografia e de sector audiovisual que contemplaria ajudas automáticas que se poderiam obter em percentagens adjudicadas pelas grandes empresas que actuam em Cabo Verde e que por seu turno obteriam incentivos fiscais por parte do governo. Com as convocatórias anuais que o nosso Ministério fizer para projectos de novos realizadores, filmes de carácter experimental ou documentários, as pequenas produtoras audiovisuais, que já existem no país, em vez de centrar os seus esforços apenas na publicidade institucional poderiam optar pela exploração da ficção e documentário. Teria ainda que haver, por parte dos intelectuais de esquerda no país, alguma vontade de premiar obras experimentais de decidido conteúdo artístico e cultural nas áreas de escrita de guiões, de realização de curtas e longas metragens de ficção e documentário. Cada convocatória fixaria o número de projectos fílmicos a serem beneficiados, assim como a sua quantia. Sim: isso seria o paraíso para qualquer criador na área das artes audiovisuais.


Mas, pé na têra, em Cabo Verde - pelo menos a ultima vez que dei uma olhada no decreto-lei do país relacionado com as medidas do nosso Ministério da Cultura - disponibilizava-se 500 contos caboverdeanos diluídas, em termos de sector visado, para a arte em geral e activismos culturais. Nada que contemplasse, especificamente, criações no domínio das artes audiovisuais. Não podemos desculpar-nos por sermos um país pobre. O dinheiro consegue-se em parcerias nacionais e internacionais. Não há vontade nem disponibilidade por parte do governo em por mãos á obra para um sector que simboliza, em qualquer parte do mundo, «o album de familias nacional». Nesse particular só estou mesmo a falar em elevar o audiovisual ao domínio da artes e na importância da criação individual *. Só assim teremos verdadeiros cineastas caboverdeanos.



É sabido que uma obra de arte ou uma iniciativa cultural só se pode concretizar com apoios financeiros, logísticos e morais. Mas, se quisermos a excelência, será preciso transcender isso em direcção á um movimento estético, a um conhecimento crítico da realidade e isso é da responsabilidade dos nossos ilustres intelectuais da praça e das instâncias governativas que detêem o dinheiro, bem como o controlo dos diferentes práxis lobbiesticas. [Ma é ta bira um grândi makakada si es «lobbie stétiku» traze se traz kel lobbie regionalista do tipo sampadjudu vs. badiu ou pior ainda um lobbie gay de kontornus mal definidus]..






Xam toma benson de Herbert Marcuse, que defendia a função cognitiva da arte: é possivel que os homens do poder vejam na arte de um determinado artista a força normativa que eles advogam para si mas na mesma linha podem torcer o nariz a qualquer obra criativa que lhes sussure ao ouvido «as coisas têem que mudar». Bem, é que aí não há mesmo dinheiro para ninguem. A máquina ideológica não lhe responderá: a esse segundo.



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* Só a título de exemplo, neste momento em Portugal (um pequeno país da UE) a PT Multimedia em colaboração com o Governo criou um fundo de 83 milhões de euros que foi colocada sob a égide do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) para os próximos 5 anos de produção de documentários e ficção portuguesas ( aes també es kópia kel mudelu li di otos paízis europeu y dja ki nu ta stá só nas ses kadera, n'é?). De ressalvar que neste momento o ICA já disponibiliza 10.000 euros só para o capítulo de desenvolvimento de um projecto de documentário de criação.

quarta-feira, agosto 22, 2007

K de Kafuka Cine Clube

O Kafuka Cine Clube deve ter sido das coisas mais originais que já surgiu na cena cultural praiense e caboverdeana. A visão de uma cultura cinematográfica concebida partir de uma pequena lamparina a óleo é proverbial. Na altura em que fora criado muito se discutiu acerca da sua pertinência na vida cultural cabo-verdiana. Mesmo que não tenha resultado num empreendimento de grande envergadura prefigurou, na altura, um cenário na qual os cinéfilos pudessem desfrutar de grandes filmes e, ulteriormente, os cineastas amadores pudessem definir, com visionamentos e workshops, uma estética e um estilo pessoal. O grupo reunia-se ocasionalmente para definir e debater os programas (kau ki staba ami, Paradela, Mónica, Vanilde, Paulo, Catarina, Luísa, Eveline,entre outros). Parece ter sido apenas uma utopia ... ou provavelmente não. È que depois dessa espécie de «parto histérico», o Kafuka Cine Clube entrou em coma profundo. Mas, segundo li por aí, parece que as coisas deverão voltar á normalidade: espero que, mantendo-se a ideia original. Seria uma pena não continuar: é que foi bonito a forma como tudo começou e seria bom se a chama da pequena lamparina se mantiver sempre acesa.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Juventude

«Juventude, idade da loucura e de sonhos, de poesia e de asneira - sinónimos na boca de pessoas que julgam o mundo sãmente

Gustave Flaubert

quinta-feira, agosto 09, 2007

João Vário (1937-2007)

Oui, éloignés du pays natal / nous n'avons pas vu le catafalque du père. / Cependant, les six pieds de terre que nous n'avons pas / regardés ni touchés / sont là sous nos souliers / et la poussière à nous se dissout peu à peu / dans ces six mesures de terre [...]
Exemple Restreint (Livro 7)

quarta-feira, agosto 08, 2007

Eileen

A Eileen da Soncent deu-me há dias uma «luva na cara» lançando-me um desafio para ver quem fica com o template que ambos usamos por coincidência. Confesso que não me interessava muito continuar com este blogue mas depois do repto dela resolvi continuar; como diz o brasileirão: é pra encará, fazé o quê!? Tive curiosidade em conhecer a minha adversária: fui ao blogue dela levantar-lhe o véu e, para dizer a verdade, não me vejo muito a competir com ela. A rapariga tem uns olhinhos mais bonitos do que o meu (estou a referir-me ao que ela escreve). Já viu mais coisas e ainda por cima viaja muito. Ela atingiu o meu blogue e o meu mundo de um ângulo diferente.
Devo dizer que já é a segunda mulher que me «pica» a propósito: a primeira foi a Kamia Sopafla
ao ter-me incentivado a criar o blogue. La acedi ao apelo dela. Agora é a Eileen que reclama o template só p'ra ela. Só uma pergunta Eileen: como é que se joga aos oito malucos?

segunda-feira, agosto 06, 2007

MEDIA II. Rupert Murdoch - o «Citzen Kane» do sec. XXI

Rupert Murdoch o magnata detentor de um vasto império mediático comprou a Dow Jones & Company editora do importantíssimo diário económico The Wall Street Journal por cerca de 4 mil milhões de euros: o mesmo diário que tecia duros editoriais contra ele e que o tinha acusado, numa grande reportagem, de utilizar os seus jornais e televisões para promover os próprios interesses económicos e ideológicos por todo o mundo. A família Bancroft que detinha a maioria dos votos da cia. não resistiu á pressão financeira imposta pelo multimilionário, vendo-se «engolido» pelo seu enorme império. Rupert Murdoch é já o mais poderoso media mogul neste tempo de lobos - o «Citzen Kane» do sec. XXI.

MEDIA I. A bloguista mais popular do mundo

Xu Jinglei, actriz e realizadora chinesa é a bloguista mais popular do mundo. Cem internautas por minuto visitam o seu sítio. A pesquisa levada cabo pela Technorati refere que o seu blogue bateu no passado 12 de Julho todos os recordes chegando aos cem milhões de visitas. O sucesso da Xu Jinglei não se deve a tricas e mexericos, mas sim ao estilo de escrita acessível que faz sobre o seu dia-a-dia (0s textos falam do seu trabalho no mundo do cinema ou da comida de que gosta, por exemplo). Ganhou projecção internacional quando venceu o prêmio para melhor realizadora com o filme Cartas de uma Mulher Desconhecida, em 2004, no Festival de Cinema San Sebastián, em Espanha. Outro jovem blogueiro pode vir a ultrapassar a actriz. Trata-se de um jovem escritor de 24 anos que conta as histórias de uma existência problemática quando ainda estava na escola, para alem de escrever sobre a sua obsessão por corrida de carros.

sexta-feira, agosto 03, 2007

O Adeus á Michelangelo Antonioni

Com uma cerimônia sóbria marcada por cantos fúnebres a cidade de Ferrara se despediu nesta quinta-feira de seu notável filho Michelangelo Antonioni, o último nome dos grandes mestres que deram fama e prestígio ao cinema italiano, na basílica de San Giorgio.
Na elegante e antiga igreja de sua infância, 500 pessoas se reuniram, entre amigos íntimos, familiares e pessoas comuns, para dar o último adeus a Antonioni, que faleceu na segunda-feira em Roma aos 94 anos.
"Agora está além das nuvens, onde pode voltar a falar", comentou ao término da cerimônia o diretor de cinema alemão, Win Wenders, que foi seu amigo e co-autor de um de seus últimos filmes, "Além das nuvens", realizado em 1995, quando o mestre estava doente e sem fala.
"Seu corpo exposto aqui me transmite serenidade. Michelangelo terminou como sempre quis, em meio à neblina de Ferrara, sua cidade", disse o roteirista e poeta Tonino Guerra.
"Eram maravilhosas as suas discussões e gestos democráticos", lembrou Guerra.
Na primeira fila, diante do caixão de madeira clara com uma cruz fina dourada, cercado de poucas coroas de flores, estava sua esposa Enrica Fico, sua companheira por 35 anos e sua sobrinha Elisabetta, a quem o cineasta havia pedido no ano passado que o enterrasse no cemitério de Ferrara, ao lado da tumba de seus pais.
Ninguém chorava, ninguém deixou transparecer a emoção, apenas o respeito e a admiração dominaram a cerimônia, celebrada pelo padre Massimo Manservisi, um sacerdote apaixonado por cinema, que elogiou a visão aberta aos questionadores e curiosa de Antonioni.
"Como Nicodemo (líder dos fariseus que defendeu Cristo), Michelangelo estava atento aos sinais, dissecava o ser humano, seus olhos eram como os de um pintor flamenco", disse o religioso.
Diante das autoridades locais e regionais, a vice-prefeita da cidade, Rita Tagliati, que decretou um dia de luto, anunciou que o museu de Antonioni, aberto desde 1995 pelo próprio mestre, será completamente remodelado para alojar mais obras e filmes.
Apesar de ter sido ligado ao Partido Comunista italiano, o "intelectual do cinema" e "mago da luz", como foi chamado, quis que um tradicional funeral católico fosse celebrado em sua homenagem.
"Uma vez perguntaram a Antonioni em uma entrevista se acreditava em Deus e respondeu: sim, algumas vezes, à noite", contou o padre, que ressaltou a capacidade do artista de superar a doença que o manteve paralisado e sem fala por 22 anos após um derrame cerebral.
Uma longa fila de pessoas, muitas delas idosas, passou pelo caixão fechado para se despedir deste gigante do cinema que foi enterrado com discrição e elegância, características marcantes deste gênio da sétima arte.
"Viemos muitas vezes com Michelangelo a Ferrara, pelo rio, Pó e vir a Ferrara era uma viagem à luz, à luz de sempre. Buscava sempre essa luz, sua cidade, por isso descansará aqui", disse sua viúva.



In: O Ultimo Segundo

Fonte: AFP

Bergman fala sobre Antonioni





«O filme é um medium curioso no sentido em que se tens algo para dizer podes realmente dizê-lo com um filme, mesmo que sejas um tanto ou quanto desajeitado...» - disse Antonioni. «Esses jovens realizadores que mergem agora conhecem já muito bem esta profissão e seus aparatos técnicos mas muito raras vezes têem algo para dizer...» corrobora Bergman.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Bergman «sobrenatural»

João Bernard da Costa escreveu recentemente que Ingmar Bergman é dos poucos cineastas que se pôde orgulhar de ter epítetos como «bergmanomania». Já se disse dele coisas como «Bergman saved my life» ou «família de bergmanistas inveterados» . Cada qual tem o seu Bergman. O «meu» Bergman (apesar de não ser o meu cineasta de eleição) descobri-o progressivamente, á medida que ia, ao acaso, á Cinemateca Portuguesa. Cheguei tarde mas uma das primeiras coisas que verifiquei foi a riqueza textual nos seus filmes e que só o teatro pela sua natureza formal consegue. Só mais tarde vim a saber que ele foi primeiro dramaturgo e encenador e só depois cineasta, relação essa que ele veio a comparar ao conflito «mulher fiel» (o teatro) vs. «amante» (o cinema, evidentemente). Dizia, o «meu» Bergman é o Bergman do sobrenatural e do agnosticismo mais do que o Bergman das mulheres (aquilo porque ele é mais conhecido). Saboreei o jogo de xadrez com a morte em «O Sétimo Selo» e fartei-me de rir quando a personagem do insubmisso adolescente Alexander leva, no final da película «Fanny e Alexandre», um tabefe do fantasma do bispo, seu padrasto, que o castigara pela sua insubmissão e protesto aos horrores antes inflingidos á ele, à irmã e à mãe. Enternecedor foi vê-lo, depois, a procurar o quarto da avô e a aninhar-se aos pés dela. Esse tipo de cenas da vida conjugal são verdadeiramente sublimes em Bergman. Compreendo, ao mesmo tempo, a sua posição enquanto agnóstico quando coloca na boca desse mesmo personagem esta frase: «Se Deus existe então é um deus de caca e mijo».

Foi também Bergman quem deu á Morte o rosto que mais profundamente se incrustou no imaginário colectivo ocidental apartir da segunda metade do séc. XX - a do actor Bengt Ekerot no jogo de xadrez com a morte. Perdida a batalha com a morte terá agora Bergman todas as respostas sobre o sobrenatural? Verá, aquele que é considerado o mestre dos grandes planos, um grande plano do rosto de Deus?

quarta-feira, agosto 01, 2007

Crepúsculo dos Deuses

Anteontem, quando morreu Ingmar Bergman todos os cinéfilos lembraram-se de imediato da ultima grande figura de vulto ainda viva : Michelangelo Antonioni, outro revolucionário da 7.ª arte. Mas passadas 12 horas este último morria calmamente sentado na sua poltrona. Desapareceram ambos no mesmo dia e num final simbólico o cinema perde, desta forma curiosa, dois dos seus maiores criadores. Assombroso! Assim como o legado ficcional que ambos deixaram.

Michelangelo Antonioni (1912-2007)

«O meu contributo para uma nova linguagem é assunto que diz respeito aos críticos de amanhã.» Michelangelo Antonioni

Ingmar Bergman (1918-2007)

«Tentei dizer a verdade sobre a condição humana - a verdade como eu a vejo.» Ingmar Bergman